
Por Larissa Schoemberger -Internacionalista
Para aqueles que não conhecem a Cracolândia, este é um termo utilizado para se referir a uma região no centro da cidade de São Paulo, onde existe uma concentração de pessoas em situação de rua que fazem uso abusivo de crack e outras drogas. Essa região está localizada principalmente nas proximidades da Estação de metrô da Luz. Ao longo dos anos, a Cracolândia se transformou em um fenômeno complexo, envolvendo questões como a falta de políticas públicas eficazes, a marginalização social e a estigmatização dos usuários de drogas.
A Cracolândia, sendo palco de intensos debates e controvérsias, volta à tona com a recente decisão do prefeito reeleito de São Paulo, Ricardo Nunes. Em seu novo mandato, iniciado em 2025, Nunes propõe a construção de um muro na área da Cracolândia, reacendendo a discussão sobre as abordagens do poder público para lidar com a questão.
Essa nova estrutura, com cerca de 40 metros de comprimento e 2,5 metros de altura, foi erguida na Rua General Couto Magalhães, na área da Santa Ifigênia, próxima à estação da Luz. O muro substitui tapumes metálicos anteriormente instalados no local. A medida resultou no agrupamento dos usuários em uma área delimitada pelas ruas dos Protestantes e dos Gusmões, que foram cercadas com grades pela administração municipal (FALCÃO; RODRIGUES, 2025, online).
A Prefeitura de São Paulo justifica a construção do muro, e outras medidas, como forma de aprimorar o atendimento aos usuários, aumentar a segurança das equipes de saúde e assistência social e otimizar o fluxo de veículos na região. Em entrevista à CNN, o vice-prefeito, Mello Araújo, minimizou a importância do muro, classificando-o como ‘insignificante’. “Esse muro existe há mais de um ano e eu que estou indo lá… é uma coisa tão insignificante porque ninguém está impedido de ir e vir. Então eles saem, eles voltam…” (CARLUCCI, 2025, online).
A construção do muro na Cracolândia gerou forte reação por parte de ativistas, que o compararam a um ‘campo de concentração de usuários’. Segundo um representante do coletivo Craco Resiste, a estrutura, juntamente com os gradis, cria um “triângulo no fluxo”, confinando os usuários em uma área delimitada (PAIVA; SANTOS, 2025, online). Embora a prefeitura argumente que os usuários podem sair e entrar livremente, os ativistas denunciam que a Guarda Civil Metropolitana os direciona sistematicamente para a mesma área, submetendo-os a revistas na entrada.
A ativista Roberta Costa, da Craco Resiste, critica a medida, afirmando que o muro foi erguido para isolar os usuários e “cobrir” a visão da Cracolândia. Ela denuncia a violência contra pessoas em situação de vulnerabilidade social e compara a situação a um “campo de concentração”. A ativista relata que o muro “encarcerou” os usuários, impedindo o acesso de movimentos de direitos humanos para prestar assistência. Ela menciona um episódio em que foram impedidos de realizar uma ação de Natal com distribuição de alimentos e atividades culturais (PAIVA; SANTOS, 2025, online).
As comparações feitas por ativistas entre o muro da Cracolândia e um campo de concentração carregam um forte simbolismo, remetendo a práticas de isolamento e marginalização. Essa analogia evoca paralelos com formas históricas de segregação, como os campos de concentração nazistas, que foram criados para confinar grupos específicos sob condições desumanas.
Embora o contexto e a escala sejam distintos, o muro da Cracolândia, assim como os campos de concentração, funciona como uma barreira física que separa uma parcela da sociedade considerada “indesejável”. Essa separação reforça estigmas e contribui para a invisibilidade social dos usuários de drogas, que são relegados a um espaço marginalizado e isolado do restante da cidade.
É importante ressaltar que a Cracolândia não é um campo de concentração, e suas dinâmicas são muito mais complexas. Enquanto os campos de concentração eram sistemas de opressão planejados e executados por regimes autoritários, a Cracolândia é resultado de falhas históricas nas políticas públicas da cidade de São Paulo, como a falta de acesso à saúde, educação e moradia. A comparação serve, portanto, como um alerta sobre os perigos de práticas que segregam e desumanizam grupos vulneráveis.
A solução para a Cracolândia não está em muros ou repressão, mas em políticas de inclusão social, redução de danos e enfrentamento das desigualdades que perpetuam o ciclo de exclusão.
REFERÊNCIAS
CARLUCCI, Manoela. Vice de Nunes sobre muro na Cracolândia: “É uma coisa tão insignificante”. CNN, 30 jan. 2025. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/politica/vice-de-nunes-sobre-muro-na-cracolandia-e-uma-coisa-tao-insignificante/. Acesso em: 23 fev. 2025.
FALCÃO, Márcio; RODRIGUES, Rodrigo. Ao STF, prefeito de SP diz que muro na Cracolândia não teve intenção de segregar e afirma que a sua demolição trará danos irreversíveis. G1, 21 jan. 2025. Disponível em: https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2025/01/21/muro-na-cracolandia-em-sp-nao-visou-segregar-excluir-ou-restringir-populacao-de-rua-diz-prefeitura.ghtml. Acesso em: 23 fev. 2025.
PAIVA, Deslange; SANTOS, Willian. Prefeitura de SP constrói muro de 40 metros de extensão e confina Cracolândia. G1, 15 jan. 2025. Disponível em:https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2025/01/15/prefeitura-de-sp-constroi-muro-de-40-metros-de-extensao-e-confina-cracolandia.ghtml. Acesso em: 23 fev. 2025.
