
Maria Eduarda, Acadêmica do 1° Semestre de Relações Internacionais
Ficha Técnica:
Ano: 2022
Diretor: Naican Escobar, Euros Lyn
Distribuição: Netflix
Gênero: Drama teen, romance, amadurecimento.
País de Origem: Reino Unido
A série “Heartstopper” baseada no webcomic criado por Alice Oseman vem gerando impactos significativos sobre o público, em sua maioria jovem, desde o lançamento de sua primeira temporada em 2022. A série aborda temas como auto descoberta, aceitação, amizade e representatividade LGBTQIAPN+ fugindo dos estereótipos impostos à comunidade no âmbito do audiovisual, não os resumindo apenas às diversas violências sofridas por seus membros, mas dando ênfase às suas lutas de maneira positiva e simples, sendo uma referência tanto para pessoas que ainda estão se descobrindo, quanto para pessoas que já são parte da comunidade. (JORNALISMO PUC-SP, 2022).
Indo além da representação da comunidade LGBTQIAPN+, Heartstopper vai contra o sensacionalismo “representativo” presente no âmbito audiovisual, algo que assola a minoria ao evidenciar apenas a parte difícil do que é viver em um mundo que recusa a evoluir suas formas de pensamento conjuntamente com suas gerações.
A trama dá ênfase a dois personagens, Charlie Spring e Nick Nelson. Charlie é um garoto estudioso e tem como amigos, Tao Xu, Isaac Henderson e Elle Argent, no fundamental a orientação sexual de Charlie é exposta, e ele se torna vítima de bullying no colégio, o que gera no personagem uma série de transtornos como TOC e Anorexia nervosa, que são abordados mais a fundo em outras temporadas da série, visibilizando e conscientizando a busca por tratamento e apoio profissional.
Nick Nelson é o popular capitão do time de rúgbi do Colégio para garotos Truham, Nick se considerava heterosexual e nunca havia questionado sua sexualidade até o momento em que conhece Charlie através de atividades conjuntas, o processo da descoberta de Nick é interpretado de uma forma leve, o personagem aceita que gosta de garotos e após fazer pesquisas visando entender mais sobre seus sentimentos, Nick admite para si mesmo que é bissexual. A narrativa da série se mostra especial ao representar os sentimentos dos personagens com sutileza, mas não deixando de aprofundar esses sentimentos ao tempo de cada personagem, contribuindo para uma representação próxima da realidade de muitos jovens que já passaram e de outros que ainda irão passar por este processo.
Além da ênfase no envolvimento romântico dos protagonistas, a série também retrata a dinâmica dos casais Darcy e Tara, Tao e Elle, e dá devida importância a um breve conflito de Isaac consigo mesmo antes de se aceitar assexual e arromântico. Mesmo com divergências e situações difíceis em suas vidas, o grupo de amigos vive momentos divertidos quando estão juntos, valorizando o amor e a cúmplicidade que encontram uns nos outros. Ao destacar esses momentos de apoio, a série demonstra que as amizades são tão importantes e precisas quanto o amor romântico em meio às incertezas que do que é amadurecer, criando um porto seguro onde todos do grupo podem ser quem são sem medo ou julgamento, tornando o processo de crescimento menos confuso.
Sob a ótica Internacionalista, a série pode ser analisada através da Teoria Queer das Relações Internacionais, vertente que questiona e busca desconstruir normas sociais pré-estabelecidas na sociedade relacionadas a fixação e binaridade de gênero e sexualidade, onde o considerado “normal” é o ser heterossexual e cisgênero, e o ser Queer é visto como anormal, sendo marginalizado (E-INTERNATIONAL RELATIONS, 2018).
Uma das principais autoras da teoria queer Judith Butler, aborda em sua obra “Gender Trouble” (1990, apud Martins, 2008) sobre o conceito de gênero como performance, onde argumenta que o gênero não é uma identidade fixa, mas sim algo feito por meio da repetição de atos com a ideia de o reforçar socialmente, uma vez que esse gênero contém gestos e comportamentos repetitivos, eles são naturalizados como “masculinos” ou “femininos”. A ideia da heterossexualidade ser a única “normal” ou “natural” é imposta por diversas instituições sociais como, a família, a religião e o Estado, que procuram controlar a sexualidade de acordo com as expectativas binárias da sociedade.
Na série, os personagens enfrentam essas expectativas no ciclo que estão inseridos, algo que a teórica Judith Butler na obra “Undoing Gender” (2004) chama de “Violência normativa” onde essas regras de comportamento impostas são tão rígidas que a existência de algumas pessoas se torna difícil e dolorosa, essa violência pode ser visualizada na trama com o bullying que Charlie é obrigado a lidar por causa de sua orientação sexual e na hesitação de Isaac ao se entender assexual, quando todas as formas de atração se resumem ao sexo ou ao romantismo e o personagem não se vê inserido nesses padrões de atração.
Tais experiências revelam que as normas sociais funcionam como exigências, acabando por moldar certas identidades. Quando um indivíduo não se encaixa nos padrões estabelecidos, sua identidade passa a ser questionada e invalidada. A série, ao trazer essas vivências mostra que o processo de se reconhecer e ser reconhecido pelo outro é constantemente violado por pressões sociais, denunciando a exclusão e a invisibilidade que o corpo social padronizado impõe a estas pessoas.
Heartstopper vai além de um romance adolescente, demonstrando que a jornada de descoberta e aceitação pode ser leve desde que seja você mesmo. No início pode ser amedrontador não se encaixar nos princípios do que a sociedade enxerga como “normal” e ter que lidar com a repressão, mas através da amizade, do amor e principalmente da autoconfiança no fim, esse processo pode ser gratificante e libertador.
REFERÊNCIAS:
AGUILLERA, G; DIAS, R. JORNALISMO PUC-SP “Heartstopper” aumenta busca pela representatividade LGBTQIA+ não-fetichizada. 2022. Disponível em: https://agemt.pucsp.br/noticias/heartstopper-aumenta-busca-pela-representatividade-lgbtqia-nao-fetichizada Acesso em: 06. Mai. 2025
THIEL, M. E-INTERNATIONAL RELATIONS. Introducing Queer Theory in International Relations. 2018. Disponível em: https://www.e-ir.info/2018/01/07/queer-theory-in-international-relations/ Acesso em 07. Mai. 2025.
KARLA ADRIANA MARTINS, UNICAMP. “Gender Trouble”: outra perspectiva de compreensão do Gênero. 2008. Disponível em: https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/cadpagu/article/view/1771 Acesso em 12. Mai. 2025.
BUTLER, JUDITH. Undoing Gender. 2004. Disponível em: https://archive.org/details/undoinggender0000butl Acesso em 12. Mai. 2025.
