
Escrito por Thassyane Maria Silva da Silva – acadêmica do 5º semestre de Relações Internacionais da UNAMA.
A Mpox, zoonose identificada pela primeira vez em humanos em 1970 na República Democrática do Congo, apareceu por anos endêmica em países africanos. Contudo, entre 2022 e 2024, a doença foi incluída por mais de 127 países, com mais de 117 mil casos confirmados globalmente (OPAS, 2024). No Brasil, foram registrados 12.532 casos até setembro de 2024, segundo o Ministério da Saúde (2024), com maior concentração em centros urbanos e entre populações vulneráveis. Nesse contexto, a emergência de doenças como a Mpox no Brasil não pode ser discutida apenas pela linha biomédica, mas também política, por isso, torna-se necessário compreendê-la a partir das estruturas globais de poder e desigualdade.
Nessa perspectiva, destaca-se Robert Cox um importante autor da Teoria Crítica das Relações Internacionais, que parte do princípio de que nenhuma teoria é neutra, logo para o crítico, toda teoria está ligada a um propósito e a uma estrutura social específica, dessa forma Cox propõe uma abordagem histórica das Relações Internacionais que busca compreender como forças, materiais, ideias e instituições se combinam para formar ordens hegemônicas (ROBERT COX, 1981). Analogamente, as epidemias não podem ser vistas como “acidentes”, mas como uma demonstração de relações de poder vigentes, pois surtos de doenças endêmicas, refletem uma desigualdade histórica, que dificulta ações efetivas de organizações multilaterais erradicação da Mpox, sobretudo nos países do sul global.
De forma complementar, Aníbal Quijano (2005), a partir da Teoria Pós – Colonial, define a colonialidade do poder como um padrão estrutural que, mesmo após a descolonização formal dos Estados, mantém a organização hierárquica das relações globais, inclusive no campo da saúde. Nesse sentido, a gestão da saúde acontece sob uma lógica racial e eurocêntrica, na qual as populações periféricas continuam subordinadas a um regime de saber e poder construído a partir da modernidade ocidental. Os reflexos dessa colonialidade do poder repercutem diretamente sobre a capacidade de resposta do sistema d seaúde pública.
No Brasil, o Ministério da Saúde implementou medidas como a instalação do Centro de Operações de Emergência em Saúde (COE-Mpox) e medidas que intensificam o enfrentamento à doença, como a aquisição de testes e o desenvolvimento de uma vacina nacional. Entretanto, apesar do caráter proativo, no cenário atual, apenas oito laboratórios do país realizam testes de diagnóstico para detecção da monkeypox. Esses laboratórios são responsáveis pela cobertura nacional de testagem, o que ocasiona lentidão na disponibilização dos resultados dos testes, e por conseguinte, diversos casos suspeitos sem confirmação laboratorial (MACEDO; MACIEL, 2023). Sob essa ótica, o Estado Brasileiro enfrenta dificuldades em uma resposta rápida à doença, que revela a assimetria estrutural entre centro e periferia, em que o Sul Global ocupa uma posição periférica na cadeia global de produção em saúde.
Vale ressaltar, alguns detalhes sobre a doença, que por meio de roedores silvestres africanos, de espécies diferentes, são os reservatórios naturais da Mpox. Sabe-se que casos de Mpox em crianças na República Democrática do Congo (RDC) ocorrem por meio da captura e contato de roedores (ratos e esquilos) infectados. E que as crianças infectadas acabam por passar o vírus para pessoas que moram com elas (AZEVEDO, 2024). As mudanças climáticas interferem na saúde podendo influenciar na propagação de vetores, na qualidade das águas e na produção de alimentos, além de contribuir para a poluição do ar (FIOCRUZ). Sendo assim, a relação entre crise ambiental e epidemiológica expressa uma lógica que naturaliza a manipulação de territórios periféricos e a exposição desproporcional de seu ambiente aos riscos sanitários.
Em síntese, a propagação da Mpox e a dificuldade de enfrentamento nos países do Sul Global, como o Brasil e países da África – Subsaariana, refletem a marginalização desses territórios no campo da saúde, revelando Estados – centrais operam para manter a centralidade dos países desenvolvidos, principalmente na produção de conhecimento, tecnologia e medicamentos. Por fim, tanto a Teoria Crítica e a Pós – Colonial, permite averiguar alternativas que garantam equidade e coloquem a vida no centro das políticas de saúde.
Referências:
AZEVEDO, Ana Lucia. Mpox: mudanças climáticas e destruição da natureza aumentaram risco, afirma especialista. O Globo, Rio de Janeiro, 16 ago. 2024. Disponível em: https://oglobo.globo.com/saude/noticia/2024/08/16/mpox-mudancas-climaticas-e-destruicao-da-natureza-aumentaram-risco-afirma-especialista.ghtm. Acesso em: 25 maio 2025.
COX, Robert. Social forces, states and world orders: beyond international relations theory. Millennium, v. 10, n. 2, 1981.
FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ (FIOCRUZ). Endemia. Portal Fiocruz. Disponível em: https://portal.fiocruz.br/glossario/endemia. Acesso em: 29 maio 2025.
MINISTÉRIO DA SAÚDE (Brasil). Informe semanal nº 4. 2024. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/svsa/coes/mpox/informes/informe-semanal-no-04 . Acesso em: 25 maio 2025.
MACEDO, Laylla Ribeiro; MACIEL, Ethel Leonor. Monkeypox: contexto, implicações e desafios para serviços de saúde e vigilância. SciELO Brasil. 10 FEV 2023
OPAS. Atualização epidemiológica: Mpox. 2024. Disponível em: https://www.paho.org/pt/documentos/atualizacao-epidemiologica-mpox-20-dezembro-2024 . Acesso em: 23 maio 2025.
QUIJANO, Aníbal. Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina. In: LANDER, Edgardo (org.). A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais. Buenos Aires: CLACSO, 2005. p. 107–130.
