Caira Queiroz – Acadêmica do 5° semestre de R.I. da UNAMA

Um dos grandes talentos da dramaturgia nacional, Silvero Pereira é ator, diretor e dramaturgo cearense que se destacou por sua versatilidade e potência artística. Com uma trajetória marcada pelo teatro, cinema e televisão, ele dá vida a personagens intensos e autênticos, trazendo para a cena a representatividade e a diversidade brasileira. Seu trabalho vai além da interpretação: é uma expressão de resistência e transformação social, conquistando o público com performances que emocionam e provocam reflexões.

Nascido em Mombaça/CE, em 20 de junho de 1982, Silvero Pereira iniciou sua carreira ainda na adolescência no teatro amador, aos 17 anos. No início dos anos 2000, Silvero mergulhou em pesquisas sobre o universo trans, ouvindo relatos de travestis, transexuais e transformistas cujas histórias, negligenciadas pelas instituições, muitas vezes os levaram à marginalização. Desde então, o artista fez parte de inúmeros grupos artísticos, chegando a fundar duas companhias em Fortaleza: a Inquieta Cia. de Teatros e o Coletivo Artístico As Travestidas – composto por atores e atrizes transexuais, travestis e artistas transformistas (TV FOCO, S.D.).

Só o Coletivo Artístico As Travestidas, criado em Fortaleza, já produziu sete espetáculos e levou suas apresentações para as regiões Sul e Sudeste. De acordo com Silvero “O projeto visa questionar a sociedade sobre a caricatura e o estereótipo do universo trans, promovendo, com isso, um conhecimento mais aprofundado sobre o assunto e tentando desconstruir o preconceito, esclarecendo e promovendo uma maior compreensão através da arte, em especial o teatro” (O POVO, 2016).

O artista também é autor de diversas peças, dentre elas o espetáculo BR-Trans, o qual também protagonizou como Gisele. Devido a esse trabalho, Silvero recebeu aclamação, sendo indicado às principais premiações do teatro brasileiro. Sua estreia nos cinemas foi com o longa “Serra Pelada” (2013), interpretando Severino, que eventualmente se transformou em série na Globo (ADOROCINEMA, S.D.). 

Mas foi em 2017, durante uma apresentação da peça “BR-Trans” no Rio de Janeiro, que Silvero Pereira foi descoberto por Glória Perez, onde ganhou maior notoriedade ao integrar o elenco da novela A Força do Querer, como Nonato. Logo recebeu o Prêmio Extra e foi indicado ao Melhores do Ano, ambos na categoria de ator revelação por seu desempenho e em seguida atuou em diversos segmentos na dramaturgia brasileira, entre séries, curta-metragens, programas de TV e muito mais (MAPA CULTURAL, S.D.). 

Já em 2019, o artista marca a cinematografia brasileira ao se destacar interpretando o herói Lunga, no filme de ficção científica “Bacurau”. O personagem ganhou grande popularidade, e Silvero foi mais uma vez aclamado pela crítica por sua atuação. Por esse trabalho, recebeu o Grande Otelo de Melhor Ator, concedido pela Academia Brasileira de Cinema, além do Prêmio Guarani de Melhor Ator Coadjuvante e diversas outras premiações. Em 2022, voltou a se destacar na novela Pantanal, interpretando o peão Zaquieu, também brilhou na série de suspense cômico Nada Suspeitos, da Netflix, no papel de Áquila e atualmente faz uma participação na nova novela das 18h da Tv Globo “Garota do momento”, interpretando a drag queen Verônica Queen (NT, S.D.).

Nesse sentido, a trajetória artística de Silvero Pereira pode ser analisada sob a ótica da Teoria Queer das Relações Internacionais, especialmente no que diz respeito à visibilidade e desconstrução das normas de gênero e sexualidade no espaço público e cultural. A teoria queer questiona as categorias fixas de identidade e expõe como os Estados e nações regulam corpos e sexualidades para manter estruturas sociais e políticas (JESUS, 2014).

Desde sua atuação no teatro até o audiovisual, vê-se que Silvero tem sido uma figura central na ruptura dessas normatividades, utilizando sua arte como um espaço de resistência e expressão. Seu trabalho não apenas representa, mas também desafia a estrutura que invisibiliza corpos dissidentes, oferecendo novas narrativas que escapam da heteronormatividade dominante, fundando companhias de teatro voltadas para atores e atrizes transexuais, travestis e artistas transformistas.

Assim, podemos interpretar a performance de Silvero como um ato político, no qual sua presença e representação midiática contestam a violência discursiva que exclui identidades LGBTQIA+ de espaços legitimados. Seja no teatro com “BR-Trans“, onde expõe a marginalização de corpos trans e travestis, ou em produções audiovisuais como Bacurau e Pantanal, sua arte confronta diretamente as hierarquias de gênero e sexualidade, inserindo essas narrativas no centro do debate público.

Além disso, a Teoria Queer também discute a comoditização da sexualidade e da identidade, algo que se torna evidente quando analisamos como a indústria cultural, muitas vezes, consome a diversidade de forma superficial. No entanto, Silvero Pereira subverte essa lógica ao transformar sua trajetória em uma ferramenta de resistência, não permitindo que sua identidade seja apenas um objeto de consumo, mas sim um elemento ativo de transformação social.

Dessa forma, sua atuação não apenas amplia a representatividade LGBTQIA+, mas também redefine espaços e discursos dentro da cultura nacional, alinhando-se ao pensamento queer sobre a performatividade da identidade e a contestação das normas impostas. Silvero Pereira não se limita a interpretar personagens – ele encarna a luta por uma arte que questiona, ressignifica e liberta.

REFERÊNCIAS

ADOROCINEMA. Silvero Pereira. Disponível em: https://www.adorocinema.com/personalidades/personalidade-660536/. Acesso em: 16 de fevereiro 2025.

COBOGO. Silvero Pereira. Disponível em: https://www.cobogo.com.br/silvero-pereira. Acesso em: 18 de fevereiro de 2025.

MAPA CULTURAL CEARÁ. Silvero Pereira. Disponível em: https://mapacultural.secult.ce.gov.br/agente/34871/. Acesso em: 18 de fevereiro de 2025.

NATELINHA. Tudo sobre Silvero Pereira. Disponível em: https://natelinha.uol.com.br/famosos/tudo-sobre/silvero-pereira. Acesso em: 18 de fevereiro 2025.

O POVO. Silvero Pereira sobre papel de travesti em novela: “Me reeduquei”. Disponível em: https://www.opovo.com.br/vidaearte/2022/08/19/silvero-pereira-sobre-papel-de-travesti-em-novela-me-reeduquei.html. Acesso em: 16 de fevereiro de 2025.

TV FOCO. Silvero Pereira. Disponível em: https://www.otvfoco.com.br/silvero-pereira/. Acesso em: 16 de fevereiro de 2025.

JESUS, Diego. O mundo fora do armário: teoria queer e Relações Internacionais. Universitas: Relações Internacionais, Brasília, v. 12, n. 1, p. 95-112, jan./jun. 2014. Disponível em: https://www.arqcom.uniceub.br/relacoesinternacionais/article/view/2738. Acesso em: 18 de fevereiro de 2025.

LOURO, Guacira Lopes; FELIPE, Jane. Descolonizar a sexualidade: Teoria Queer of Colour e trânsitos para o Sul. Cadernos Pagu, Campinas, n. 53, e185315, 2018. Disponível em: https://www.scielo.br/j/cpa/a/nbgqSYr89np8KP96VFwGCgt/. Acesso em 18 de fevereiro de 2025.