Julia Castro, acadêmica do 7° semestre de Relações Internacionais

Ficha Técnica:

Ano: 2010

Direção: Chris Sanders, Dean DeBlois

Distribuição: Dreamworks Animation

Gênero: Aventura

País: Estados Unidos

Baseada na série de livros homônima escrita por Cressida Cowell, a adaptação cinematográfica de “Como Treinar O Seu Dragão” conta a história de um jovem viking que desafia as tradições de seu vilarejo ao fazer amizade com um dragão, considerado um inimigo mortal dos seres humanos. De forma sutil e poética, a animação é um grande exemplo de obra que entretém e, ao mesmo tempo, ensina lições profundas sobre como superar rivalidades e transformar o mundo em um local mais pacífico. 

O enredo se passa na Ilha de Berk, onde vikings vivem em constante guerra contra ataques constantes de dragões. Soluço, um jovem inteligente mas desajeitado, é filho do Viking Stoico, chefe da aldeia, e é treinado para ser um caçador de dragões. Durante um ataque, ele consegue derrubar um tipo raro de dragão, denominado “Fúria da Noite”, mas ao encontrá-lo ferido, decide não matá-lo. Com o tempo, Soluço e o dragão, que ele chama de Banguela, formam uma forte amizade. Ele então percebe que os dragões não são monstros, mas criaturas sensíveis e inteligentes. Entretanto, seu segredo é descoberto, gerando conflito com seu pai e o restante da aldeia. Juntos, Soluço e Banguela mostram que seres humanos e dragões podem viver em harmonia e enfrentar perigos juntos.

A trama mostra uma poderosa mensagem sobre a superação de conflitos por meio do diálogo e da interdependência. Analisando a película à luz das Relações Internacionais, teóricos do Liberalismo Clássico acreditavam que conflitos entre atores, estatais ou não, poderiam ser evitados por intermédio da cooperação e de interesses compartilhados. Esse pensamento está associado às ideias cosmopolitas de Immanuel Kant, pela sua obra, intitulada “Paz Perpétua” (1795). Para Kant, embora a democracia seja o melhor caminho à paz, ela não é suficiente; é preciso que os Estados respeitem uns aos outros por meio de um federalismo refletido em uma liga da paz. Por consequência, a mais poderosa ideia do Liberalismo Internacionalista pacifista é a de que Estados liberais democráticos não fazem guerra entre si (KANT 1795 apud SARFATI, 2005). 

No contexto do filme, a mudança na relação entre humanos e dragões pode ser vista como uma metáfora para a superação de conflitos e a construção de uma comunidade mais justa e pacífica, representando o ideal kantiano de paz e cosmopolitismo. Na mesma obra, Kant também afirma que é nossa obrigação buscar a paz, mas que esse dever “não pode ser instituído ou assegurado sem um contrato dos povos entre si” (KANT, 1795 apud GERHARDT, 2005). A união entre Soluço e Banguela é um exemplo do que os liberais chamam de cooperação baseada em interesses comuns. As relações entre dragões e seres humanos são marcadas pela hostilidade, representando uma estrutura anárquica típica do realismo. Em meio a esse sistema, Soluço age como uma figura transformadora, próximo dos conceitos kantianos de paz perpétua, ao escolher não destruir o inimigo. 

Através desses elementos, conclui-se que “Como Treinar o Seu Dragão” pode ser visto como uma metáfora sobre os principais fundamentos do liberalismo como diálogo, confiança, empatia e cooperação. A análise do filme sob a ótica do pensamento de Kant oferece uma rica reflexão sobre como a disciplina, a autonomia e o ideal cosmopolita podem ser aplicados para superar conflitos e construir uma convivência mais ética e racional. Diante de ameaças globais, alianças podem surgir mesmo entre rivais.

REFERÊNCIAS: 

GERHARDT, Luiza Maria. À paz perpétua, de Immanuel Kant. Educação, v. 28, n. 1, 5 set. 2005.

KANT, Immanuel. À paz perpétua. Porto Alegre: L&PM, 1989.

SARFATI, Gilberto. Teoria das Relações Internacionais. São Paulo: Saraiva, 2005.