
Caira Queiroz – acadêmica do 5° semestre de Relações Internacionais da UNAMA.
Com a escolha de Belém/PA como sede da 30ª Conferência das Partes das Nações Unidas sobre Mudança do Clima — COP 30, a cidade tornou-se palco não apenas de uma oportunidade ímpar para o Brasil liderar discussões globais sobre desenvolvimento sustentável, mas também de uma série de obras públicas que têm gerado controvérsias. Ao todo, são mais de 30 obras urbanas que, embora apresentadas como preparativos para o evento, vêm sendo questionadas por suas contradições e impactos sociais.
Intitulada pelos governantes como a “COP da Floresta”, a conferência é apresentada como uma chance de refletir sobre os desafios e paradoxos das políticas públicas voltadas ao desenvolvimento sustentável na região amazônica. No entanto, essa escolha também tem exposto dilemas significativos, especialmente no que diz respeito ao racismo ambiental presente nas obras públicas realizadas no Pará em preparação para a COP 30, bem como à consolidação do chamado capitalismo verde. Ambos os fenômenos tornam-se elementos centrais para uma análise crítica das políticas públicas e do modelo de desenvolvimento sustentável atualmente adotado no contexto da realização do evento na região.
Em Belém, por exemplo, o racismo ambiental vem se manifestando através de projetos urbanos da COP 30 que priorizam o embelezamento de áreas centrais e nobres, enquanto comunidades periféricas enfrentam exclusão e negligência. Exemplos disso incluem a especulação imobiliária e a gentrificação que afetam bairros como a Vila da Barca, contrastando com investimentos em regiões como a Doca. Essas práticas evidenciam uma distribuição desigual dos benefícios, impactando negativamente populações vulneráveis (TAKETA, 2025).
Paralelamente, o chamado capitalismo verde está intrinsecamente ligado às políticas públicas de governos e Estados da Amazônia, especialmente em iniciativas que buscam conciliar crescimento econômico com preservação ambiental, como é o caso do mercado de créditos de carbono (ALCÂNTARA, 2023).
No entanto, o avanço desse modelo na região e no Brasil levanta preocupações sobre a financeirização da natureza e a consequente marginalização de comunidades tradicionais. Projetos como o REDD+ (Redução de Emissão por Departamento e Degradação) e outras iniciativas de compensação de emissões têm sido alvo de críticas pela falta de transparência e por não garantirem benefícios concretos às populações locais (PEREIRA, 2023).
Dessa forma, as questões de Políticas Públicas e Desenvolvimento Sustentável e seus caminhos para a COP 30 se relacionam profundamente com a Teoria Decolonial das Relações Internacionais, de Aníbal Quijano, especialmente quando se analisa o racismo ambiental, a exclusão de comunidades tradicionais e a financeirização da natureza via capitalismo verde, existindo por meio de classificações. Seu conceito permite desnaturalizar as formas como o poder, o conhecimento e o ambiente são organizados nas políticas públicas atuais, revelando como a COP 30 pode estar sendo apropriada por uma lógica que reproduz desigualdades históricas e apaga os sujeitos amazônicos (Quijano, 2005).
Ou seja, no caso da Amazônia e da COP 30, vemos isso na forma como as políticas públicas priorizam modelos urbanos e econômicos centrados em lógicas eurocêntricas. O fato de obras públicas priorizarem áreas nobres, embelezamento urbano e turismo verde, enquanto comunidades marginalizadas continuam sem saneamento básico ou infraestrutura, é uma manifestação clara da colonialidade do poder racializada, em que vidas e territórios indígenas, negros e pobres continuam sendo considerados menos valiosos.
Portanto, o melhor caminho para a COP 30 seria transformar o evento em uma plataforma concreta de reconstrução das políticas públicas, que garantem saneamento básico, saúde ambiental, educação ambiental e moradia digna, antes de grandes obras estéticas voltadas somente ao turismo verde, e substituam projetos que tratam a floresta como “ativo de carbono” por políticas que valorizem o uso sustentável e o conhecimento tradicional, promovendo bioeconomias de base comunitária.
REFERÊNCIAS
ALCÂNTARA, Fernanda. Do “Capitalismo Verde” à transformação agroecológica: projetos em disputa na crise ambiental. MST, 2023. Disponível em: https://mst.org.br/2023/07/06/do-capitalismo-verde-a-transformacao-agroecologica-projetos-em-disputa-na-crise-ambiental/. Acesso em 23 de maio de 2025.
PEREIRA, Cláudia. Coletivo realizou formação popular sobre crédito de carbono. Conselho Indigenista Missionário – CIMI, 2023. Disponível em: https://cimi.org.br/2023/11/coletivo-realizou-formacao-popular-sobre-credito-de-carbono/. Acesso em 23 de maio de 2025.
QUIJANO, Aníbal. Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina. In: LANDER, Edgardo (org.). A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais, perspectivas latino-americanas. Buenos Aires: CLACSO – Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales, 2005. p. 119-120.
TAKETA, Brenda. Belém: O lado obscuro da COP30. Racismo Ambiental, 2025. Disponível em: https://racismoambiental.net.br/2025/04/30/belem-o-lado-obscuro-da-cop30/. Acesso em 23 de maio de 2025.
