
José Scerni – Acadêmico do 5° semestre de Relações Internacionais da Unama
No fim de 2024, os eleitores estadunidenses optaram por uma mudança de rumos no governo do país ao eleger novamente Donald Trump para presidente, mesmo passando por um momento conturbado juridicamente tendo protagonizado um ataque direto à democracia no fim do seu primeiro mandato, convocando seus apoiadores a invadir o capitólio dos Estados Unidos. (SHEERIN, Jude, BBC. 2022)
Diante dessa perspectiva, a política externa dos Estados Unidos está em vias de tomar novos rumos, principalmente tendo em vista os novos centros geopolíticos de influência e poder que ameaçam a hegemonia do país.
Os BRICS, que emergem como um importante meio de cooperação de países do sul global e de potências rivais aos Estados Unidos são protagonistas nesse cenário, e são impactados diretamente com a mudança de rumos no governo do país norte americano, devido a iminência de uma resposta ao seu crescimento.
Por outro lado, um dos principais desafios de Trump no seu novo mandato está relacionado à formulação dessa resposta aos BRICS, que ameaça a hegemonia dos Estados Unidos no comércio internacional a partir das propostas de “desdolarização”, onde os países do bloco passam a desafiar a hegemonia da moeda dos Estados Unidos ao não utilizar a conversão do dólar em transações internacionais. (AYUB, Nicole, USP. 2024)
Outra dissonância do bloco com a política externa estadunidense é o seu crescimento como um importante representante do multilateralismo no cenário global, já que ao iniciar como um grupo que reúne economias emergentes, o BRICS demonstrou um potencial de crescimento extremo, e hoje atrai o interesse de participação de diversos países, incluindo importantes parceiros dos Estados Unidos, (G1, 2025) que por sua vez, a partir da eleição de Trump, passou a ter uma política externa menos voltada ao multilateralismo e a cooperação através de organizações internacionais como a ONU. (GOWAN, Richard, FOREIGN POLICY. 2025)
Para entender esses cenários e analisar perspectivas futuras é preciso buscar historicamente como a moeda estadunidense emergiu como a moeda dominante no comércio mundial, o que remonta ao fim da Segunda Guerra Mundial, quando o país era a principal potência econômica e política do mundo superando a poderosa Inglaterra, o que desencadeou a ascensão do dólar como a principal moeda internacional. Esse cenário obrigou a comunidade internacional a optar pelo dólar como a moeda base de suas transações, durante a conferência de Bretton Woods de 1944 que criou um novo sistema econômico mundial. (BRASIL DE FATO, 2023)
A partir desse ponto, as transações entre os países passavam pela conversão do dólar, e mesmo após o abandono do sistema de Bretton Woods, os Estados Unidos mantiveram a dependência da sua moeda no comércio internacional, o que traz diversos benefícios econômicos e geopolíticos ao país. (BRASIL DE FATO, 2023)
Por isso, os BRICS planejam se contrapor a este sistema extremamente benéfico aos Estados Unidos, remanejando a maneira de se fazer comércio dentro do bloco, o que pode vir a se tornar uma tendência para cada vez mais países.
Hoje, o sistema de pagamentos mais utilizado em transações internacionais é o SWIFT (Society for Worldwide Interbank Financial Telecommunication), que geralmente está ligado ao uso do dólar, logo, os países do BRICS se distanciam cada vez mais do seu uso. Algumas propostas de sistematizar um contraponto ao sistema SWIFT variam entre a criação de uma nova moeda única para transações entre países do bloco e a utilização de um novo sistema de pagamentos, sendo esse um grande passo para o processo de “desdolarização”. (AYUB, Nicole, USP. 2024)
Pouco tempo após sua posse, Trump reagiu firmemente a esse movimento, afirmando que qualquer país que contribua para a substituição do dólar enfrentaria severas consequências, incluindo a possibilidade de tarifas 100%. (REUTERS, 2025) Vale ressaltar que essas afirmações ocorrem após severas sanções serem aplicadas pelo ocidente à Rússia, que não sofreu consequências tão graves devido a suas parcerias comerciais com outro grupo de países como a China e Índia, parceiras no BRICS. (BBC, 2024)
No âmbito das Relações Internacionais, esse conflito é aprofundado quando se analisa teoricamente e historicamente o contexto global, o que permite entender o jogo de poder envolvido, bem como prever possíveis futuros para esse cenário.
