
Maysa Lisboa, 7° semestre de Relações Internacionais
Em 2025, Belém do Pará sediará a 30ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima. Será a primeira vez que o evento acontecerá no coração da Amazônia — um dos biomas mais ameaçados do planeta e território ancestral de inúmeros povos. Além disso, a conferência representa uma oportunidade única de integrar, de forma efetiva, as vozes indígenas aos debates climáticos internacionais (MPI, 2025). Todavia, essa escolha geopolítica carregada de simbolismo levanta uma questão central: os povos originários estarão realmente no centro das decisões políticas ou continuarão sendo convidados a escutar, e não a decidir?
Historicamente, os povos originários são guardiões fundamentais do equilíbrio ecológico. De acordo com dados da ONU, cerca de 80% da biodiversidade restante do planeta encontra-se em terras indígenas (UNEP, 2024). Isso não é coincidência, mas reflexo de modos de vida que priorizam o equilíbrio com a natureza, o bem viver e a proteção intergeracional. Apesar disso, as políticas climáticas internacionais raramente reconhecem tais saberes como centrais nos processos de tomada de decisão. A presença indígena nas conferências climáticas, inclusive nas COPs anteriores, tem sido muitas vezes simbólica ou consultiva, marcada por barreiras estruturais, invisibilização e sub-representação.
Essa exclusão revela uma dimensão mais profunda e persistente: a colonialidade do poder, conceito elaborado por Aníbal Quijano (2005), que denuncia a imposição histórica de uma racionalidade ocidental sobre outros modos de existência e conhecimento, deslegitimando seus saberes, línguas e formas de organização social. A teoria decolonial, busca romper com essa lógica, que ainda estrutura as relações internacionais, e propõe o reconhecimento de epistemologias plurais, especialmente aquelas oriundas dos povos indígenas e afrodescendentes (Quijano, 2005).
Para a socióloga Catherine Walsh, esse reconhecimento deve se dar por meio de uma interculturalidade crítica, que não apenas tolere a diferença, mas que promova o diálogo entre cosmovisões em condições reais de igualdade (Walsh, 2020). Walsh propõe a construção de um pluriverso — um mundo onde cabem muitos mundos —, no qual as práticas, linguagens e organizações indígenas sejam não apenas ouvidas, mas legitimadas e incorporadas aos espaços decisórios, como a COP 30.
Como afirma Ailton Krenak, é preciso “adiar o fim do mundo” escutando os que sempre estiveram comprometidos com a continuidade da vida, e não com sua exploração (Krenak, 2019). É nesse sentido que lideranças como Sônia Guajajara e organizações como a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) e a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB) têm pressionado por maior representatividade nos fóruns internacionais, defendendo uma transição ecológica que respeite os territórios e a autodeterminação dos povos originários (MPI, 2024).
Apesar do discurso oficial da ONU sobre inclusão e representatividade, os povos indígenas continuam enfrentando dificuldades para participar plenamente das COPs. Em muitas ocasiões, são relegados a espaços paralelos, painéis simbólicos ou eventos culturais, cujos resultados raramente influenciam os documentos finais. Barreiras linguísticas, falta de apoio logístico, ausência de financiamento e a própria estrutura colonialista dos processos diplomáticos limitam o acesso a posições de decisão real (COP30, 2025). Esses obstáculos refletem a colonialidade do saber, que ainda hierarquiza conhecimentos e silencia vozes dissidentes.
No entanto, avanços vêm sendo conquistados. Durante a COP 26, realizada em Glasgow, representantes da APIB e da Coordenação das Organizações Indígenas da Bacia Amazônica (COICA) participaram de debates sobre financiamento climático direto para comunidades indígenas, além de reconhecer que proteger os territórios indígenas é uma estratégia eficaz contra o desmatamento, o que fortaleceu o discurso em defesa da participação ativa dos povos originários nesses ambientes de decisão (UNEP, 2024).
