Maysa Lisboa,

Acadêmica do 7º semestre de Relações Internacionais 

A figura de Gal Costa representa, em várias dimensões, os significados de ser uma grande mulher. Ela não se resume apenas a ser reconhecida como cantora, compositora e multi-instrumentista. Para além disso, ela reflete muito mais sobre o que significa ser uma figura icônica da música brasileira, com a capacidade de transcender os campos artísticos e musicais. Gal tornou-se uma agente de resistência cultural e política de enorme relevância, tanto no contexto nacional quanto internacional. Durante a ditadura militar no Brasil, suas músicas e performances desafiaram as estruturas de poder, tornando-se um símbolo da luta pela liberdade e pela diversidade cultural, além de contribuir para a construção de uma identidade cultural híbrida e resistente, tanto no Brasil quanto no exterior. Sua projeção internacional também revelou o poder da cultura como ferramenta de soft power, ajudando a moldar a imagem do Brasil no mundo e destacando a riqueza e diversidade do país.

Desta forma, nasce em Salvador, Bahia, no dia 26 de setembro de 1945, Maria das Graças Penna Burgos, que viria a ser reconhecida nacionalmente e mundialmente com o nome de Gal Costa. No ano de 1963, sua vizinha, Dedé Gadelha, a apresentou a Caetano Veloso. Na década de 1960, surgiu uma das mais bonitas e ousadas vozes da música popular brasileira. Participou do show “Nós, Por Exemplo” na inauguração do Teatro Vila Velha (1964), ao lado de artistas proeminentes como o próprio Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Bethânia e Tom Zé. Em 1965, lançou seu primeiro disco ao lado de Caetano Veloso e no seguinte participou do I Festival Internacional da Canção com a música “Minha Senhora” de Gilberto Gil e Torquato Neto. (EBIOGRAFIA, 2019)

Como uma das protagonistas do Tropicalismo, um movimento que misturava elementos culturais brasileiros, regionais e globais, lançou seu primeiro disco solo que alcançou grande sucesso. “Gal Costa” (1969), com as músicas “Que Pena”, “Não Identificado”, e nas canções como “Baby” e “Divino Maravilhoso”, ela desafiou a hegemonia cultural imposta pela ditadura e pela globalização, promovendo uma estética híbrida que, segundo o teórico Stuart Hall, descreve como característica das identidades culturais pós-coloniais, na sua obra Cultural Identity and Diaspora, argumentando que as identidades não são fixas, mas constantemente reconstruídas em resposta a contextos históricos e políticos. O Tropicalismo, assim como foi denominado, exemplifica esse conceito, ao integrar elementos da música popular brasileira tradicional com influências internacionais, desafiando narrativas culturais homogêneas.

Nos anos de 1970, ela lançou “Fa-Tal: Gal a Todo Vapor”, gravado ao vivo, que serviu para carregar a bandeira do Tropicalismo, gravou a música de abertura da novela Gabriela, se consagrou como a intérprete de MPB e lançou “Gal Tropical” quando cantou alguns de seus maiores sucessos como: “Balancê”, “Força Estranha”, “Meu Nome é Gal”. Além disso, seu álbum Índia foi lançado em uma embalagem preta lacrada devido ao conteúdo considerado contra os “bons costumes” (OBSERVATORIODASDESIGUALDADES, 2022).

Em 1980, Gal Costa lançou “Aquarela do Brasil”, se tornando mais pop, “Canta Brasil” e “Festa do interior”. Em parcerias com diversos artistas, alcançaram grande sucesso, porém a sua aclamação popular se consolidou com o disco “Bem Bom”, de 1985. Foi nesse período que a artista abraçou mais as causas sociais, utilizando a música para trazer visibilidade para as problemáticas do país (EBIOGRAFIA, 2019)

Nos últimos 20 anos, foi reconhecida no Hall of Fame do Carnegie Hall, sendo a única cantora brasileira a entrar no Hall, após participar do show “40 anos de Bossa Nova”, em homenagem a Tom Jobim (JORNALUNESP, 2022). Lançou o álbum “Hoje” em seguida de “Recanto”, concebido e composto por Caetano Veloso, o disco marcou a volta da cantora depois de seis anos sem gravar. Ela foi eleita como a sétima maior voz da música brasileira pela revista Rolling Stone Brasil em 2012. Em 2015, lançou “Estratosférica”, em três formatos – LP, CD e download. O repertório reúne as músicas “Sem Medo, Nem Esperança”, “Casca”, “Anuviar”, “Ecstasy”, “Dez Anjos”, entre outras.

