
Enzo di Lucca – 5° semestre de Relações Internacionais da Unama
Segunda-feira, 20 de janeiro de 2025, Donald J. Trump, 45º presidente dos Estados Unidos, reassume o poder como o 47º. Mesmo após um primeiro mandato conturbado – concluído com o que muitos analistas classificam como uma tentativa de golpe de Estado em 6 de janeiro de 2021 – e uma pós-presidência marcada por acusações de fraude fiscal e indiciamentos por estupro, 49% dos eleitores estadunidenses o escolheram novamente para o cargo. Desta vez, contudo, o Trump eleito em 2024 não é o mesmo de 2016. Mais organizado e experiente nos caminhos de Washington, ele apresenta uma série de políticas distintas, que vão desde a consolidação de seu poder em âmbito doméstico até o direcionamento dos conflitos em Gaza e na Ucrânia – iniciativas que prometem abalar não só os EUA, mas o mundo de forma profundamente diferente.
Após a posse em seu primeiro mandato, em janeiro de 2017, Trump descobriu que, ao contrário do que imaginava, o poder da presidência não era ilimitado, mas sim regulado pelos guardrails da democracia estadunidense. Os guardrails são os pesos e contrapesos da democracia – instituições, entidades ou legislações que limitam possíveis excessos do poder executivo. O Congresso, as cortes federais e os servidores públicos de carreira são alguns desses freios institucionais.
Em seu segundo mandato, Trump terá em suas mãos o controle do Congresso pelo Partido Republicano, desta vez mais alinhado ao presidente. Nas cortes, Trump contará com um número muito maior de juízes federais sustentando suas políticas em diferentes instâncias, uma vez que, em seu primeiro governo, indicou um número recorde de juízes para posições vagas, incluindo um terço da Suprema Corte dos EUA.
Em relação aos servidores públicos, Trump – que durante a campanha vociferou contra eles por desafiarem suas decisões, os chamando de agentes do ‘Estado Profundo’ e do ‘establishment’ – já afirmou que emitiria uma ordem executiva reclassificando uma porcentagem desses servidores como indicações políticas, abrindo caminho para nomeações leais ao seu projeto de poder.
Estes movimentos indicam que, ao contrário de 2017, Trump entra em 2025 com um plano bem estruturado para reduzir as limitações ao seu poder e eliminar contestações dentro do próprio território – uma estratégia que segue à risca os princípios descritos em The Dictator’s Handbook: “A chave para manter o poder é garantir que as instituições que deveriam limitar seu poder sejam preenchidas por pessoas leais a você” (BUENO DE MESQUITA; SMITH, 2011).
Os guardrails da democracia estadunidense, que por pouco contiveram os impulsos unilaterais de Donald Trump em seu primeiro mandato, estão em frangalhos para os próximos anos de seu segundo.
Enquanto busca enfraquecer resistências internas, o retorno de Donald Trump também sinaliza uma mudança brusca na diplomacia estadunidense. A guerra entre a Rússia e a Ucrânia, as relações comerciais com a China, as discussões sobre desdolarização dos BRICS+ e a recente escalada das tensões no Oriente Médio foram alguns dos maiores desafios de política externa enfrentados por seu antecessor, Joe Biden. Sobre o conflito russo-ucraniano, o novo presidente dos EUA nunca foi claro em relação às ações que sua administração tomaria. Quando questionado durante um town hall da CNN em maio de 2023, Trump declarou: “Eles estão morrendo, russos e ucranianos. Eu quero que eles parem de morrer. E eu vou resolver isso — eu vou resolver isso em 24 horas.” Se a posição do presidente não é clara, a de seu partido, por outro lado, preocupa o governo ucraniano. Os republicanos já obstruíram o avanço de pacotes de ajuda financeira à Ucrânia no passado, alegando que os gastos bilionários eram insustentáveis e, em 2025, além de limitar essa assistência, prometem realizar um pente-fino na aplicação desses recursos pelos ucranianos. (The Guardian, 2024)
Já no Oriente Médio, o apoio incontestável a Israel no conflito em Gaza, que se tornou uma das maiores manchas morais do governo Biden, deve se manter no segundo mandato de Trump. Dessa vez, porém, com um verdadeiro “cheque em branco” do presidente estadunidense, que não irá impor nem mesmo as mínimas restrições que Biden tentou estabelecer em relação à conduta israelense diante de crimes de guerra e violações de direitos humanos na região. Quando questionado se ele “apoia” a forma como Israel estava “levando a luta para Gaza”, o então candidato Trump respondeu: “Você precisa resolver o problema.” (Al Jazeera, 2024)
