
Matheus Castanho Virgulino, Internacionalista.
Durante o conturbado período conhecido como Sengoku Jidai (“Era dos Estados Beligerantes”), o Japão mergulhou em um século e meio de guerras civis, instabilidade política e mobilidade social intensa. A fragmentação do poder central, então sob a família Ashikaga, favoreceu a ascensão de daimyos regionais, cuja rivalidade produziu um período de violência crônica e reinvenção constante da arte da guerra japonesa, que cada vez mais se aproximava do estilo estaca e tiro da Europa ocidental (Peltier, 2020). Nesse cenário, três figuras emergem como protagonistas do processo de reunificação: Oda Nobunaga, Toyotomi Hideyoshi e Tokugawa Ieyasu.
Hideyoshi, herdeiro político de Nobunaga, concluiu a reunificação territorial do arquipélago e governou como à sombra da autoridade imperial, impedido de se tornar shōgun por sua origem humilde. Seu projeto de expansão continental, iniciado com as campanhas na Coreia entre 1592 e 1598, evidenciou tanto sua ambição quanto os limites logísticos e diplomáticos do poder japonês à época. Essas incursões fracassadas acabaram por minar sua reputação e abriram caminho para o surgimento de facções rivais em torno da sucessão (Davis, 2001).
Com a morte de Hideyoshi, a disputa pelo controle do Japão se polarizou entre o partido Toyotomi, encabeçado por Ishida Mitsunari, e o campo Tokugawa, liderado por Ieyasu. O ressentimento acumulado entre os élites guerreiras, acentuado por ofensas pessoais e reconfigurações de alianças, convergiu para a inevitável confrontação armada. Entre os casos mais notórios, está o de Kobayakawa Hideaki, jovem senhor de grande prestígio militar, humilhado publicamente por Mitsunari após a segunda campanha coreana e mais tarde instigado por Ieyasu a trair seu antigo aliado (Peltier, 2020).
No dia 21 de outubro de 1600, os exércitos se enfrentaram na planície de Sekigahara, em um dos maiores embates da história militar japonesa. Cerca de 170 mil homens participaram do confronto, que se desenrolou sob clima adverso e com tensões latentes entre vários comandantes. A batalha foi marcada por sucessivas traições no flanco esquerdo, culminando na decisiva deserção de do daimyo Hideaki, cuja carga sobre a ala de Otani Yoshitsugu precipitou o colapso das linhas Toyotomi (Davis, 2001).
A vitória de Tokugawa Ieyasu em Sekigahara foi mais do que um triunfo militar. Ela representou a afirmação definitiva de seu projeto de ordem e estabilidade, que culminaria, três anos depois, na sua nomeação como shōgun e na fundação do xogunato Tokugawa. Sediado em Edo, o novo governo estabeleceu uma paz duradoura que perduraria por mais de dois séculos, baseando-se em uma estrutura hierárquica rigidamente codificada, inspirada em valores confucianos e sustentada por um sistema de controle territorial e simbólico do poder (Peltier, 2020).
O legado de Sekigahara ultrapassa a memória de um simples conflito militar. A batalha encerrou o ciclo de turbulências do Sengoku Jidai e inaugurou a era Edo, período de isolamento internacional e florescimento cultural interno. O governo Tokugawa consolidou a centralização política e freou a mobilidade social, reconfigurando o papel dos samurais, que trocaram o campo de batalha pelo serviço burocrático e ideológico. A imagem romântica do guerreiro foi moldada retrospectivamente, enquanto na realidade seus gestos eram guiados pela necessidade e por jogos de poder muito mais pragmáticos do que sugerem os códigos de honra posteriores (Peltier, 2020).
Ao fim, Sekigahara permanece como um marco fundador da modernidade japonesa: uma vitória que encerra a guerra para que se possa instituir uma nova ordem. Assim como outras grandes batalhas da história universal, sua importância não reside apenas na carnificina ou no desfecho militar, mas na configuração de uma nova paisagem política e simbólica, que moldaria o Japão nas eras subsequentes.
REFERÊNCIAS
DAVIS, Paul K. 100 decisive battles: from ancient times to the present. Santa Barbara: ABC-CLIO, 2001.
PELTIER, Julien. Sekigahara: la plus grande bataille de samouraïs. Paris: Passés Composés, 2020.
