Antônio Vieira, acadêmico do 3° semestre de Relações Internacionais

Ficha Técnica

Duração: 2h 28min

Ano: 2024

Diretor (a): Ridley Scott

Distribuição: Paramount Pictures

País de origem: EUA

24 anos após o primeiro filme, o épico de ficção histórica, baseado em pessoas e eventos reais do período da Roma antiga, retorna com uma trama que expande o seu universo, mas que não deixa de lado o saudosismo em relação à jornada de Maximus, protagonista de Gladiador (2000). Nessa perspectiva, o longa é focado em Lucius (Paul Mescal), um jovem de raízes romanas que decide combater o império de sua cidade natal por razões pessoais e sociais, buscando também reformular a forma como a política é conduzida em Roma.

Lucius é apresentado como uma pessoa que possui uma vida normal de camponês ao lado de sua esposa no reino da Numídia, localizado no norte da África. Porém, tudo muda com a chegada do exército romano liderado pelo general Acacius (Pedro Pascal). Crítico do expansionismo do império, sendo para ele “ladrões de terras”, o protagonista agora se encontra em um cenário de guerra, onde deve proteger a soberania do local e lidar com a possibilidade de sua esposa morrer. Nesse sentido, é após as consequências do conflito que sua missão começa, já que agora, como escravo, ele precisa conquistar a sua liberdade na cidade onde um dia já foi livre, lutando como gladiador no coliseu.

Boa parte do filme foca na situação política de Roma, onde seus senadores e o general Acacius se incomodam com o excesso de poder e ambição dos irmãos imperadores, Geta e Caracalla. Também, outro personagem influente para o desenrolar político da cidade é Macrinus (Denzel Washington), que demonstra ser apenas um gerenciador de gladiadores, mas que esconde uma astúcia capaz de manipular até os mais poderosos. Paralelamente, enquanto Lucius se destaca como Gladiador, assim ganhando atenção da população e dos líderes, ele presencia o autoritarismo dos irmãos. Nesse ponto é revelado o seu objetivo grandioso em Roma (uma vez cobiçado pelo pai e avô), transformá-la em uma república.

Embora Gladiador II tenha aspectos fictícios em seu enredo, a representação das relações internacionais da época, movidas por disputas, são criveis e devem ser analisadas. Nesse contexto, a teoria neorrealista das Relações Internacionais será usada como base. De acordo com o fundador dessa corrente teórica, Kenneth Waltz, em seu livro Theory of International Politics, o que molda a interação entre os Estados no sistema internacional não é apenas o seu perfil racional que visa o poder (como defende o realismo) mas, acima de tudo, a característica anárquica desse sistema. Ou seja, ele é ausente de uma entidade soberana aos Estados, capaz de regular as suas ações e de lhes prover segurança. Logo, como consequência, cada um deve buscar a sua sobrevivência em um ambiente competitivo, sendo o poder (bélico, econômico) uma das ferramentas para garanti-la (SARFATI, 2005).

Ao comparar com o filme e naturalmente com a realidade, o império romano é exemplo de um dos usos dessa anarquia através de sua política expansionista que visava fortalecer o seu domínio perante outras nações, com receio de serem afetados. Isso fica claro na trama quando os imperadores, eufóricos com a conquista da Numídia na África, solicitam que Acacius lidere uma nova expedição para dominar o Egito e a Pérsia. Esse acontecimento reforça mais uma vez que não há no sistema internacional uma hierarquia formal entre os países.

Além disso, Waltz discute a ideia da balança de poder como outro método de garantir a sobrevivência das nações:

os Estados são unidades que, no mínimo, desejam preservar a si próprios e, no máximo, pretendem dominar o universo. Em função desses objetivos, os Estados utilizam meios internos para alcançá-los, como estratégias de aumento da força militar ou econômica, e meios externos, como tentativas de aumentar o número de Estados em sua aliança ou diminuir a aliança de um Estado opositor (SARFATI, 2005, p. 150).

Sob essa ótica, é possível fazer uma analogia, através de um olhar mais doméstico e menos internacional, entre a preocupação do Senado de Roma pelo poder dos irmãos imperadores, e o conceito da autopreservação. Isso porque, ao longo da narrativa, essa instituição busca se aliar ao exército a fim de ter força suficiente para retirar Geta e Caracalla da liderança do império. O objetivo dessa ação é a manutenção do Senado na política romana.

Ademais, Gladiador II dialoga bem com as ideias do neorrealismo e se destaca como uma sequência digna, especialmente por sua conclusão, que sugere uma possível continuação. No entanto, em alguns momentos o filme perde parte de sua identidade ao reutilizar vários elementos do primeiro filme em sua narrativa. Ainda assim, com cenas marcantes de drama, ação e reflexão política, o longa finaliza de forma épica, exaltando a honra como uma virtude essencial para o homem romano.

REFERÊNCIAS:

SARFATI, Gilberto. Teoria das Relações Internacionais. São Paulo: Saraiva, 2005. p. 22-46.