
Marcelo Andrade de Freitas – acadêmico do 5° semestre de Relações Internacionais da Unama.
A política externa brasileira sob o governo Lula tem sinalizado um claro retorno à priorização da América Latina, evidenciado pela reativação da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC), pela defesa de propostas de integração regional e pela busca por maior autonomia estratégica no cenário internacional (VIGEVANI; CEPALUNI, 2009). Esse reposicionamento ocorre em um contexto de crescentes disputas comerciais globais, da ascensão de governos com orientações ideológicas diversas na região e da intensificação de desafios ambientais transnacionais.
Nesse novo ciclo diplomático, o Brasil tem retomado o protagonismo em fóruns multilaterais, como demonstra a proposta de uma candidatura latino-americana conjunta ao Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), iniciativa que visa fortalecer a representatividade da região em instâncias globais (SARAIVA, 2007). Simultaneamente, o país tem intensificado os laços bilaterais com parceiros estratégicos, como Chile, México e Uruguai, combinando afinidades ideológicas com objetivos pragmáticos de cooperação nas áreas comercial, climática e tecnológica.
Por outro lado, essa reorientação ocorre em um cenário internacional complexo, que exige equilíbrio e adaptabilidade. Diante das recentes tensões comerciais com os Estados Unidos, o governo brasileiro optou por respostas moderadas, preservando o diálogo e evitando desgastes diplomáticos mais intensos. No caso da Argentina, apesar dos embates políticos com o presidente Javier Milei, a relação comercial foi mantida, evidenciando uma postura pragmática voltada à estabilidade regional. Além disso, a preparação da Conferência das Partes sobre Mudanças Climáticas (COP30), que será sediada em Belém, tem funcionado como uma vitrine da liderança climática brasileira, reforçando o compromisso do país com a agenda ambiental em um momento de urgência global.
A política externa recente do Brasil pode ser compreendida à luz do construtivismo social, uma abordagem das Relações Internacionais que considera os Estados não apenas como agentes racionais em busca de interesses materiais, mas também como atores moldados por normas, discursos e identidades historicamente construídas. Para Nicholas Onuf (1989), célebre autor de tal viés, as palavras são atos: discursos constroem realidades sociais. No caso brasileiro, expressões como “solidariedade latino-americana”, “autonomia regional” e “integração” não constituem meros recursos retóricos — são práticas que moldam expectativas e legitimam condutas.
De forma complementar, o construtivista, Alexander Wendt (1992) argumenta que a anarquia internacional não possui um significado intrínseco, sendo interpretada pelos próprios Estados a partir de suas identidades. Assim, quando o Brasil propõe uma candidatura única latino-americana ao Conselho de Segurança da ONU ou busca equilibrar suas relações com Estados Unidos e China, age conforme uma identidade autoconstruída de liderança regional e moderação multilateral — e não apenas com base em cálculos de poder ou interesse econômico.
Essa perspectiva ajuda a compreender por que o Brasil adota posturas distintas diante de diferentes parceiros regionais. Com governos como os do Chile ou do Uruguai, observa-se uma expectativa mútua de cooperação, reforçada por uma afinidade discursiva que fortalece a identidade coletiva latino-americana. Em contrapartida, a relação com a Argentina de Javier Milei revela tensões discursivas, uma vez que a retórica confrontacional do presidente argentino destoa do padrão normativo brasileiro. Ainda assim, o Brasil evita rupturas, preservando o comércio e os canais institucionais, pois manter sua imagem de potência estável, dialogante e integradora constitui elemento central de sua política externa contemporânea.
Ademais, a política externa brasileira na América Latina reforça sua dimensão normativa ao buscar posicionar o país como um mediador regional em crises políticas e humanitárias. O recente empenho do Brasil na facilitação de diálogos multilaterais sobre a crise na Venezuela exemplifica essa postura, na qual a promoção da estabilidade política é entendida não apenas como um imperativo estratégico, mas também como um dever associado à identidade brasileira de defensora da paz e dos direitos humanos. Tal atuação amplia o capital simbólico do Brasil na região, consolidando sua imagem de potência comprometida com a governança democrática e com soluções pacíficas para os conflitos.
Em suma, o construtivismo evidencia que o Brasil não busca apenas ganhos materiais ou vantagens econômicas imediatas na América Latina; sua atuação está orientada pela intenção de sustentar uma ordem regional que seja coerente com sua autoimagem de liderança responsável e moderada. Nesse sentido, o país procura harmonizar discurso, prática e identidade, construindo uma política externa que reafirma seu papel de potência regional comprometida com a integração, a estabilidade e a cooperação multilateral. Assim, a diplomacia brasileira se configura como um instrumento não apenas de projeção de interesses, mas também de consolidação de valores e normas que moldam e legitimam sua presença no cenário latino-americano e global.
REFERÊNCIAS
ONUF, Nicholas. World of our making: rules and rule in social theory and international relations. Columbia: University of South Carolina Press, 1989.
SARAIVA, Miriam Gomes. O lugar da América do Sul na política externa brasileira: ação regional e relações bilaterais. Revista Brasileira de Política Internacional, Brasília, v. 50, n. 1, p. 27–44, 2007.
VIGEVANI, Tullo; CEPALUNI, Gabriel. A política externa brasileira: a busca da autonomia, de Sarney a Lula. São Paulo: Unesp, 2009.
WENDT, Alexander. Anarchy is what states make of it: the social construction of power politics. International Organization, Cambridge, v. 46, n. 2, p. 391–425, 1992.
