Caio Farias
Lara Lima
Marcelo Alves

A Somália, localizada no Chifre da África, figura entre os países mais instáveis do mundo. Desde 1991, com o colapso do governo central, o país enfrenta uma profunda crise institucional, marcada pela ausência de um Estado funcional (Estadão, 2012).Nesse vácuo de poder, surgiram redes de pirataria marítima cada vez mais organizadas, aproveitando-se da fragilidade estatal e da vulnerabilidade das rotas comerciais no oceano Índico.

Muito além de atos isolados, a pirataria na região transformou-se em uma cadeia econômica milionária, estruturada e internacionalizada. Alimentada por redes de financiamento, corrupção e tráfico de informações, essa atividade impacta não apenas a economia somali, mas também o comércio global e a segurança internacional.

Gráfico 01; Quantidade de Ataques e Sequestros em território Somali (2003-2014)

Fonte: UFRGS (2015)

O gráfico 01 apresenta um aumento significativo dos casos de pirataria no ano de 2007, crescendo de forma exponencial até 2011, evidenciando o desenvolvimento histórico progressivo desta atividade na região do Chifre da África, especialmente na Somália. Ademais, a localização estratégica da costa somali, próxima a importantes rotas comerciais internacionais, favoreceu a intensificação dos ataques marítimos nesse período.(LESSA, 2015)

Sendo assim, o processo de captura de navios de grande porte na região tornou-se recorrente e amplamente conhecido, sendo intensificado em 2008 com o sequestro de um petroleiro saudita no mesmo ano, a crise intensifica-se a cada ano, levando Estados como EUA, Reino Unido, China e outros seis países a direcionar políticas de intervenção desta atividade, na perspectiva de combater essa prática (BBC, 2009).

A tentativa de barrar a continuidade dessas atividades se tornaram, por um tempo, impossíveis. O sequestro desses navios desencadearam um mercado lucrativo ao ponto de “investidores” de outros países arrecadarem de 30% a 70% dos lucros em troca de financiamento a esses piratas. (Carta Capital, 2013)

Para analisar com maior profundidade tal tema, pode-se recorrer a pensamento de Joseph Nye, o qual, discorrendo sobre o Tabuleiro Tridimensional, especificamente na segunda dimensão do tabuleiro, discorre a respeito da existência de diversos atores exercendo poder no sistema, dentre eles o mercado exerce poder significativo, influenciando as relações entre os estados e representando o poder através deste mercado ilegal.

De maneira análoga, analisando o caso da Somália, através da Teoria do Tabuleiro Tridimensional, observa-se a atuação de atores não estatais como piratas e milícias, que exercem influência significativa mesmo fora da lógica estatal tradicional. No segundo nível do tabuleiro de Nye, o poder é exercido por meio de práticas como sequestros, ataques e pirataria, refletindo a descentralização, onde mercados ilegais desafiam o controle estatal e impactam as relações internacionais.

Conclui-se, portanto, que a pirataria na Somália vai muito além de um fenômeno criminal isolado, sendo resultado direto do colapso institucional do país e da ausência prolongada de um Estado funcional.

Através da lente da Teoria do Tabuleiro Tridimensional de Joseph Nye, evidencia-se como atores não estatais, impulsionados por interesses econômicos ilegais, podem exercer poder significativo e influenciar a dinâmica internacional. A pirataria somali, sustentada por redes transnacionais de financiamento e corrupção, demonstra como mercados paralelos e desregulados desafiam a soberania dos Estados e colocam em risco a segurança global, exigindo, assim, uma abordagem cooperativa e multilateral para o enfrentamento eficaz desse problema.

Referências:

BBC. Navio americano sequestrado por piratas ruma ao Quênia sem seu comandante. 2009. Disponível em: bc.com/portuguese/noticias/2009/04/090409_somalia_rc Acesso em: 2 maio 2025.

CARTA CAPITAL. A milionária cadeia da pirataria na Somália. 2013. Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/mundo/a-milionaria-cadeia-da-pirataria-na-somalia-6285-html/ . Acesso em: 2 maio 2025.

ESTADAO. Há 15 anos sem governo central, Somália vive catástrofe humanitária. Estadao, São Paulo. Publicado em: 5 jun. 2006. Disponível em: https://www.estadao.com.br/internacional/ha-15-anos-sem-governo-central-somalia-vive-catastrofe-humanitaria-2/ . Acesso em: 1 maio 2025.

LESSA, Luana. Ascensão e declínio da pirataria marítima no Chifre da África: Territórios,
territorialidades, escalas de ação e políticas de seguridade internacional. 1º Seminário Internacional de Ciência Política.UFRGS. 2015. Acesso em 3 maio 2025.

NYE, Joseph S. Jr. O futuro do poder. São Paulo: Benvirá, 2011.

SARFATI, Gilberto. Teoria das Relações Internacionais. São Paulo: Editora Saraiva, 2005.