Por Mayara Renata Mendes Batalha – acadêmica do 7º semestre de Relações Internacionais (UNAMA)

A persistência dos conflitos na República Democrática do Congo (RDC) e em Ruanda reflete dinâmicas históricas e estruturais que ultrapassam as explicações reducionistas baseadas em rivalidades étnicas ou instabilidade local. Esses conflitos são reflexos de processos coloniais que desestabilizaram as sociedades africanas e as integraram de forma subordinada à economia global. A invisibilidade dessas crises na mídia internacional e a inércia da comunidade global não são meros descasos, mas elementos de um sistema que marginaliza os conflitos africanos enquanto perpetua formas de exploração e dependência.

A história da violência na região remonta à Conferência de Berlim em 1885, quando as potências europeias traçaram fronteiras arbitrárias que desconsideravam as identidades culturais e étnicas dos povos locais (Pakenham, 1991). O Congo foi transformado em um imenso projeto de extração de borracha e minérios sob domínio belga, enquanto Ruanda foi submetida a uma administração colonial que institucionalizou uma divisão racializada entre hutus e tutsis, fomentando ressentimentos que culminaram no genocídio de 1994. 

Esse marco não apenas devastou Ruanda, mas também alterou a dinâmica da guerra no leste do Congo. A fuga de milhões de hutus, incluindo membros das milícias responsáveis pelos massacres, levou Ruanda a intervir militarmente no território congolês, justificando a invasão como uma questão de segurança. Renato Henrique Valenzola (2015) destaca que “as partes se sentiriam capazes de buscar seus interesses por seus próprios meios”, resultando na vitimização dos civis no conflito.

No entanto, essa intervenção também permitiu que Ruanda e Uganda consolidassem controle sobre os recursos minerais da RDC, intensificando a fragmentação territorial e fomentando o surgimento de grupos armados como o M23. A economia de guerra que emergiu desse cenário tornou-se um modelo rentável para elites locais, milícias e redes transnacionais de contrabando.

A extração de minerais estratégicos como coltan e cobalto na RDC reflete a lógica neocolonial de subordinação econômica. Empresas ocidentais financiam essa exploração, que é de suma importância para a indústria tecnológica global, mantendo a instabilidade como ferramenta de controle (Brasil de Fato, 2025).

Essa dinâmica pode ser analisada à luz do conceito de “colonialidade do poder”, proposto por Aníbal Quijano (2005). Segundo o autor, mesmo após o fim do colonialismo formal, as estruturas de dominação permanecem operando por meio da economia, da política e da imposição de valores culturais ocidentais. Essa perspectiva explica por que países africanos como a RDC continuam presos a uma economia de extração primária, enquanto seus recursos beneficiam potências estrangeiras e corporações transnacionais.

Além disso, reformas neoliberais fragilizaram ainda mais o Estado congolês, permitindo que atores estrangeiros e grupos armados dominassem a economia local. A continuidade da guerra no Congo não se deve apenas à falha do governo em impor ordem, mas ao interesse de potências regionais e internacionais em manter o status quo.

O silêncio internacional sobre essa crise não é acidental. Robert Keohane (1984) argumenta que a estrutura da governança global opera de forma hierárquica, definindo quais conflitos são dignos de atenção e quais podem ser ignorados. Assim, a seletividade na resposta a crises internacionais, como a ampla cobertura da guerra na Ucrânia versus o silêncio sobre a guerra no Congo, reflete essa assimetria de poder. O critério para a visibilidade não é a gravidade do sofrimento humano, mas a relevância geopolítica dos envolvidos. Esse padrão reflete o que a teoria pós-colonial denuncia: um mundo moldado pela centralidade do Norte Global, onde as tragédias do Sul são sistematicamente silenciadas. 

Mesmo intervenções como as missões de paz da ONU, como a MONUSCO, demonstram essa inércia estrutural. Longe de resolver o conflito, essas missões frequentemente apenas administram a instabilidade sem abordar suas causas. Enquanto isso, os combates já deixaram sete mil mortos desde janeiro e forçaram 450 mil pessoas a abandonar seus lares, evidenciando a falha das respostas internacionais (CNN, 2025)

Os conflitos na RDC e em Ruanda não são apenas disputas internas, mas a expressão de uma longa história de exploração, fragmentação social e marginalização política. Ir além do silêncio significa reconhecer que a violência na África Central não é um fenômeno isolado, mas um reflexo das desigualdades estruturais que definem o mundo contemporâneo. A solução para essa crise não está apenas em esforços locais, mas em uma transformação global que rompa com a lógica neocolonial que mantém a África como um espaço de extração e instabilidade. Enquanto o silêncio persistir, o conflito no Congo continuará a ser um lembrete de como a ordem internacional escolhe quem merece justiça e quem pode ser esquecido.

Referências:

30 anos do genocídio de Ruanda: qual a relação do colonialismo com a tragédia. Brasil de Fato, 2024. Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/colunista/observatorio-de-politica-externa/2024/04/26/30-anos-do-genocidio-de-ruanda-qual-a-relacao-do-colonialismo-com-a-tragedia/ Acesso em: 09 mar 2025.

Combates na RD Congo mataram sete mil pessoas desde janeiro, diz premiê. CNN Brasil, 2025. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/combates-na-rd-congo-mataram-sete-mil-pessoas-desde-janeiro-diz-premie/ Acesso em: 11 mar 2025.

Ocidente usa Ruanda para saquear minerais no Congo e produzir tecnologia, denuncia ativista pan-africanista. Brasil de Fato, 2025. Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/2025/01/29/ocidente-usa-ruanda-para-saquear-minerais-no-congo-e-produzir-tecnologia-denuncia-ativista-pan-africanista/ Acesso em: 09 mar 2025.

PAKENHAM, Thomas. The Scramble for Africa: White Man’s Conquest of the Dark Continent from 1876 to 1912. Nova York: Avon Books, 1991.

Pensamentos Internacionalistas – Robert Keohane e o Neoliberalismo Institucional. Internacional da Amazônia, 2025. Disponível em: https://internacionaldaamazoniacoms.com/2025/01/07/pensamentos-internacionalistas-robert-keohane-e-o-neoliberalismo-institucional/ Acesso em: 10 mar 2025.

QUIJANO, Anibal. Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina. In: QUIJANO, Anibal. A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais, perspectivas latino-americanas. Buenos Aires: CLACSO, 2005. p. 117-142. VALENZOLA, Renato Henrique. Congo: desordem, interesses e conflito. Série Conflitos Internacionais 2.4, 2015.