Compreender essa luta por representatividade também exige uma perspectiva ética e política: a da justiça climática, que reconhece que a crise ambiental é atravessada por desigualdades sociais, étnico-raciais e históricas, além de ampliar a compreensão da crise ambiental focada em metas de carbono (Torres et al., 2022).
Os povos indígenas, embora contribuam minimamente para a degradação ambiental, estão entre os primeiros a sentir seus impactos, como a perda de territórios, a escassez hídrica e o desequilíbrio ecológico. Como argumenta Boaventura de Sousa Santos, pensar justiça climática requer adotar uma ecologia dos saberes — ou seja, o reconhecimento de que não há uma única forma válida de conhecimento, e que as práticas ancestrais indígenas devem ocupar um lugar legítimo nos debates sobre o futuro do planeta (Santos, 2006).
No caso brasileiro, o governo federal anunciou a intenção de garantir maior protagonismo aos povos indígenas na COP 30, inclusive com a criação de uma “Casa dos Povos Indígenas” dentro da estrutura do evento (MPI, 2024). Contudo, ainda é preciso garantir que essas ações não sejam apenas gestos institucionais simbólicos, mas espaços reais de poder e decisão. Isso implica garantir autonomia nos espaços ocupados pelos povos originários, respeitar seus protocolos próprios e incorporar suas propostas como alternativas concretas ao modelo desenvolvimentista hegemônico.
Conforme demonstrado, integrar os povos indígenas de forma efetiva nas decisões políticas da COP 30 não é um gesto de inclusão simbólica, mas uma exigência de justiça histórica, ambiental e epistêmica. A Amazônia não pode ser apenas o cenário da conferência, mas o sujeito político do debate. Isso só será possível se rompermos com a colonialidade do saber e do poder, abrindo caminho para uma nova diplomacia climática, fundamentada no pluralismo, no respeito e na escuta profunda das vozes da floresta. Além do poder de fala, os povos originários precisam ter o poder de veto.
Referências
COP30. Kuntari Katu: a formação que leva a voz indígena para a COP30. 2025. Disponível em: https://cop30.br/pt-br/noticias-da-cop30-amazonia/kuntari-katu-a-formacao-que-leva-a-voz-indigena-para-a-cop30. Acesso em: 10 maio 2025.
KRENAK, A. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
MINISTÉRIO DOS POVOS INDÍGENAS – MPI. Chamamento para indígenas participarem como representantes diplomáticos na COP 30. 2024. Disponível em: https://www.gov.br/povosindigenas/pt-br/assuntos/noticias/2024/07/. Acesso em: 11 maio 2025.
PUCRS. Revista Ecologia de Saberes. 2024. Disponível em: https://www.pucrs.br/revista/ecologia-de-saberes/. Acesso em: 10 maio 2025.
QUIJANO, A. Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina. 2005. Disponível em: https://biblioteca.clacso.edu.ar/clacso/sur-sur/20100624103322/12_Quijano.pdf. Acesso em: 07 maio 2025.
SANTOS, B. de S. A crítica da razão indolente: contra o desperdício da experiência. São Paulo: Cortez, 2006.
TORRES, P. H. C. et al. Justiça climática e as estratégias de adaptação às mudanças climáticas no Brasil e em Portugal. 2022. Disponível em: https://pdfs.semanticscholar.org/f99b/b97325dabf9cab5f05a80daad82f87c85b5e.pdf. Acesso em: 10 maio 2025.
UNEP. Sônia Guajajara | Champions of the Earth. 2024. Disponível em: https://www.unep.org/championsofearth/pt-br/laureates/2024/sonia-guajajara. Acesso em: 10 maio 2025.
WALSH, C. Educação e interculturalidade crítica: uma análise da apropriação do pensamento de Catherine Walsh nas pesquisas brasileiras (2016–2020). 2020. Disponível em: https://repositorio.uel.br/srv-c0003-s01/api/core/bitstreams/a78e475e-f6f8-40b1-976c-078f19de669a/content. Acesso em: 18 maio 2025.
