
Julia Pimenta, acadêmica do 1° semestre de Relações Internacionais
Thais Carvalho, acadêmica do 7° semestre de Relações Internacionais
Historicamente, o Canadá sempre manteve uma posição bastante alinhada aos interesses dos Estados Unidos. Mais do que uma questão de acordos comerciais ou fronteiras compartilhadas, essa proximidade refletia um alinhamento praticamente automático, que levava alguns analistas a se referirem ao país de forma quase cômica como o “vizinho comportado” dos norte-americanos. Por muito tempo, o Canadá adotou uma postura de parceiro obediente, evitando confrontos e acatando decisões dos EUA com relativa passividade. Contudo, essa dinâmica começou a se transformar nos últimos anos, especialmente após a imposição de tarifas comerciais pelos Estados Unidos, episódio que abalou significativamente a relação entre os dois países.
As tarifas impostas pelos Estados Unidos sobre produtos canadenses como aço e alumínio, conhecidas informalmente como “tarifaço”, surpreenderam pela forma agressiva com que foram aplicadas e, sobretudo, por terem como alvo um aliado histórico. Esse episódio abalou as bases da relação bilateral e funcionou como um divisor de águas. A partir dali, o Canadá passou a adotar uma postura mais crítica e independente em relação aos EUA, não apenas no campo econômico, mas também nas esferas política e cultural (SINGH, 2025).
Durante muito tempo, os Estados Unidos foram vistos no Canadá como um modelo a ser seguido. As economias estavam profundamente integradas, especialmente após acordos como o NAFTA, e as prateleiras dos supermercados refletiam essa influência, dominadas por marcas e produtos americanos (MINTZ, 2025). Culturalmente, a presença dos EUA também era evidente: filmes, músicas, moda e tecnologia vindos do país vizinho moldavam os hábitos dos canadenses (MELNITZER, 2025). O Canadá operava, em muitos aspectos, como uma extensão do mercado e da cultura norte-americana, sem apresentar grandes resistências.
No entanto, a imposição unilateral das tarifas comerciais revelou um lado menos amigável da relação. Pela primeira vez em anos, o Canadá foi tratado não como parceiro, mas como concorrente. Isso escancarou a fragilidade de uma dependência construída ao longo de décadas e despertou um senso de urgência por mudança.
A reação foi rápida. Além das medidas diplomáticas, surgiram respostas simbólicas e práticas: redes de varejo passaram a retirar produtos americanos das prateleiras, enquanto campanhas de incentivo ao consumo local, como o “Buy Canadian”, ganharam força e passaram a representar não apenas um estímulo econômico, mas um gesto de resistência. O movimento, antes esporádico, tornou-se um símbolo de afirmação nacional e de questionamento frente à conduta americana (REUTERS, 2025).
Ao mesmo tempo, o governo federal e diversas províncias intensificaram esforços para diversificar suas parcerias internacionais. Acordos como o CETA (Comprehensive and Trade Agreement), com a União Europeia, foram fortalecidos, e novas aproximações com países da Ásia-Pacífico começaram a ganhar espaço. Essas estratégias visam reduzir a vulnerabilidade canadense a decisões unilaterais dos Estados Unidos, ampliando o alcance global da economia nacional (BECK; DADE, 2025).
Esse reposicionamento teve reflexos na diplomacia. Embora a relação com os EUA continue sendo próxima, ela agora é marcada por mais cautela e menos previsibilidade. O Canadá passou a reivindicar maior voz nas negociações e a rejeitar imposições, buscando consolidar-se como um ator internacional com autonomia e interesses próprios.
A relação estabelecida entre o Canadá e os Estados Unidos ao longo dos anos pode ser analisada sob a ótica da teoria Construtivista das Relações Internacionais, vertente esta que entende o cenário internacional como um processo dinâmico construído por intermédio das ideias, valores e crenças compartilhadas entre os Estados (agentes). Isto é, as ações existentes entre os agentes e a estrutura social se co-influenciam e se constroem reciprocamente, formando um “ethos”, ou seja, um conjunto de valores e ações co-construídas que orientam as relações entre os países (CASTRO, 2012, p. 386)
Alexander Wendt, um dos principais pensadores do construtivismo, aborda em seu artigo seminal “Anarchy is what states make of it” (1992), que a identidade de um Estado é moldada pela interação social e pelas percepções compartilhadas, e que esta identidade pode ser alterada de acordo com a evolução da relação existente entre os países. Isto posto, Wendt (1992) afirma que o sistema internacional, isto é, a estrutura, não é determinada somente pela anarquia ou pelo poder material, mas sim pelas ideias e valores co-construídos socialmente.
Dessa forma, ao associar a relação existente entre o Canadá e os EUA, pode-se observar que a identidade canadense foi, por um longo período, definida pelo alinhamento automático e proximidade aos interesses estadunidenses. Porém, as políticas de tarifas comerciais impostas pelo Governo Trump, além do discurso agressivo direcionado ao país vizinho, desencadearam uma redefinição da identidade canadense, que passou a adotar uma postura diplomática e comercial mais pautada na afirmação nacional e na autonomia, demonstrando assim que, de acordo com o pensamento construtivista, transformações ocorrem no sistema internacional quando há mudanças nas interações e percepções co-construídas entre os estados.
Por fim, essa mudança na postura canadense não implica um rompimento, mas sim uma tentativa clara de estabelecer uma relação mais equilibrada, baseada em respeito mútuo. O processo é complexo e exige tempo, mas os primeiros passos foram dados. O tarifaço serviu como um alerta: o Canadá percebeu que, para preservar sua soberania e estabilidade, precisa se afirmar como mais do que o irmão mais novo dos Estados Unidos. Agora, o país parece empenhado em construir uma nova narrativa diplomática, mais firme, questionadora e aberta ao mundo, sinalizando que a era da lealdade automática e da submissão silenciosa está chegando ao fim.
REFERÊNCIAS
CASTRO, Thales. Teoria das Relações Internacionais. Brasília: FUNAG, 2012.
WENDT, Alexander. Anarchy is what states make of it: the social construction of power politics. International Organization, v. 46, n. 2, p. 391-425, 1992.
MINTZ, Corey. How NAFTA Changed the Way We Eat. The Walrus, 2025. Disponível em: https://thewalrus.ca/how-nafta-changed-the-way-we-eat/. Acesso em: 12 maio 2025.
MELNITZER, Julius. The Power of US Brands. Lexpert, 2025. Disponível em: https://www.lexpert.ca/archive/the-power-of-us-brands/340872. Acesso em: 12 maio 2025.
SINGH, Rimjhim. US-Canada tariff history: The 2018 trade dispute, retaliation, and fallout. 2025. Business Standard, 2025. Disponível em:https://www.business-standard.com/world-news/us-canada-trade-war-trump-tariffs-mexico-china-2018-125030400215_1.html. Acesso em: 12 maio 2025.
REUTERS. How Trump’s chaotic trade war has evolved. 2025. Disponível em: https://www.reuters.com/business/autos-transportation/how-trumps-chaotic-trade-war-has-evolved-2025-05-12/. Acesso em: 12 maio 2025. Acesso em: 12 maio 2025.
BECK, Stewart; DADE, Carlo. Canada’s Trade Pivot: Engaging Asia’s Giants for Strategic Autonomy. Policy Magazine, 2025. Disponível em: https://www.policymagazine.ca/canadas-trade-pivot-engaging-asias-giants-for-strategic-autonomy/. Acesso em: 12 maio 2025.
