
Stefany Campolungo – Acadêmica do 8º semestre de Relações Internacionais da UNAMA
Em novembro de 2025, a cidade de Belém do Pará será palco de um dos eventos mais significativos da agenda ambiental global: a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP 30). O evento configura-se como uma reunião anual que reúne líderes de governos, cientistas, representantes da sociedade civil e organismos internacionais para discutir e negociar ações conjuntas no enfrentamento da crise climática (GOV.BR).
Por ser um evento sediado no Brasil, mais especificamente na capital amazônica, há um destaque imenso no cenário internacional, tendo papel estratégico do país nas discussões sobre desenvolvimento sustentável, preservação da biodiversidade e justiça climática, integrando povos indígenas e ribeirinhos em discussões (EL PAÍS).
A COP 30 sendo sediada no Brasil representa uma oportunidade simbólica e estratégica para o Sul Global ocupar uma posição de protagonismo e liderança em negociações internacionais. Dentre outras questões importantes, o evento representa um caminho promissor para enfrentar um dos desafios globais mais urgentes: os efeitos das mudanças climáticas por meio da cooperação entre os países (GOV.BR).
Com efeito, para Robert Keohane (1984), a cooperação internacional é viabilizada pela criação de instituições que reduzem a incerteza, aumentam a transparência e promovem a previsibilidade nas relações entre Estados. As COPs, nesse sentido, podem ser compreendidas como uma dessas instituições, ao estabelecer um fórum regular de negociações, regras e compromissos multilaterais voltados a governança climática.
Contudo, Keohane também argumenta que tais instituições não são neutras, pois refletem assimetrias de poder e os interesses predominantes no momento de sua formação. Ainda assim, mesmo inseridos em um contexto desigual, atores do Sul Global, considerados secundários na estrutura internacional, podem utilizar a COP como espaço para moldar normas, influenciar agendas e reivindicar maior equidade nas responsabilidades e nos recursos para o enfrentamento das mudanças climáticas (KEOHANE, 1984).
Ademais, Andrew Hurrell (2006) debate sobre o papel das potências emergentes, como o Brasil, que ocupam posição ambivalente: sendo vítimas de desigualdades históricas e da ordem internacional e ao mesmo tempo agentes com capacidade transformadoras dessa mesma ordem.
A ascensão do Sul Global deve ser acompanhada de um novo tipo de responsabilidade internacional, não se limitando a inserção econômica ou a influência diplomática. Hurrell (2006) reconhece as limitações estruturais impostas por um sistema moldado pelos interesses do Norte Global, exigindo estratégias e diplomacia multilateral por parte dos países do Sul.
Importante destacar também que a cooperação internacional na atual configuração do sistema, que confronta perspectivas do Norte e do Sul Global, pode ser melhor compreendida à luz do pensamento da teoria Pós-Colonial, uma abordagem crítica que visa questionar as formas como o colonialismo e o imperialismo moldam a política internacional contemporânea.
Ao contrário das teorias tradicionais das Relações Internacionais, a teoria Pós-Colonial busca expor a dominação que persiste em países do Sul Global mesmo após a independência das colônias, apontando como o colonialismo não foi apenas um sistema econômico e político, mas junto disso um projeto cultural e epistêmico de dominação (SAID, 1978).
Edward Said (1978), em sua obra Orientalismo, discorre sobre como o conhecimento produzido sobre o “Outro” (Oriente) é historicamente utilizado como ferramenta de dominação para reforçar estereótipos de irracionalidade e atraso, sendo o Sul Global utilizado como receptores de ajuda ou então alvos de políticas, mas não como formuladores de soluções, sempre justificando intervenções em países do Sul.
Para Said (1978), o Sul Global é frequentemente silenciado em fóruns multilaterais, compactuando com a dominação econômica, política e epistemológica do Sul (SAID, 1978). Assim, é possível analisar como a realização da COP 30 no Brasil, mais especificamente em Belém, dá voz para países do Sul Global, considerados atrasados e marginalizados, de cooperarem e reduzirem incertezas.
Ao ocupar a posição de liderança sediando a COP 30, o Brasil pode usar os mecanismos institucionais para influenciar agendas, fortalecer alianças com outros países do Sul e propor compromissos que favoreçam a equidade climática, ampliando ainda mais sua relevância geopolítica, contudo, esse protagonismo exige um reposicionamento no qual potências emergentes assumam responsabilidades normativas globais (SAID, 1978).
A COP 30, portanto, passa a ser, também, um teste para a capacidade do Brasil de articular interesses domésticos com ambições globais, conectando justiça climática com inclusão social. A presença de vozes indígenas, quilombolas e ribeirinhas não pode ser apenas para engajar a visão do Brasil de um país diversificado, mas devem influenciar fortemente a definição de problemas e soluções, rompendo com a lógica colonial de que apenas o Norte detém o conhecimento válido. Com isso, o Brasil e outros países do Sul Global devem combinar uso estratégico de instituições, lideranças políticas e descolonização do discurso internacional para propostas e diálogos bem sucedidos (HURRELL, 2006).
REFERÊNCIAS:
BRASIL. Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional. COP30. Disponível em: https://www.gov.br/mdr/cop30.
EL PAÍS. De Cali a Belém: el liderazgo de América Latina para transformar la agenda global. Disponível em: https://elpais.com/america-futura/2025-03-06/de-cali-a-belem-el-liderazgo-de-america-latina-para-transformar-la-agenda-global.html.
HURRELL, A. Hegemony, liberalism and global order: what space for would-be great powers?
KEOHANE, R. After hegemony: cooperation and discord in the world political economy. 1984.
SAID, E. Orientalism. 1978.