Tendo isso em vista, as perspectivas do BRICS bem como suas movimentações recentes podem ser analisadas a partir do pensamento do teórico neorrealista de Relações Internacionais Kenneth Waltz, que no seu livro “Man, State and War” descreve a estrutura do sistema internacional como anárquica e baseada firmemente nas movimentações dos Estados pela manutenção ou contraponto de uma ordem cratologica dominante. (WALTZ, Kenneth. 1959)
Outro conceito muito utilizado por Waltz que descreve esse processo é o bandwagoning, que analisa a tendência dos Estados mais fracos a seguir as movimentações de um mais forte visando a sua sobrevivência no sistema internacional. (WALTZ, Kenneth, 1979) No caso específico do BRICS, esse conceito é decisivo na análise das duas perspectivas futuras, já que o sistema internacional se encontra na perspectiva de seguir com os Estados Unidos como hegemonia geopolítica a partir do seu contraponto ao multilateralismo bem como a tendência a acordos e decisões bilaterais, influenciada pelos fortes posicionamentos de Trump, ou o fortalecimento das organizações internacionais e da contrapartida a centralização geopolítica no ocidente com o bloco dos BRICS, que possui uma forte influência em outros centros como África, Ásia e América Latina.
O Brasil é protagonista nesse cenário, não só por fazer parte do BRICS, mas também por ser presidente do bloco no ano de 2025, no primeiro ano de mandato do Trump, e no ano que vai sediar a COP 30, um dos mais importantes símbolos da cooperação global em prol do meio ambiente.
Em última análise, os recentes posicionamentos de Trump, demonstram uma clara dualidade no sistema internacional a partir do crescimento do bloco dos BRICS, que por sua vez mostra uma promissora imunidade à influência dos Estados Unidos no Sistema internacional, podendo ser o princípio de uma nova ordem econômica global.
Referências:
AS novas sanções contra a Rússia — e como essa estratégia está afetando a economia do país. BBC, 2024. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cjk6dkke58zo. Acesso em: 23 mar 2025
AYUB, Nicole. Sistema de pagamentos internacionais dos BRICS, moeda comum e desdolarização. USP. Disponível em: https://sites.usp.br/gebrics/sistemas-de-pagamentos-internacionais-dos-brics-moeda-comum-e-desdolarizacao/. Acesso em: 23 mar 2025.
FORMAÇÃO. Como o dólar se tornou morda hegemônica no sistema internacional. Brasil de Fato, 2023. Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/2023/06/12/formacao-como-o-dolar-se-tornou-a-moeda-hegemonica-no-sistema-internacional/. Acesso em: 23 mar 2025.
GOWAN, Richard. Trump is Trying to Remake the United Nations. Foreign Policy, 2025. Disponível em: https://foreignpolicy.com/2025/03/03/trump-united-nations-multilateralism-diplomacy/. Acesso em: 23 mar 2025.
SHAKIL, Ismail. Trump repeats tariffs threat to dissuade BRICS nations from replacing US dollar. Reuters, 2025. Disponível em: https://www.reuters.com/markets/currencies/trump-repeats-tariffs-threat-dissuade-brics-nations-replacing-us-dollar-2025-01-31/. Acesso em: 23 mar 2025.
SHEEIN, Jude. O tuíte de Donakd Trump que teria incitado o ataque ao capitólio, segundo comissão. BBC, 2022. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-62147147. Acesso em: 30 mar 2025.
Sob presidência do Brasil, BRICS anuncia entrada de Cuba, Bolívia e mais sete países como parceiros. G1, 2025. Disponível em: https://g1.globo.com/politica/noticia/2025/01/17/sob-presidencia-do-brasil-brics-anuncia-entrada-de-cuba-bolivia-e-mais-seis-paises-como-parceiros.ghtml. Acesso em: 23 mar 2025.
WALTZ, Kenneth. Man, the State and War. Nova Iorque: Columbia University Press, 1959.
WALTZ, Kenneth. Theory of International Politics. Addison-Wesley Publishing Company, 1979.
