
Julia Castro, acadêmica do 7º semestre de Relações Internacionais
Ficha Técnica:
Ano: 1961
Diretor: Federico Fellini
Distribuição: Koch Lorber Films
Gênero: Drama
Países de Origem: Itália, França
“La Dolce Vita” mostra o mergulho de um jornalista ambicioso no glamour e no vazio da alta sociedade romana, em busca de significado para a vida em meio a festas extravagantes, amores vazios e a decadência moral. Alvo de censura em sua época de lançamento, o longa-metragem é uma crítica aberta à sociedade marcada pela falsa ideia de felicidade e se tornou uma das obras primas do cinema italiano (OLIVEIRA, 2023).
A trama acompanha Marcello Rubini, um jornalista de fofocas que transita entre a alta sociedade de Roma e seus próprios dilemas existenciais. Ao longo dos dias, ele se envolve com celebridades, aristocratas e intelectuais, explorando um mundo luxuoso e considerado inalcançável. Entre encontros marcantes, como uma dança com a estrela de cinema sueca Sylvia, e diálogos com seu amigo intelectual Steiner, Marcello oscila entre a busca por profundidade e a rendição ao hedonismo, isto é, a filosofia de que o prazer é o principal objetivo da vida. Ao longo da narrativa, Marcello se perde em crises existenciais, incapaz de encontrar um propósito maior (THIND, 2022).
A narrativa é uma crítica profunda ao estilo de vida decadente e hedonista da década de 1950. No contexto da Guerra Fria, a glamourização da “dolce vita” pode ser vista como um reflexo da tentativa do Ocidente de promover um modelo de vida baseado no consumo e no hedonismo, mascarando desigualdades e contradições sociais. Ao longo do filme, o mundo glamouroso de Roma dos anos 1950, que foi reconstruída sobre as ruínas e a pobreza do período pós-guerra, é bastante explorado. Fellini mostra a mudança sociocultural massiva e o declínio da moralidade católica associados à ascensão da cultura consumista (THIND, 2022). A cena icônica de Sylvia se banhando na Fontana di Trevi, por exemplo, demonstra a redução da arte a um espetáculo vazio, simbolizando a mercantilização da cultura.
Ao analisar o filme através de uma perspectiva internacionalista, é possível recorrer à Escola de Frankfurt, especialmente com os pensadores Theodor Adorno e Max Horkheimer, que tecem críticas ao capitalismo, à alienação e ao papel da mídia na reprodução da ideologia dominante. Nesse contexto, os autores cunharam, em 1947, o conceito de Indústria Cultural (Kulturindustrie), na obra “Dialética do Esclarecimento”, termo que viria a contrapor o conceito de cultura de massa. Adorno e Horkheimer (1947, apud Costa, 2013) argumentam que a indústria cultural transforma a cultura em mercadoria, padronizando experiências e limitando o pensamento crítico. Enquanto a cultura popular teria um caráter mais espontâneo, a indústria cultural constitui uma manifestação produzida exteriormente, sendo fruto da oportunidade de expansão da lógica do capitalismo sobre a cultura (COSTA, 2013).
No filme, vemos isso na maneira como o protagonista se vê preso em um mundo de festas e escândalos da elite romana. Ele está inserido em um sistema midiático que não informa nem emancipa, mas reforça o status quo e mantém a sociedade apática. Marcello tenta encontrar sentido no amor, na arte e no jornalismo sério, mas é constantemente sugado pelo cinismo da sociedade ao seu redor. A representação dos paparazzi no filme também dialoga com a crítica de Adorno à mídia como instrumento de dominação, ilustrando como a indústria cultural substitui a reflexão pelo sensacionalismo.
Em suma, a obra cinematográfica materializa visualmente as teses de Adorno e Horkheimer ao mostrar como a cultura é transformada em entretenimento massificado, evidenciando também a alienação do indivíduo e a substituição da crítica pelo espetáculo. Através de sua narrativa fragmentada e simbólica, o diretor convida o espectador a refletir sobre o significado da vida em meio ao caos e à alienação.
REFERÊNCIAS:
COSTA, J. H. A atualidade da discussão sobre a indústria cultural em Theodor W. Adorno. Trans/Form/Ação, v. 36, n. 2, p. 135–154, ago. 2013. Disponível em: https://www.scielo.br/j/trans/a/GsymXVvZTDrdFjMqgJz9ngv/. Acesso em: 15 mar 2025
OLIVEIRA, Maurício de. “A Doce Vida”: Um mundo de aparências, alienações e extravagancias. Cinema Em Foco. 2023. Disponível em: https://cinemaemfoco.com/a-doce-vida-um-mundo-de-aparencias-alienacoes-e-extravagancias/. Acesso em: 15 mar. 2025.
THIND, Manisha. Liberating Ourselves from Ideals: An Analysis of Federico Fellini’s La dolce vita (1960). The Beaver. 2022. Disponível em: https://thebeaverlse.co.uk/liberating-ourselves-from-ideals-an-analysis-of-federico-fellinis-la-dolce-vita-1960. Acesso: 15 mar 2025
