
A governança global vem ganhando destaque e espaço nas discussões atuais de Relações Internacionais (RI), particularmente frente aos desafios transnacionais como alterações climáticas, crises econômicas e migrações em larga escala. Dentro deste contexto, David Held se sobressai como um dos teóricos mais notáveis a reconsiderar as estruturas de poder e coordenação política para além do estado-nação (Held, 1995). Suas obras apresentam um modelo de governança cosmopolita, no qual instituições multilaterais, entidades não governamentais e sistemas internacionais colaboram para lidar com questões que ultrapassam as fronteiras.
David Held é considerado um dos principais teóricos contemporâneos das Relações Internacionais, foi professor da London School of Economics e cofundador da editora Polity Press. Ele desenvolveu uma abordagem crítica ao sistema internacional westfaliano, propondo alternativas cosmopolitas para os desafios globais. Entre suas obras mais influentes destacam-se a Democracy and the Global Order (1995); Global Transformations (1999); e Cosmopolitanism: A Defence (2003).
O teórico buscou enfatizar em seus argumentos que o modelo de soberania estatal consolidado pelo Tratado de Westfália (1648) tornou-se insuficiente para lidar com os enormes fluxos globais de capital, informação e riscos compartilhados (HELD, 2002). Em sua visão, a interdependência crescente entre as nações exige uma reconfiguração da autoridade política, que não mais se restringe aos governos nacionais, mas se expande para redes transnacionais de regulamentação.
Neste viés, Held identifica a ascensão de uma “governança multinível”, na qual organizações como a ONU, o FMI e a OMC assumem papéis decisivos na regulação de questões globais (Held; Mcgrew, 2002). No entanto, ele alerta que essas instituições frequentemente reproduzem assimetrias de poder, privilegiando os interesses das potências ocidentais em detrimento de países subdesenvolvidos.
Em vista dessa situação, ele propõe um projeto de democracia cosmopolita para então superar tais limitações, baseado em princípios de inclusão, responsabilização e justiça distributiva global. O seu modelo prevê a criação de instituições democráticas supranacionais capazes de assegurar direitos humanos universais e promover a participação equitativa de todos os povos (Held, 1995).
Um dos pilares dessa proposta é a reforma das Nações Unidas, garantindo maior representatividade ao Conselho de Segurança, além de fortalecer mecanismos de fiscalização internacional. Ademais, Held defende a regulamentação mais rígida do mercado financeiro e a implementação de políticas ambientais globais, como forma de combater desigualdades e riscos sistêmicos.
E apesar de sua grande influência, sua teoria não está imune a críticas. Autores como Krasner (1999) questionam a viabilidade prática de uma governança cosmopolita, argumentando que os Estados ainda resistem a ceder soberania em prol de instituições globais. Da mesma forma, realistas das Relações Internacionais ressaltam que a governança global muitas vezes reflete a hegemonia de atores poderosos, e não um consenso democrático (Mearsheimer, 2001).
Outro ponto de debate é o caráter utópico de algumas propostas de Held, especialmente no que diz respeito à harmonização de culturas e interesses nacionais divergentes. Embora sua visão seja normativamente atraente, sua implementação enfrentaria resistências políticas e institucionais significativas.
David Held proporciona uma das reflexões mais completas acerca dos desafios e oportunidades da governança global no século XXI. A sua oposição ao modelo westfaliano e a defesa de uma ordem cosmopolita sublinham a urgência de alterações profundas no sistema internacional. No entanto, como evidenciado, sua estratégia encontra obstáculos tanto em relação à viabilidade quanto à equidade. No entanto, o legado de Held ainda é pertinente, particularmente em uma época em que crises globais demandam respostas cooperativas. O seu trabalho é um apelo para reconsiderar as estruturas de poder global, em busca de maior colaboração e equidade entre as nações.
Referências:
HELD, D. Democracy and the Global Order: From the Modern State to Cosmopolitan Governance. Stanford: Stanford University Press, 1995. Disponível em: <http://213.55.90.4/admin/home/Dmu%20Academic%20Resource/Postgraduate%20Studies/Political%20Science/%5BDavid_Held%5D_Democracy_and_the_Global_Order_From_(BookFi).pdf>
HELD, D.; MCGREW, A. Global Transformations: Politics, Economics and Culture. Cambridge: Polity Press, 2002.
HELD, D. Cosmopolitanism: A Defence. Cambridge: Polity Press, 2003.
MEARSHEIMER, J. J. The Tragedy of Great Power Politics. New York: W. W. Norton, 2001. Disponível em: < https://samuelbhfaure.com/wp-content/uploads/2015/10/s2-mearsheimer-2001.pdf>
