Antônio Vieira, acadêmico do 3° semestre de Relações Internacionais

Ficha Técnica:

Duração: 2h 45min

Gênero: Faroeste, Ação

Ano: 2012

Diretor (a): Quentin Tarantino

Distribuição: Sony Pictures

País de origem: EUA

Django Livre, vencedor do Oscar de melhor roteiro original (GAZETA DO POVO, 2013), é mais umas das produções repletas de sátiras do renomado diretor americano Quentin Tarantino, responsável por filmes como Era uma vez em Hollywood e Pulp Fiction. A trama, situada no século XIX, em um Estados Unidos escravocrata – pré-Guerra civil –, acompanha a trajetória de Django (Jamie Foxx), um homem em estado de escravidão que, embora esteja repleto de traumas, almeja 3 coisas: sua liberdade, reencontrar sua esposa, e vingança contra o sistema escravocrata.

Nesse sentido, o filme começa mostrando a vida de escravo de Django, que possui, “naturalmente”, uma personalidade retraída e sem expressões. Em seguida, é apresentado um dos personagens mais importantes para o desenvolvimento da trama: Dr. King Schultz, um sarcástico e letal caçador de recompensas disfarçado de dentista, que vai ao encontro do protagonista. King está à procura dos irmãos assassinos Brittle e somente Django sabe onde eles se encontram. Dessa forma, após um conflito com os antigos proprietários de Django, Schultz, ciente e mal por estar usando a situação em que Django se encontra, decide comprá-lo com a promessa de libertá-lo caso ele o ajude a capturar seus alvos, vivos ou mortos. Assim que o plano de King se concretiza, o protagonista finalmente se torna “Django Livre”, no entanto, o desejo de encontrar a sua esposa Broomhilda – que foi vendida a anos -, ainda o prende.

Nesse contexto, o doutor aceita ajudá-lo a encontrar sua amada no sul do país, onde há uma vasta quantidade de fazendas. Sob uma atmosfera de velho-oeste e repleta de cenas de confronto intencionalmente exageradas, os dois iniciam a jornada, que fortalece a relação de amizade entre ambos e molda a personalidade do Django, agora cada vez mais confiante e letal. Conforme avançam, eles conhecem Calvin Candie (Leonardo DiCaprio), um cruel proprietário de escravos de luta e dono da plantação “Candyland” – uma das mais ricas dos EUA -, onde Broomhilda provavelmente está. Dessa forma, para investigar o local e resgatá-la, eles se veem obrigados a mudar suas identidades. Enquanto King passa a ser um investidor de escravos de luta, Django tem o papel de negociante. Contudo, ocorrem diversas reviravoltas, com Stephen (Samuel L. Jackson), escravo de confiança de Candie, ameaçando os disfarces dos dois e a chance de Broomhilda ser salva.

Embora a obra cinematográfica seja repleta de sátiras, tanto na atuação caricata, quanto nas cenas de ação exageradas – com um toque de humor mórbido -, ela se baseia em um evento histórico para criticar temas como o racismo e a escravidão, assim como a representação do herói em filmes americanos. Portanto, Django Livre pode ser associado com a teoria pós-colonial das Relações Internacionais, abordagem teórica essa que busca dar voz a povos e culturas excluídas pela narrativa hegemônica das principais potências do ocidente, e investigar os resquícios do colonialismo na atualidade (NOGUEIRA, MESSARI, 2005).

Nessa perspectiva, apesar de ser uma produção ocidental, o filme busca des construir o tradicional “herói” branco dos filmes hollywoodianos, como Tom Hanks em O resgate do Sodado do Ryan e Clint Eastwood, em seus filmes de faroeste. Aqui o protagonista é negro e está em constante luta contra o sistema capitalista baseado na exploração da vida humana. Aliado a isso, a escravidão no filme é um exemplo do conceito de necropolítica, elaborado pelo teórico pós-moderno camaronês, Achille Mbembe. De acordo com ele, o Estado moderno, por ser soberano e deter o uso legitimo da força, pode usar do poder político para controlar a vida humana na sociedade através da morte, onde determinados grupos de indivíduos são escolhidos para serem eliminados, visando o bem-estar de outros e a manutenção do poder estatal. Além disso, ele ressalta que as pessoas negras são um dos grupos vitimados por esse processo (apud GOULART, 2021).

Na trama, assim como ocorreu na vida real, a escravidão foi legalizada pelo poder político do Estado americano e utilizada para beneficiar economicamente a elite europeia que havia chegado no país. Durante a história, a população africana é violentada e usada como objeto pelos proprietários de terra para a produção de matérias primas – como o algodão -, e como forma de entretenimento. Há uma cena que evidencia isso, quando Calvin Candie usa dois homens escravos para lutar entre si, enquanto diversos apostadores assistem.

Sob essa ótica, Django Livre retrata como os corpos negros se encontram ameaçados e são usados para beneficiar a população branca por meio da necropolítica, ou seja, suas vidas dependem do nível de produção ao sistema colonial. Ademais, o filme deve ser analisado com cuidado para que não se confunda a abordagem mais fictícia do período histórico da escravidão com a sua real gravidade e seriedade, onde muitas das vezes não havia um herói.

REFERÊNCIAS:

GOULART, Marcos Vinícius da Silva. Necropolítica: quem decide que vidas são vivíveis e que vidas são matáveis?. CienciAção. Disponível em: https://sites.unipampa.edu.br/cienciacao/files/2021/04/necropolitica_-quem-decide-que-vidas-sao-viviveis-e-que-vidas-sao-mataveis.pdf. Acesso em: 24, marc. 2025.

NOGUEIRA, João Pontes; MESSARI, Nizar. Teoria das Relações Internacionais: correntes e debates. Elsevier Rio de Janeiro, 2005. p. 390-394.

Tarantino ganha Oscar de melhor roteiro original por “Django Livre”. Gazeta do Povo. 2013.Disponível em: https://www.gazetadopovo.com.br/caderno-g/tarantino-ganha-oscar-de-melhor-roteiro-original-por-django-livre-5o8zqdv0sarijugi7ionlrb3z/. Acesso em: 24, marc. 2025.