
Layla Priscilla Andrade de Farias Negrão – 3° semestre de Relações Internacionais da Unama
As eleições federais do Canadá, realizadas em 28 de abril de 2025, entraram para a história como uma virada política surpreendente, marcada por um complexo entrelaçamento de fatores internos e externos que desafiaram todas as projeções. O cenário pré-eleitoral indicava uma clara vantagem para o Partido Conservador, liderado por Pierre Poilievre, mas o resultado final acabou frustrando essas expectativas. Ao contrário do que previam analistas e institutos de pesquisa, foi o Partido Liberal, sob a liderança recém-empossada de Mark Carney, que saiu vitorioso, ainda que com uma bancada reduzida.
Essa guinada inesperada pode ser atribuída a uma combinação de elementos — desde o desgaste do governo de Justin Trudeau, passando por mudanças de liderança de última hora, até a influência direta da política externa norte-americana, que teve repercussões profundas na percepção pública canadense (ALJAZEERA, 2025). Em outras palavras, o que ocorreu nas urnas em 2025 foi mais do que uma simples escolha partidária: foi uma manifestação clara de como a identidade nacional e o contexto internacional moldam as decisões eleitorais em tempos de incerteza (NEW YORKER, 2025).
Até março de 2025, o Partido Conservador era amplamente considerado o favorito. Poilievre havia conseguido canalizar a insatisfação popular com o governo de Trudeau, marcada por críticas à gestão econômica, à inflação persistente e a questões como habitação e segurança pública. O clima era propício a uma mudança de comando. No entanto, a inesperada renúncia de Trudeau naquele mesmo mês — após anos de pressão política e pessoal — alterou radicalmente o tabuleiro político.
Em seu lugar, assumiu Mark Carney, uma figura até então associada mais ao mundo financeiro do que à arena política. Com uma trajetória respeitável como ex-presidente do Banco do Canadá e também do Banco da Inglaterra, Carney rapidamente construiu uma imagem pública de competência técnica, pragmatismo e equilíbrio. Para muitos eleitores, especialmente os mais moderados e preocupados com a estabilidade econômica, sua chegada representou uma opção segura em tempos turbulentos (POLITICO, 2025).
Mas o fator talvez mais decisivo para a reviravolta eleitoral veio de fora: dos Estados Unidos. O segundo mandato do presidente norte-americano, iniciado em janeiro de 2025, trouxe consigo uma série de medidas unilaterais que abalaram diretamente a economia e o orgulho nacional canadense. Em particular, a imposição de tarifas de 25% sobre produtos estratégicos — como alumínio, aço e diversos itens agrícolas — colocou em xeque a já delicada relação comercial entre os dois países (ICIS, 2025).
Os impactos foram imediatos. Projeções de institutos independentes como o ICIS apontaram para uma possível retração de até 2,6% no PIB canadense, com a perda estimada de 150 mil empregos em setores-chave como a indústria de base, a agropecuária e o setor energético (ICIS, 2025). Empresários, sindicatos e especialistas alertaram para o risco de uma recessão prolongada, caso as tarifas fossem mantidas por um período extenso.
Entretanto, não foram apenas os aspectos econômicos que causaram alarde. Em uma série de pronunciamentos, o presidente norte-americano chegou a insinuar, em tom agressivo, que o Canadá deveria ser anexado aos Estados Unidos, acusando o país vizinho de se beneficiar da “generosidade americana” em termos de segurança e comércio. Essas declarações foram recebidas com perplexidade e indignação por amplos setores da sociedade canadense (NEW YORKER, 2025).
A resposta emocional foi imediata. Artigos de opinião, protestos populares e uma enxurrada de manifestações nas redes sociais demonstraram o quanto os canadenses valorizam sua soberania e identidade distinta da americana. Muitos viram nas declarações uma afronta direta à integridade do país, algo que não poderia ser ignorado no momento de decidir o futuro político da nação (NEW YORKER, 2025).
Pierre Poilievre, por sua vez, cometeu um erro estratégico crucial ao tentar incorporar slogans nacionalistas similares aos utilizados pelo presidente americano, como “Canada First” e “Canada, let’s bring it home”. Apesar de aparentemente apelarem ao orgulho nacional, tais frases foram rapidamente associadas ao populismo divisivo em ascensão no sul da fronteira (CBC NEWS, 2025).
Em vez de fortalecer sua imagem, Poilievre passou a ser visto como alguém disposto a imitar uma retórica que muitos consideravam perigosa para a democracia canadense. Sua tentativa de surfar na onda nacionalista soou, para boa parte do eleitorado, como submissão a uma agenda externa. O resultado foi desastroso: além de perder as eleições, ele não conseguiu manter sequer sua própria cadeira no Parlamento (BBC NEWS, 2025).
