
Sthephanye dos Santos Caldeira – acadêmica do 5° semestre de Relações Internacionais da UNAMA.
As tensões entre a Ucrânia e a Rússia são fruto de uma combinação de fatores históricos, culturais e geopolíticos que se agravaram desde do fim da União Soviética. A eclosão do atual conflito na Ucrânia, que se despertou com a anexação da Crimeia pela Rússia em 2014 e escalou substancialmente com a invasão russa em 24 de fevereiro de 2022, se estende até os dias atuais e continua a ser uma crise geopolítica de grande impacto global. A expansão da OTAN para o leste europeu e a aproximação da Ucrânia com o Ocidente foram percebidas pela Rússia como ameaças a seu território e à sua esfera de influência, contribuindo para o agravamento das hostilidades. Recentemente, a ofensiva russa na região de Kursk provocou um estancamento no avanço em Donetsk, oferecendo um respiro às forças ucranianas em algumas áreas. Entretanto, os combates permanecem intensos em outras localidades, refletindo a volatilidade e a imprevisibilidade do conflito (EL PAÍS, 2025).
O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, enfrenta desafios complexos nas negociações para um cessar-fogo, mediado pelos EUA. Pressionado a fazer adjudicações, Zelensky busca equilibrar a pressão interna e externa, enquanto tenta manter a integridade territorial. Em 11 de março de 2025, durante uma reunião em Jidá, Mike Waltz, conselheiro de Segurança Nacional dos EUA, sugeriu a divisão de territórios ucranianos como forma de negociar o fim da guerra com a Rússia, rompendo o consenso ocidental sobre concessões territoriais (EL PAÍS, 2025). Essa pressão à Ucrânia para aceitar ceder territórios ocupados, indica uma mudança na política americana que anteriormente apoiava a decisão soberana da Ucrânia sem flexibilizações. Este movimento destaca a prioridade de Trump em estabelecer uma relação estratégica com a Rússia. A exclusão de Zelensky das negociações entre Trump e Putin levantou preocupações sobre a eficácia de qualquer acordo de paz que não envolva diretamente a Ucrânia. (CNN BRASIL, 2025)
Recentemente, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o presidente da Rússia, Vladimir Putin, realizaram uma ligação telefônica de aproximadamente três horas, resultando em um cessar-fogo limitado na Ucrânia. Este acordo, com duração de 30 dias, foca na suspensão de ataques a infraestruturas energéticas e na negociação de uma trégua marítima. Além disso, foi acordada uma troca mútua de prisioneiros de guerra. No entanto, o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, expressou decepção, pois a Rússia continua com táticas agressivas em outras áreas (G1, 2025). Putin rejeitou um cessar-fogo total, condicionando-o à interrupção do apoio militar ocidental à Ucrânia. Zelensky expressou ceticismo em relação ao acordo, especialmente após relatos de ataques russos com drones em cidades ucranianas, ocorridos poucas horas após o anúncio do cessar-fogo parcial. (EL PAÍS, 2025)
No realismo ofensivo, quando uma grande potência percebe que uma rival está ganhando força em sua esfera de influência, ela toma medidas agressivas para impedir essa ascensão. Citando John Mearsheimer, um dos principais teóricos de relações internacionais, em sua obra The Tragedy of Great Power Politics (2001), ele argumenta que os Estados buscam maximizar seu poder para garantir sua sobrevivência em um sistema internacional anárquico, e é exatamente isso que se vê no contexto da guerra na Ucrânia que pode ser aplicada tanto à Rússia quanto aos EUA. Nesse conflito, ambos os países operam dentro da lógica e que as grandes potências não podem confiar em ninguém além de si mesmas. Dessa forma, buscam garantir sua hegemonia regional (no caso da Rússia) ou global (no caso dos EUA), que apoiavam Kiev não por altruísmo, mas para conter Moscou, mudando sua estratégia de acordo com seu jogo de interesse (MEARSHEIMER, 2001).
A guerra na Ucrânia, que já se arrasta por mais de três anos, continua sendo um dos conflitos mais complexos e impactantes do século XXI, com repercussões globais que afetam a segurança energética, a economia internacional e as alianças geopolíticas preestabelecidas. Nesse contexto, a possibilidade de um cessar-fogo definitivo e de um acordo duradouro permanece incerta. Embora as negociações de paz tenham ganhado impulso, ainda enfrentam desafios significativos, especialmente no que diz respeito a concessões mútuas. A exclusão de Zelensky das negociações principais pode comprometer a viabilidade de um acordo que contemple plenamente os interesses ucranianos. A eficácia e a estabilidade de qualquer pacto dependerão da participação de todas as partes envolvidas e do comprometimento genuíno com a pacificação do cenário. Além de reconfigurar a geopolítica europeia, o conflito tem gerado intensos debates na comunidade internacional sobre soberania, sanções econômicas, os múltiplos atores envolvidos e interesses em jogo. O desfecho dessa crise dependerá da capacidade das partes de alcançar um equilíbrio entre as demandas territoriais e interesses estratégicos.
CARMONA, Ronaldo. A guerra na Ucrânia: uma análise geopolítica. Revista CEBRI, 2025. Disponível em: https://cebri.org/revista/br/artigo/46/a-guerra-na-ucrania-uma-analise-geopolitica. Acesso em: 15 mar. 2025.
CNN BRASIL. Zelensky diz que Rússia fez ataque com drones e pede pressão sobre Putin. CNN Brasil, 2025. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/zelensky-diz-que-russia-fez-ataque-com-drones-e-pede-pressao-sobre-putin/. Acesso em: 17 mar. 2025.
EL PAÍS. La ofensiva rusa para recuperar la región de Kursk da un respiro a Ucrania en parte del frente de Donetsk. El País, 18 mar. 2025. Disponível em: https://elpais.com/internacional/2025-03-18/la-ofensiva-rusa-para-recuperar-la-region-de-kursk-da-un-respiro-a-ucrania-en-parte-del-frente-de-donetsk.html. Acesso em: 11 mar. 2025.
EL PAÍS. Trump rompe el tabú de la negociación por los territorios de Ucrania. El País, 18 mar. 2025. Disponível em: https://elpais.com/internacional/2025-03-18/trump-rompe-el-tabu-de-la-negociacion-por-los-territorios-de-ucrania.html. Acesso em: 18 mar. 2025.
EL PAÍS. Trump y Putin acuerdan un alto el fuego para las infraestructuras y la energía en la guerra de Ucrania. El País, 18 mar. 2025. Disponível em: https://elpais.com/internacional/2025-03-18/trump-y-putin-acuerdan-un-alto-el-fuego-para-las-infraestructuras-y-la-energia-en-la-guerra-de-ucrania.html. Acesso em: 18 mar. 2025.
G1. Trump e Putin falam por telefone sobre cessar-fogo e sanções. G1, 18 mar. 2025. Disponível em: https://g1.globo.com/mundo/ucrania-russia/noticia/2025/03/18/trump-e-putin-falam-por-telefone-sobre-cessar-fogo-e-sancoes.ghtml. Acesso em: 18 mar. 2025.
MEARSHEIMER, J. J. The Tragedy of Great Power Politics. New York: W. W. Norton & Company, 2001.
