
Matheus Castanho Virgulino, internacionalista
É comumente dito que existem décadas em que nada acontece, e semanas em que décadas acontecem. Esse é um fenômeno reconhecível na história humana, onde períodos de grande agitação social, conflitos geopolíticos e mudanças tecnológicas demolem antigas certezas e instituições. Parece difícil não caracterizar o que está a ocorrer na Síria, onde uma ditadura multigeracional caiu em questão de dias, como uma dessas ocasiões.
A história moderna do Oriente Médio tem sido caracterizada pela tentativa de construir estados sobre fronteiras traçadas artificialmente e em lugares onde não havia sentimento nacional. Isso gerava consequentemente conflitos entre as novas estruturas centralizadoras e antigas formas de poder baseadas na família e na tribo. Como dito por Kostiner e Khoury (1991, p.130): “Qualquer estrutura estatal, sendo um monopólio centralizado de poder, vai contra todos os tipos de organização social tribal segmentar na medida em que a distintividade e um certo grau de autonomia são características básicas de qualquer tribo”
A Síria, um país marcado por profundas divisões étnicas e religiosas, com uma maioria árabe sunita e significativas minorias curdas, drusas, cristãs e xiitas, enfrentou desafios para a formação do estado desde o início. Após sua independência da França, e inspirada pela ideologia do pan-arabismo, a Síria entrou em uma breve união com o Egito em 1958, que acabou em 1961, antes de sofrer vários golpes militares sob a ala militar do partido Socialista Árabe ou Ba’ath. O resultado dessas disputas internas pelo poder foi a consolidação do poder em um golpe de 1970 por Hafez Al-Assad, que estabeleceu uma ditadura hereditária sob sua família (Seale, 1990).
O regime de Assad foi todo poderoso na Síria até o final do século XX até 2011. Sendo sucedido por seu filho Bashar Al-Assad em 2000, Hafez criou um sistema abrangente de repressão e corrupção no estado sírio, com uma polícia secreta que sufocou a oposição e um parlamento subserviente que garantiu o governo pessoal. Sendo da minoria alauíta, o regime de Assad também usou seu poder para beneficiar seu próprio grupo às custas de outros. O regime Assad construiu uma extensa rede de patronagem e clientelismo, distribuindo favores e benefícios a indivíduos e grupos leais em troca de apoio político, e suprimindo manifestações étnicas locais (id.).
A estrutura desmoronou em 2011, quando as mudanças sociais do século XXI despertaram sentimentos de rebelião por todo o Oriente Médio no que ficou conhecido como a Primavera Árabe. Outras ditaduras duradouras no Egito e na Tunísia entraram em colapso, e parecia que Bashar também estava a caminho de uma mudança de regime que o veria deposto. Por fim, isso não aconteceu, principalmente devido à dimensão internacional da Guerra Civil Síria que se seguiria.
A ordem pós-americana no Médio Oriente que se seguiu à Guerra do Iraque abriu a oportunidade para que atores alternativos, sejam eles potências revisionistas como a Rússia e o Irão ou grupos jihadistas, interviessem significativamente numa Síria dividida (Phillips, 2016). A Rússia precisava da Síria porque é lá que tem seu único porto militar no Mediterrâneo, sendo essencial para sua projeção de poder na porção sul da Eurásia. A Síria também se tornou parte do “eixo de resistência” do Irã, sua rede de aliados regionais para conter o poder israelense e saudita. Com dois de seus rivais geopolíticos na região, os EUA sob a administração Obama e seu aliado na Turquia também entraram no conflito. Assim, a guerra civil na Síria tornou-se uma guerra por procuração.
Durante anos, o conflito se alastrou furiosamente, com a ascensão adicional do Estado Islâmico em certas áreas do país, iniciando um reinado de terror na região. O regime de Assad aumentou sua repressão política, colocando dezenas de milhares em prisões de tortura, como a infame Sednaya, perto de Damasco, e também usou armas químicas contra seu próprio povo, causando uma nova onda de ataques americanos no início da presidência de Donald Trump. Mas, na maior parte, Assad tinha a vantagem, e parecia que ele venceria a guerra, com até mesmo certos países árabes o readmitindo na liga árabe.
A guerra na Ucrânia e a guerra em Gaza mudaram todo o equilíbrio de forças no país. O regime de Assad era inteiramente dependente da ajuda e do apoio militar dado pelo Irã e, especialmente, pela Rússia. O poder aéreo russo protegia as posições do Exército Árabe Sírio contra as forças rebeldes, e Assad podia contar com o grupo alinhado ao Irã Hezbollah em seu flanco sul pelo Líbano. A Rússia então ficou presa em sua invasão da Ucrânia, com suas enormes perdas de combate forçando-a a reter suas forças no teatro de operações europeu. A destruição sistemática do eixo iraniano de resistência por Israel após a guerra em Gaza também destruiu a hierarquia militar do Hezbollah, tornando-a praticamente inativa. Isso, combinado com o colapso econômico da Síria, fez com que o regime de Assad perdesse todas as suas cartas (ALJAZEERA, 2024).
O apoio renovado da Turquia aos grupos rebeldes, especialmente o antigo grupo dissidente da Al-Qaeda, Hayat Tahrir al-Sham (HTS), também foi fundamental, resultando em uma aliança rebelde mais bem treinada e móvel (id.). As operações começaram em 27 de novembro com os avanços nas principais cidades de Allepo e Hama. HTS, assim como outros grupos rebeldes seculares e Curdos avançaram em uma blitzkried sobre as posições defensivas do regime, com a baixa moral e corrupção das forças armadas possivelmente contribuindo para o rápido colapso. Em meados de dezembro, a capital da Síria, Damasco, havia caído, e Bashar-Al Assad havia fugido (ROBINSON, 2024).
Tudo isso mostra um princípio fundamental, seja da economia ou da ciência política: os países são definidos pela natureza de suas instituições. Segundo Acemoglu e Robinson, os países se tornam estados falidos quando suas instituições existem apenas em favor de uma elite política e econômica, com a consequente parasitação do estado resultando em pobreza e instabilidade política. Os suntuosos palácios do regime contrastam fortemente com as favelas onde vivia grande parte da população de suas cidades, mas também sugerem os efeitos profundos que as ditaduras podem ter na evolução de uma sociedade.
Esta nova Síria, qualquer que seja sua manifestação política, deve lidar com o legado de brutalidade e fracasso institucional que a precedeu, assim como muitos outros países tiveram que fazer quando os tiranos que a governavam caíram.
REFERÊNCIAS:
ACEMOGLU, Daron; JAMES, Robinson. WHY NATIONS FAIL: the origins of Power, Prosperity and Poverty. New York: Crown Publishers, 2012.
AL JAZEERA. WHAT HAPPENED IN SYRIA? HOW DID AL-ASSAD FALL?. Al Jazeera, 2024. Disponível em: https://www.aljazeera.com/news/2024/12/8/what-happened-in-syria-has-al-assad-really-fallen
PHILLIPS, Christopher. THE BATTLE FOR SYRIA: International Rivalry in the Middle-East. Yale: Yale University Press, 2016.
ROBINSON, Lou. HOW SYRIA’S REBELS TOPPLED THE ASSAD REGIME, IN 7 MAPS. CNN, 2024. Disponível em: https://edition.cnn.com/world/middleeast/map-syria-civil-war-assad-dg/index.html
SEALE, Patrick. ASAD: the Struggle for the Middle East. Berkley: University of California Press, 1990.
