
Escrito por Marília Corrêa Martins – acadêmica do 3º semestre de Relações Internacionais da UNAMA.
A proteção de crianças e adolescentes é um dos pilares fundamentais para a construção de uma sociedade mais justa e segura. Nesse contexto, o Maio Laranja emerge como uma campanha essencial no combate ao abuso e à exploração sexual de menores, que, infelizmente, ainda persistem em escala alarmante a nível global, visto que de acordo com dados do Disque 100, somente no Brasil, milhares de casos são registrados anualmente, muitos deles subnotificados devido tanto ao medo, quanto à falta de informação ou vergonha (GOV, 2024).
A campanha busca não apenas alertar para a gravidade do problema, como também incentivar a denúncia e promover políticas públicas que sejam eficazes, além de atuar como um mecanismo de construção social que redefine a identidade da criança – de objeto passivo de violência para sujeito de direitos ativos, cuja proteção se torna responsabilidade coletiva (GOV, 2024). Essa reconstrução de identidades é essencial, pois, como argumenta o renomado teórico construtivista das Relações Internacionais, Nicholas Onuf, as estruturas sociais são simultaneamente produto e produtoras das ações e do entendimento humano, ao dizer que nós fazemos o mundo ao mesmo tempo em que o mundo nos faz (ONUF, 1989).
Nesse sentido, a teoria Construtivista das Relações Internacionais compreende a realidade política como uma construção social moldada por normas, identidades e práticas discursivas. Alexander Wendt (1999) afirma que as estruturas internacionais não são fixas, mas sim produtos de interações sociais contínuas. Sob essa perspectiva, é possível analisar o Maio Laranja não apenas como uma iniciativa pontual, mas como um processo dinâmico de construção e disseminação de novas normas sociais que redefinem a maneira como a sociedade percebe e responde à violência contra crianças.
Nesse panorama, a campanha conta com a participação de organizações não-governamentais, órgãos públicos e instituições de defesa dos direitos da infância e da juventude, que desenvolvem ações educativas, palestras e materiais informativos, possuindo como principal objetivo esclarecer para a população sobre os sinais de abuso – muitas vezes silenciosos – e orientar educadores, familiares e profissionais da saúde sobre como agir diante de suspeitas (GOV, 2024). Conforme destacam estudiosos do tema, como renomado sociólogo Faleiros (2010), a prevenção só é possível por meio da informação e da quebra do ciclo de silêncio que frequentemente envolve esses crimes.
Sob essa ótica, a obra Emílio (1762) de Jean-Jacques Rousseau, embora tenha sido escrita no século XVIII, permanece relevante para discutir questões contemporâneas, pois, mesmo que Rousseau não tenha tratado diretamente dessa mazela, ainda assim a sua filosofia educacional oferece bases sólidas para refletir sobre a proteção da infância. Afinal, como ele mesmo afirma, “a infância tem suas próprias maneiras de ver, pensar e sentir; nada é mais insensato do que querer substituí-las pelas nossas”, um princípio que o abuso infantil viola de modo brutal (ROUSSEAU, 1993).
Rousseau defende que a educação deve respeitar o desenvolvimento natural da criança, preservando sua inocência e integridade. Ele critica a sociedade por corromper os pequenos com vícios adultos, antecipando um problema que o Maio Laranja busca enfrentar: a exploração sexual, que rouba a infância e impõe traumas profundos. Uma das grandes contribuições do filósofo ao tema está em sua famosa frase: “o homem nasce bom, é a sociedade que o corrompe” (ROUSSEAU, 1993); haja vista que essa ideia ecoa na necessidade de proteger as crianças de violências, que distorcem sua formação moral e psicológica.
Consoante a isso, o Maio Laranja reforça a importância da atuação integrada entre diferentes setores da sociedade. Escolas, conselhos tutelares, delegacias especializadas e serviços de saúde devem trabalhar em conjunto para garantir a proteção das vítimas e a responsabilização dos agressores. A psicóloga e pesquisadora Ana Carina Stelko-Pereira (2018) ressalta que campanhas como essa são vitais para mudar uma cultura que, historicamente, tende a ignorar ou minimizar a violência sexual contra menores. Se, como diz Rousseau, “toda a educação do mundo é inútil se não houver proteção”, então a sociedade falha quando permite que crianças sejam violentadas. O Maio Laranja, assim, não é apenas uma campanha de conscientização, mas um chamado ético que remonta às reflexões do filósofo: a infância deve ser sagrada, e sua violação é uma das maiores injustiças humanas.
Em síntese, o Maio Laranja não deve se limitar a um período do ano, mas serve como um chamado para que a sociedade mantenha-se vigilante e atuante na defesa dos direitos de crianças e adolescentes. A conscientização deve ser contínua, e o compromisso com a proteção dos mais vulneráveis precisa ser coletivo. Denunciar é um dever de todos, e canais como o Disque 100 e o aplicativo Proteja Brasil estão disponíveis para receber e encaminhar relatos, assegurando o anonimato e a agilidade necessários.
REFERÊNCIAS
Disque 100 registra 657,2 mil denúncias em 2024 e crescimento de 22,6% em relação a 2023. Gov, 2025. Disponível em: https://www.gov.br/secom/pt-br/assuntos/noticias/2025/janeiro/disque-100-registra-657-2-mil-denuncias-em-2024-e-crescimento-de-22-6-em-relacao-a-2023
FALEIROS, Vicente de Paula. A violência sexual contra crianças e adolescentes e a construção de indicadores: a crítica do poder, da desigualdade e do imaginário. SER Social, Brasília, 2009. Disponível em: https://periodicos.unb.br/index.php/SER_Social/article/view/12842. Acesso em: 14 maio. 2025.
MATOS, Karla Julianne Negreiros de; PINTO, Francisco José Maia; STELKO-PEREIRA, Ana Carina. Violência sexual na infância associa-se a qualidade de vida inferior em universitários. Jornal Brasileiro de Psiquiatria, v. 67, p. 10-17, 2018.
ONUF, Nicholas. O mundo que construímos: regras e regras na teoria social e nas relações internacionais . Routledge, 2012.
ROUSSEAU, Jean-Jacques. Emílio, ou Da Educação. Trad. [Tradutor]. São Paulo: Editora Brasiliense, 1993.
WENDT, Alexander. Social theory of international politics. Cambridge: Cambridge University Press, 1999.