Um último ponto importante a ser observado no segundo mandato de Donald Trump será sua administração das relações comerciais dos EUA com os países do Sul Global, especialmente com a China. Durante a campanha de 2024, Trump demonstrou se manter um grande apoiador de tarifas como uma “arma” nas relações comerciais com outros países, especialmente com a China, com a qual travou uma “guerra comercial” em seu primeiro governo. Para o seu segundo mandato, no entanto, Trump promete uma tarifa de 10% sobre todas as importações, independentemente do país de origem. Além disso, conforme reportado pelo G1 (2024), diante do debate sobre a desdolarização promovido pelos países dos BRICS+, Trump, em sua rede social, Truth Social, ameaçou:
“Exigimos que esses países se comprometam a não criar uma nova moeda do Brics, nem apoiar qualquer outra moeda que substitua o poderoso dólar americano, caso contrário, eles sofrerão 100% de tarifas e deverão dizer adeus às vendas para a maravilhosa economia norte-americana” (G1, 2024)
Em última análise, a reeleição de Donald Trump e a consolidação de seu poder em 2025 refletem uma guinada acentuada em direção ao realismo ofensivo nas relações internacionais. A postura assertiva do presidente, que prioriza o uso de tarifas, o protecionismo e a imposição de condições unilaterais sobre aliados e rivais, evidencia a busca contínua dos EUA por preservar sua influência global diante da ascensão de países como a China e seus aliados. A lógica de Trump, ao enfraquecer instituições multilaterais e adotar políticas que desafiam diretamente adversários, reforça a ideia de que as grandes potências, em um ambiente anárquico, não confiam em ninguém além de si mesmas e agem de forma agressiva para garantir sua hegemonia regional – ou, no caso dos EUA, global – e evitar a ascensão de rivais (Mearsheimer, 2001). Ao enfraquecer alianças tradicionais, como no caso da Ucrânia, e questionar a legitimidade de organizações como a OTAN e a ONU, Trump demonstra a visão de que as instituições internacionais são meros reflexos do poder das grandes potências e se tornam irrelevantes quando não mais servem aos interesses nacionais (Mearsheimer, 1994). Se, em seu primeiro mandato, Trump foi contido por mecanismos institucionais, o cenário de 2025 aponta para um segundo governo com menos limitações, permitindo-lhe implementar uma perigosa agenda de poder mais alinhada ao seu ideal de nacionalismo unilateral.
Referências:
AL JAZEERA. Trump’s Gaza comments highlight tough choice for peace-supporting US voters. Israel-Palestine conflict News, 2024. Disponível em: <Trump’s Gaza comments highlight tough choice for peace-supporting US voters | Israel-Palestine conflict News | Al Jazeera>. Acesso em: 7 jan. 2025.
ASSOCIATED PRESS. Trump says he can end the Russia-Ukraine war in one day. Russia’s UN ambassador says he can’t. 2024. Disponível em: <https://apnews.com/article/trump-russia-ukraine-war-un-election-a78ecb843af452b8dda1d52d137ca893>. Acesso em: 3 jan. 2025.
BUENO DE MESQUITA, Bruce; SMITH, Alastair. The Dictator’s Handbook: Why Bad Behavior is Almost Always Good Politics. New York: PublicAffairs, 2011.
CNN. Donald Trump’s most controversial moments at CNN town hall. 2023. Disponível em: <https://edition.cnn.com/2023/05/11/politics/donald-trump-cnn-town-hall-video-moments/index.html>. Acesso em: 7 jan. 2025.
G1. Trump ameaça Brics com tarifas ‘de 100%’ se substituírem o dólar como moeda oficial. Mundo, 2024. Disponível em: <Trump ameaça Brics com tarifas ‘de 100%’ se substituírem o dólar como moeda oficial | Mundo | G1>. Acesso em: 7 jan. 2025.
MEARSHEIMER, J. J. The False Promise of International Institutions. International Security, v. 19, n. 3, p. 5-49, 1994.
MEARSHEIMER, J. J. The Tragedy of Great Power Politics. New York: W. W. Norton & Company, 2001.
THE GUARDIAN. Republicans erupt into open warfare over Ukraine aid package vote. 2024. Disponível em: <https://www.theguardian.com/us-news/2024/apr/20/republicans-ukraine-aid-package-congress>. Acesso em: 4 jan. 2025.
VOX. How Trump’s second term will be different. 2024. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=gK6MD_8S01o>. Acesso em: 3 jan. 2025.
