Profa. Dra. Lygia Socorro Sousa Ferreira

Ficha Técnica:

Ano: 2017

Direção: Dallas Jenkins

Gênero: Drama

Distribuição: Netflix; Amazon Prime Video

País de origem: Estados Unidos da América

Durante a Semana Santa, a trajetória de Jesus Cristo adquire relevância não apenas sob a ótica espiritual, mas também como fenômeno social, político e econômico. A série The Chosen, dirigida por Dallas Jenkins, apresenta uma leitura sensível e atualizada sobre esses conflitos, revelando como as estruturas de poder e controle vigentes na Palestina do século I foram determinantes para a condenação e morte de Jesus. Neste artigo, propõe-se analisar esse contexto a partir de conceitos de Michel Foucault e Max Weber, destacando como poder, dominação e exclusão social se articularam para manter as ordens estabelecidas e reagir contra os desafios propostos pela atuação de Jesus.

De acordo com Foucault (1999), o poder não se concentra apenas em instituições, mas circula nas relações sociais, nas normas, nos saberes e nos corpos. Na Palestina sob domínio romano, as lideranças locais — especialmente o Sinédrio, formado por fariseus e saduceus — exerciam uma dominação não só religiosa, mas também política e social. The Chosen evidencia como o Templo funcionava como espaço de disciplina e controle, estabelecendo regras rígidas sobre pureza, comportamento e convivência social. O controle dos espaços sagrados e das práticas religiosas reforçava a hierarquia e legitimava exclusões e desigualdades.

Weber (1999), ao analisar as formas de dominação, distingue entre a dominação tradicional, que se apoia na continuidade de normas e tradições, e a dominação carismática, baseada no reconhecimento das qualidades excepcionais de um líder. A atuação de Jesus, como mostra a série, rompe com as normas tradicionais e inaugura um tipo de liderança carismática que mobiliza excluídos, doentes, mulheres e publicanos, desafiando as bases da autoridade religiosa e política da época. Segundo Weber, esse tipo de liderança tende a ser visto como uma ameaça pelos sistemas tradicionais, pois propõe novas formas de organização social e redistribuição de poder simbólico.

No aspecto econômico, a Palestina do século I estava marcada por uma estrutura agrária desigual, sob forte controle fiscal do Império Romano. Finley (1992) explica que a economia antiga não se baseava na busca de lucro como nas sociedades capitalistas, mas na manutenção do status e na apropriação de tributos e terras. O Templo e suas elites religiosas estavam diretamente envolvidos na cobrança de impostos e taxas, reforçando desigualdades e exclusões econômicas. Em The Chosen, percebe-se como os cobradores de impostos a serviço de Roma, eram marginalizados e como a situação de miséria social criava tensões constantes. A prática de Jesus — acolhendo esses marginalizados e denunciando o acúmulo de riquezas — tinha implicações políticas e econômicas, ao subverter a lógica de concentração e privilégios.

Foucault (1975) reforça que o corpo é um território político: quem pode tocar, curar ou determinar a moralidade dos corpos exerce controle sobre a vida social. Jesus, ao curar no sábado, tocar leprosos, falar com mulheres e estrangeiros, não apenas desafiava normas religiosas, mas também questionava a política do corpo e da exclusão. Esses gestos simples, mas politicamente perigosos, foram motivo suficiente para que autoridades religiosas e romanas o considerassem uma ameaça à ordem pública e religiosa.

Dessa forma, a leitura combinada de Foucault e Weber revela que a condenação de Jesus resulta de uma complexa rede de relações de poder, dominação tradicional, exclusão social e manutenção de privilégios econômicos. Sua liderança carismática, ao romper com os códigos tradicionais e incluir os excluídos, não apenas provocou uma reação religiosa, mas também ameaçou a estrutura política e econômica consolidada entre Roma e as elites judaicas locais.

A Semana Santa, assim, ultrapassa o campo da devoção pessoal e convida à reflexão crítica sobre as formas como as sociedades naturalizam desigualdades e reprimem as lideranças que ousam confrontar sistemas de exclusão e privilégios. The Chosen, nesse sentido, é mais que uma série religiosa: é uma provocação política e social.

Referências: 

ELIAS, Norbert. O Processo Civilizador: Uma história dos costumes. 2. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1994.

FINLEY, Moses I. A Economia Antiga. Lisboa: Edições 70, 1992.

FOUCAULT, Michel. A Ordem do Discurso. 6. ed. São Paulo: Loyola, 1996.

FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir: Nascimento da prisão. 31. ed. Petrópolis: Vozes, 2009.

FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder. 9. ed. Rio de Janeiro: Graal, 1999.

WEBER, Max. Economia e Sociedade: Fundamentos da sociologia compreensiva. 4. ed. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1999.