Thais Vitória Borges – Internacionalista

Nascido em 1931, na cidade de Cairo, no Egito, Samir Amin era doutor em Economia e possuía formação em Ciência Política (PCB, 2018). A maior parte de seus estudos se voltaram para as temáticas de: crítica à economia política, experiências de transição socialista e, sobretudo, acerca das relações entre centro e periferia do sistema capitalista (MST, 2024).

Cabe destacar que os anos de formação intelectual de Amin coincidem com o maior ciclo de descolonização das periferias, principalmente no continente africano, período em que lideranças como Kwame Nkrumah, de Gana, e Julius Nyerere, da Tanzânia, surgiram oferecendo respostas ao dilema do subdesenvolvimento, estas que iam ao encontro do marxismo o qual Samir pregava – uma visão engajada em causas de libertação dos países do Terceiro Mundo, ao invés de apenas contidos dentro dos muros acadêmicos (Aguiar, 2021, p. 146).

Com trabalhos que em sua maioria foram escritas em francês, mas também em inglês e espanhol, vale o destaque da obra Unequal Development (1976), dentro do qual o autor expõe como se dá a reprodução do capitalismo a partir da relação de desigualdade entre os países do centro e os periféricos. Discorrendo acerca das formações pré-capitalistas, às leis fundamentais desse modo de produção da economia de mercado; a origem e o desenvolvimento do fenômeno do subdesenvolvimento, até as formações sociais da periferia na contemporaneidade.

Acerca do desenvolvimento das periferias no continente americano, o autor afirma que se trata de uma região que foi essencial para a formação do sistema mundial contemporâneo. Isto porque inicialmente as formações pré-colombianas foram ou destruídas ou submetidas ao capital mercantil europeu que estava em ascensão. Assim, este sistema mercantilista, anterior ao capitalismo, estabeleceu colônias na América, explorando delas metais preciosos e mercadorias exóticas, contribuindo, desta forma, para a acumulação necessária para o desenvolvimento das metrópoles (Amin, 1976, p. 295-296).

O autor pontua que foi durante este período que foram estabelecidas na América Latina as estruturas que as caracteriza nos dias atuais, sendo esta baseada em um capitalismo agrário de tipo latifundiário, e cuja força de trabalho era de camponeses em condições degradadas (Ibid, 1976, p. 296).

Já quanto a formação das periferias no Oriente Médio e na Ásia, Amin discorre que esta ocorreu de maneira tardia se comparada com as Américas, tendo início apenas na segunda metade do século XIX. Isto em detrimento de que por um longo período o poder de sobrevivência das comunidades aldeãs resistiu ao desenvolvimento do capitalismo agrário em muitas regiões — como na China e áreas dos impérios persa e otomano, que escaparam da submissão direta à colônia (Ibid, 1976, p. 298).

Ademais, para compreensão da formação histórica do mundo árabe, o autor a divide em três períodos: o primeiro, marcado tanto pela tomada de consciência da ameaça que os países europeus constituíam, quanto por momentos de tentativa por imitar a Europa com o intuito de oferecer maior resistência a ela. A segunda fase se trata de um contexto de subjugação colonial, dentro da qual as formações árabes adquiriram o caráter periférico dependente final. E o terceiro período, no qual essa posição de dependência desses países passou a ser desafiada, período este iniciado na década de 1950 (bid, 1976, p. 300).

Já no continente africano, o período mercantilista perdurou do século XVII ao início de 1800, dentro do qual se tem como característica no continente o mercado de escravos. Neste período, Amin afirma que enquanto as Américas constituíam a periferia que possibilitava às metrópoles europeias a acumulação de riquezas; por outro lado, a África era compreendida como a “periferia da periferia”, isto porque o continente estava reduzido à função de fornecer a mão de obra escrava para trabalhar nas colônias americanas (ibid, 1976, p. 320).

Com o fim do mercantilismo, o comércio de escravos foi gradualmente abolido e a chamada acumulação primitiva de capital deu lugar ao desenvolvimento das indústrias nos países centrais. Nesse novo contexto, as regiões periféricas das Américas e da África perderam suas funções anteriores – de acumulação de riquezas e fornecimento de mão de obra escravizada – e passaram a ocupar uma nova posição na divisão internacional do trabalho. Tornaram-se fornecedoras de produtos primários de baixo valor agregado (como matérias-primas e bens agrícolas) para os países do centro, que assumiram o protagonismo na produção de bens industriais e de alto valor agregado (Ibid., 1976, p. 325).

Apesar das diferentes origens, Samir ressalta que as formações dessas periferias carregam um padrão, com características em comum: 1) a predominância do capitalismo agrário; 2) a criação de uma burguesia local; 3) tendência a um desenvolvimento burocrático peculiar; 4) caráter incompleto e específico do fenômeno de proletarização (ibid, 1976, p. 333). Além disso, acerca de uma transição desses países em posição de dependência para uma autossuficiência, o autor alega que o caminho que deve ser seguido é o de superação do modo de produção capitalista, com um revisionismo profundo das estruturas econômicas (ibid, 1976, p. 384).

Nesse sentido, Samir Amin deixou uma contribuição de mais de 60 títulos, para pensar a realidade e formas de superação dos países do Sul Global, se constituindo enquanto um intelectual de extrema relevância nos estudos de desenvolvimento e subdesenvolvimento e nas relações centro-periferia.

Referências 

AGUIAR, Pedro. Samir Amin: um intelectual do Sul global. estudos sobre marxismo, dependência e sistemas-mundo, p. 146, 2021.

MST – Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. 93 anos do nascimento de Samir Amin: uma voz do Sul Global. 2 set. 2024. Disponível em: https://mst.org.br/2024/09/02/93-anos-do-nascimento-de-samir-amin-uma-voz-do-sul-global/.

PCB – Partido Comunista Brasileiro. Falece em Paris o marxista egípcio Samir Amin. 14 ago. 2018. Disponível em: https://pcb.org.br/portal2/20519.

SAMIR, Amin. Unequal development: An essay on the social formations of peripheral capitalism. Harvester, 1976.