A vitória dos liberais, mesmo sem maioria absoluta, representou uma escolha clara por moderação e estabilidade. Foi, na prática, um voto de confiança em Carney, não tanto por sua retórica política, mas pela expectativa de uma condução firme e técnica diante de desafios externos. Em um contexto de crise, sua imagem de gestor experiente foi decisiva (G1, 2025).
Sob a ótica da teoria construtivista das relações internacionais, a eleição canadense de 2025 revela um caso emblemático. O construtivismo, conforme formulado por Alexander Wendt (1999) e Nicholas Onuf (1989), enfatiza que a realidade internacional não é dada objetivamente, mas construída socialmente. As ações dos Estados não são guiadas apenas por interesses materiais ou estruturas econômicas, como sugerem o realismo ou o marxismo, mas sim por identidades, normas e significados intersubjetivos. Wendt (1999) sustenta que “anarquia é o que os Estados fazem dela”, ou seja, a estrutura do sistema internacional depende das ideias que os atores têm sobre si e sobre os outros. Onuf (1989), por sua vez, argumenta que regras, discursos e práticas constroem as relações internacionais tanto quanto as instituições materiais.
Nesse sentido, a retórica agressiva dos Estados Unidos não apenas impactou a economia, mas também o imaginário político dos canadenses. A percepção de uma ameaça à soberania nacional e à identidade política própria levou o eleitorado a rejeitar narrativas que evocassem submissão ao vizinho do sul. O medo de perder autonomia, combinado com o desejo de reafirmar uma identidade soberana, moldou as preferências políticas de maneira decisiva (WENDT, 1999; ONUF, 1989).
Em suma, o pleito canadense de 2025 ultrapassou as fronteiras convencionais da política partidária. Foi um reflexo claro de como os eventos internacionais, especialmente em tempos de incerteza global, são capazes de redefinir as prioridades nacionais e influenciar diretamente o comportamento eleitoral. O Canadá, nesse contexto, escolheu reafirmar sua soberania, sua identidade distinta e seu compromisso com a cooperação multilateral — recusando o espelho do populismo estrangeiro e optando por uma liderança que promete, acima de tudo, estabilidade em meio ao caos.
REFERÊNCIAS
ALJAZEERA. Canada election results: Who are the key winners and losers. 29 abr. 2025. Disponível em: https://www.aljazeera.com/news/2025/4/29/canada-election-results-who-are-the-key-winners-and-losers. Acesso em: 2 maio 2025.
BBC NEWS. Canada election: Liberals secure minority government under Mark Carney. 29 abr. 2025. Disponível em: https://www.bbc.com/news/articles/c9ve4l13x19o. Acesso em: 2 maio 2025.
BBC NEWS. Pierre Poilievre loses seat in Parliament after election defeat. 29 abr. 2025. Disponível em: https://www.bbc.com/news/articles/cn4jd39g8y1o. Acesso em: 2 maio 2025.
CBC NEWS. Canada federal election 2025: Carleton – Pierre Poilievre results. 29 abr. 2025. Disponível em: https://www.cbc.ca/news/canada/ottawa/canada-federal-election-2025-carleton-pierre-poilievre-results-1.7515695. Acesso em: 2 maio 2025.
G1. Partido Liberal vence eleições no Canadá. 28 abr. 2025. Disponível em: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2025/04/28/partido-liberal-eleicao-canada.ghtml. Acesso em: 2 maio 2025.
ICIS. INSIGHT: Trump’s 25% tariff would trigger broad recession in Canada – Oxford Economics. 29 jan. 2025. Disponível em: https://www.icis.com/explore/resources/news/2025/01/29/11070874/insight-trump-s-25-tariff-would-trigger-broad-recession-in-canada-oxford-economics/. Acesso em: 2 maio 2025.
NEW YORKER. What Canadians Heard—and Americans Didn’t. 29 abr. 2025. Disponível em: https://www.newyorker.com/news/the-lede/what-canadians-heard-and-americans-didnt. Acesso em: 2 maio 2025.
ONUF, Nicholas. World of Our Making: Rules and Rule in Social Theory and International Relations. Columbia: University of South Carolina Press, 1989.
POLITICO. Pierre Poilievre and Mark Carney: Canada’s election showdown. 28 abr. 2025. Disponível em: https://www.politico.eu/article/pierre-poilievre-mark-carney-canada-election-conservative-liberal/. Acesso em: 2 maio 2025.
WENDT, Alexander. Social Theory of International Politics. Cambridge: Cambridge University Press, 1999.