 A postura artística e pessoal da cantora rompeu com os papeis tradicionais atribuídos às mulheres no Brasil. Sua presença performática, letras provocativas e visual ousado desafiaram normas patriarcais. Assim como Chandra Mohanty, em sua obra Feminism Without Borders: Decolonizing Theory, Practicing Solidarity, na qual enfatiza a necessidade de ouvir as vozes das mulheres do Sul Global, frequentemente marginalizadas pelos discursos dominantes. A música de Gal Costa, nesse contexto, torna-se um espaço de resistência que dá voz a uma mulher brasileira, rompendo com padrões patriarcais e coloniais demonstrando que as mulheres não são apenas vítimas, mas agentes de transformação cultural e política.

Após sua última apresentação no festival Coala, em São Paulo, Gal Costa faleceu no dia 9 de novembro de 2022, aos 77 anos, enquanto se recuperava de uma cirurgia. Sua trajetória, marcada por reinvenções e rupturas, é um reflexo da junção entre o grito do rock e o canto popular (ITAUCULTURA, 2022).

A vida e a obra de Gal Costa personificam a resistência cultural e o empoderamento feminino. De uma jovem baiana que desafiava normas em Salvador a uma estrela internacional que deu voz à diversidade cultural do Brasil, sua trajetória dialoga profundamente com os princípios das teorias de Chandra Mohanty e Stuart Hall. Gal não apenas encantou o público com sua arte, mas também recriou o imaginário brasileiro, rompendo barreiras culturais, ideológicas e coloniais no cenário global. Sua voz e legado continuam ecoando como símbolos de transformação e resistência.

Referências

GAL Costa. Enciclopédia Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira. São Paulo: Itaú Cultural, 2024. Disponível em: https://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoas/4571-gal-costa. Acesso em: 10 dez. 2024.

GAL COSTA consolidou-se como maior cantora da moderna música popular brasileira, diz docente da Unesp. Jornal Unesp. Disponível em: https://jornal.unesp.br/2022/11/12/gal-costa-consolidou-se-como-maior-cantora-da-moderna-musica-popular-brasileira-diz-docente-da-unesp/. Acesso em: 10 dez. 2024.

Feminism Without Borders The Danger of Believing in Universal Sisterhood. Mohanty, C. T. Feminism Without Borders: Decolonizing Theory, Practicing Solidarity. Longueuil, Québec: Point Par Poin, 2007. Disponível em: https://www.graduateinstitute.ch/sites/internet/files/2021-05/Feminism%20Without%20Borders%2C%20Mohanty.docx.pdf. Acesso em: 10 dez. 2024.

GAL COSTA: conheça a história e as músicas mais famosas da cantora. Exame. Disponível em: https://exame.com/casual/quem-foi-gal-costa-conheca-a-historia-e-as-musicas-mais-famosas-das-cantora/. Acesso em: 10 dez. 2024.

HALL, S. Cultural Identity and Diaspora. Disponível em: https://warwick.ac.uk/fac/arts/english/currentstudents/postgraduate/masters/modules/asiandiaspora/hallculturalidentityanddiaspora.pdf. Acesso em: 10 dez. 2024.

Observatório das Desigualdades. Gal Costa e a resistência cultural. Disponível em: https://observatoriodesigualdades.fjp.mg.gov.br/?p=2695. Acesso em: 10 dez. 2024.

Culture As Soft Power In International Relations. ResearchGate. Novembro de 2015. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/284812827_Culture_As_Soft_Power_In_International_Relations. Acesso em: 10 dez. 2024.

Gal Costa. Disponível em: https://www.ebiografia.com/gal_costa/. Acesso em: 10 dez. 2024.