
Matheus Castanho Virgulino, Internacionalista
Poucas coisas são mais eficazes em desumanizar nossos semelhantes do que a guerra. Através da fuligem e das cinzas da peleja, do cheiro enjoativo da morte e da destruição, é tão fácil ver todos como meras engrenagens de uma máquina, como meros peões direcionados para a aniquilação. Mas é através desses eventos que a faísca da humanidade brilha mais intensamente, e onde são lembrados os louros da paz.
O ano de 1914 marcaria uma tragédia seminal na história de nossa espécie, pois a primeira guerra mundial emergiu como a conclusão natural da rivalidade entre grandes potências. Em julho, nas movimentadas ruas de Sarajevo, o arquiduque austríaco foi assassinado, e no mês seguinte botas alemãs já estavam na Bélgica, e todas as grandes potências da Europa se juntaram à marcha para a guerra. Como Lord Grey, o famoso secretário de Relações Exteriores britânico, disse na época: “As lâmpadas estão se apagando em toda a Europa, não as veremos acesas novamente em nossa vida” (CRONAN, 2014, tradução nossa).
Foi um sintoma do modernismo sem limites da época, assim como do otimismo geral característico da Europa fin-de-siécle, que a maioria pensava naquele estágio inicial que a guerra já estaria vencida antes da chegada do Natal (EKSTEINS, 1989). Os alemães já podiam imaginar sua entrada triunfal em Paris, assim como os britânicos e franceses pensavam no Kaiser enforcado em Berlim. Por fim, nada aconteceu, a guerra atingiu um ponto estagnado conforme a realidade da guerra industrial se tornou aparente, e quando a neve invernal caiu no chão, ela estava cercada por trincheiras e peças de artilharia.
No final daquele ano fatídico, como os ódios profundos dos anos posteriores ainda não estavam totalmente enraizados na psique daqueles que estavam lutando, um verdadeiro milagre aconteceu. Nas trincheiras opostas que delimitavam os campos do leste da França, homens do exército francês e da força expedicionária britânica ouviram soldados alemães cantarem canções de natal e se divertirem com os presentes enviados por seus entes queridos. Os alemães também ouviram o mesmo de seus oponentes do outro lado. Não muito tempo depois, mensagens começaram a circular pelas trincheiras, e botas saíram de seus buracos no chão em direção ao campo aberto (Imperial War Museum, 2024).
Na véspera de Natal de 1914, um cessar-fogo foi declarado em certas partes da frente ocidental, para grande oposição dos estados-maiores da Entente e das Potências Centrais. Por uma noite, a terra de ninguém se tornou a terra de todos, e oponentes odiosos se tornaram irmãos. Soldados franceses, britânicos e alemães jogaram futebol na terra queimada, comeram chocolate perto de fogueiras, e o vinho da Borgonha foi trocado por cerveja da Baviera. Esses homens, castigados pelas dificuldades da vida de soldado, encontraram em seus semelhantes a familiaridade capaz de romper as fronteiras linguísticas e nacionais, para criar uma única massa de humanidade.
Embora o cessar-fogo não tenha sido observado em todos os lugares, e os homens ainda lutaram, sangraram e morreram em outras partes do front, a trégua ainda se manteve em alguns lugares (id.). Até hoje, é uma das maiores tréguas espontâneas a ocorrer durante uma guerra. É um lembrete de que, embora a humanidade possa descer às suas tendências mais sombrias, seus ideais ainda podem brilhar, e a terna fraternidade florescer independentemente das ambições de impérios.
Nos dias seguintes, soldados foram transferidos, pois muitos deles se recusaram a lutar contra aqueles com quem tinham compartilhado o Natal. Novas ordens foram enviadas, e inspetores foram mobilizados para evitar que tal ocorrência acontecesse novamente. Nos três anos seguintes de guerra, nenhuma trégua foi observada novamente, enquanto a barbárie da guerra mostrou sua face feia com a entrada do tanque, do avião e do gás mostarda. Essa “batalha pela possessão do mundo”, como Ernst Jünger (2004) a descreveu, continuou até que as Potências Centrais estivessem esgotadas, e a entente triunfante, ainda que involuntariamente, plantava as sementes da próxima guerra em Versalhes.
A trégua de Natal lança dúvidas sobre todos os teóricos que proclamam a humanidade como inerentemente guerreira. Que consideram a soma da história como nada mais do que relações de poder mutáveis entre indivíduos e nações. Ela proclama ao mundo que os desejos naturais dos homens são alegria e paz, que tudo o que é preciso é um lampejo de humanismo para abaixar as baionetas e cessar o rugido dos canhões.
REFERÊNCIAS:
CRONAN, James. THE LAMS ARE GOING OUT ALL OVER EUROPE. The National Archive, 2014. Disponível em: https://blog.nationalarchives.gov.uk/lamps-going-europe/
EKSTEINS, Modris. RITES OF SPRING: the Great War and the Birth of the Modern Age. Boston: Houghton Mifflin Company, 1989.
IMPERIAL WAR MUSEUM. THE REAL STORY OF THE CHRISTMAS TRUCE. Imperial War Museum, 2024. Disponível em: https://www.iwm.org.uk/history/the-real-story-of-the-christmas-truce
JUNGER, Ernst. STORM OF STEEL. Penguin Classics: 2004.
