Sofia Dias Santos

A desigualdade de renda no Brasil voltou a cair em 2024, atingindo o menor nível desde o início da série histórica em 2012, segundo dados do IBGE. Medida pelo Índice de Gini — que varia de 0 (igualdade total) a 1 (desigualdade total) — a concentração de renda alcançou 0,506, o menor valor registrado até então. Vale destacar que o ponto mais alto da série havia sido 0,545, em 2018. Essa redução do índice, portanto, sinaliza uma diminuição na disparidade de renda entre os extremos da população. (SINDIFISCO, 2025)
A relevância do Índice de Gini ultrapassa sua função estatística, assumindo um papel central na análise das desigualdades no cenário das Relações Internacionais. Ao revelar como a renda é distribuída dentro dos países, o Gini permite compreender não apenas as fragilidades internas, mas também as assimetrias globais que moldam fluxos de comércio, investimento e poder. Nesse sentido, trata-se de uma ferramenta analítica fundamental para interpretar os desafios da justiça social em um mundo marcado por profundas interdependências e desigualdades estruturais.
De acordo com Gustavo Geaquinto Fontes, pesquisador do IBGE, a queda na desigualdade de renda observada em 2024 está relacionada, principalmente, ao dinamismo do mercado de trabalho, que favoreceu especialmente as camadas de menor rendimento. Além disso, programas sociais também exerceram papel relevante na redução do Índice de Gini, ao considerar todas as fontes de renda.
A análise sobre a distribuição de renda em uma sociedade está intimamente relacionada à quantificação da desigualdade e aos desafios que surgem ao tentar medir esse fenômeno. Nesse sentido, o Coeficiente de Gini, desenvolvido pelo estatístico italiano Corrado Gini e publicado em sua obra “Variabilità e Mutabilità” em 1912, é uma das ferramentas mais amplamente empregadas para avaliar a desigualdade na distribuição de renda. Embora seja mais conhecido por mensurar a disparidade de rendimentos, o Gini também pode ser aplicado a outras formas de distribuição, como a concentração de terra ou riqueza. Esse coeficiente varia de 0 a 1, em que 0 representa a total igualdade e 1 a extrema concentração. (IPECE, 2011)
Originalmente desenvolvido para avaliar a desigualdade econômica, o índice foi subsequentemente adaptado para outras áreas, como a Educação, sendo empregado para investigar a disparidade educacional entre os indivíduos. O Índice de Gini para Educação (GE) considera a acumulação de capital educacional, medida pelos anos de escolaridade, com base no percentual acumulado da população analisada. Assim, o cenário de igualdade absoluta entre os membros da população, onde todos possuem o mesmo número de anos de estudo, resulta em um GE igual a zero. (EVERCODE, 2025)
O Coeficiente de Gini é construído a partir de uma representação gráfica conhecida como Curva de Lorenz, desenvolvida pelo economista Max O. Lorenz em 1905. Essa curva mostra a relação entre a distribuição de um recurso, como a renda, e a população. Imagine um gráfico em que o eixo horizontal representa a porcentagem de pessoas e o eixo vertical, a porcentagem acumulada da renda.

FONTE: POLITIZE (2023)

Esse índice, portanto, pode ser útil para quantificar as disparidades no bem-estar entre diferentes países, além de refletir as distintas concepções políticas e filosóficas que moldam suas economias. A simplicidade e versatilidade do Gini explicam sua ampla adoção, mas também geram discussões sobre suas limitações, uma vez que ele não captura aspectos fundamentais, como as desigualdades estruturais e as dinâmicas regionais.
Além disso, vale ressaltar que a análise do coeficiente de Gini pode ser distorcida quando utilizado para comparações entre países de tamanhos muito diferentes. De fato, economias com rendimentos e valores de Gini semelhantes ainda podem apresentar distribuições de renda bastante diversas, já que as Curvas de Lorenz podem ter formas diferentes e, mesmo assim, resultar no mesmo valor de Gini.
Neste sentido, a análise da desigualdade no Brasil, especialmente quando medida por ferramentas como o Índice de Gini, pode ser enriquecida pelas contribuições de Wilson Cano, sociólogo e economista que se dedicou ao estudo das desigualdades estruturais no país. Em sua obra A questão regional e urbana no Brasil (2021), Cano argumenta que, no Brasil, as desigualdades de renda são profundamente enraizadas em processos históricos de concentração de riqueza, heranças coloniais e a persistência de uma estrutura social estratificada.
Nesse contexto, o Índice de Gini oferece uma visão quantitativa da concentração de renda, mas Cano destaca que o Gini, por si só, não é capaz de capturar as complexas dinâmicas sociais e econômicas que perpetuam a desigualdade. Para ele, a análise das disparidades no Brasil deve ir além de simples medidas estatísticas, atentando-se às causas estruturais que limitam a mobilidade social e reforçam as distâncias entre as classes sociais.
Assim, em um mundo marcado por fluxos assimétricos de capital, comércio e poder, monitorar a concentração de renda permite avaliar não apenas o bem-estar interno das populações, mas também os impactos da inserção dos países na economia global. Sob essa perspectiva, o Gini não deve ser visto apenas como um dado técnico, mas como um instrumento político e analítico que revela tensões sociais, evidencia fragilidades no modelo de desenvolvimento adotado e orienta políticas públicas voltadas à justiça social e à equidade.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CEARÁ. Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará – IPECE. Entendendo o Índice de Gini. Fortaleza: IPECE, 2011. Disponível em: https://www.ipece.ce.gov.br/wp-content/uploads/sites/45/2015/02/Entendendo_Indice_GINI.pdf.

CANO, Wilson. A questão regional e urbana no Brasil. São Paulo: Editora Unesp, 2011.

EVERCODE, S. ÍNDICE DE GINI. Disponível em: https://gestrado.net.br/indice-de-gini/.

POLITIZE. Índice de Gini: um indicador da desigualdade. 2023. Disponível em: https://www.politize.com.br/indice-de-gini/

Rendimento per capita é recorde e desigualdades caem ao menor nível desde 2012. Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/43302-rendimento-per-capita-e-recorde-e-desigualdades-caem-ao-menor-nivel-desde-2012.

SINDIFISCO. Desigualdade De Renda Volta A Cair E Renova Menor Nível Da Série Histórica No Brasil. Disponível em: https://sindifisco.org.br/noticias/desigualdade-de-renda-volta-a-cair-e-renova-menor-nivel-da-serie-historica-no-brasil.

VALERY, G. Desigualdade cai no Brasil e renda atinge recorde em 2024. Disponível em: https://tvtnews.com.br/desigualdade-cai-no-brasil-renda-recorde/.