Julia Castro, acadêmica do 7° semestre de Relações Internacionais

Ficha Técnica:

Ano: 2016

Diretor: Park Chan-Wook

Distribuição: CJ Entertainment

Gênero: Thriller

País de Origem: Coreia do Sul

Releitura do romance “Na Ponta Dos Dedos”, da escritora britânica Sarah Walters, e um dos filmes mais aclamados de 2016, “A Criada” narra o amor proibido entre duas mulheres, Sook-hee e Hideko, em meio a sociedade conservadora e rígida da década de 1930. Diferente do livro que é ambientado na Inglaterra Vitoriana, a adaptação é transferida para a República da Coreia sob a ocupação do Japão, na metade do século XX (G1, 2017). O longa-metragem é estruturado em três atos que revelam plot-twists surpreendentes, junto com uma atmosfera carregada de sentimentos. A intensa química entre as protagonistas permeia a trama e ascende de maneira sublime.

Durante a ocupação japonesa da Coreia, a jovem Sook-hee é contratada para ser criada de Hideko, uma herdeira que vive solitária ao lado de seu tio controlador. Sook-hee, no entanto, guarda um segredo: ela é cúmplice de Count Fujiwara, um vigarista, que a recruta para ajudá-lo a convencer Hideko a casar-se com ele e depois interná-la em um manicômio para ficar com a sua herança. Entretanto, o plano toma outros rumos quando a relação entre Sook-Hee e Hideko evolui de uma parceria de engano para um vínculo profundo e amoroso. Hideko, que cresceu sendo manipulada pelo tio para ler contos eróticos em bordéis para a elite, encontra em Sook-Hee uma aliada para se libertar da opressão de seu casamento e planeja uma vingança contra os homens que as oprimem (ZANATTA, 2018).

Por explorar temáticas de poder, classe, sexualidade, gênero e a opressão cultural, especialmente a submissão da Coreia ao domínio japonês, podemos analisar a obra a partir da Teoria Queer das Relações Internacionais. Segundo o profº Diego Santos (2014), a teoria “permite observar como Estados e nações são construções históricas que regulam as atividades sexuais a  fim de garantir a sua reprodução biológica e social. A sexualidade está na interseção com a etnicidade, nacionalização e redefinição de identidades estatais no nível internacional” (DE JESUS, 2014). A opressão vivida por Hideko, tanto por ser mulher quanto por estar sob domínio japonês, mostra como a teoria queer pode ser articulada com outras interseccionalidades, como raça e classe, para questionar todas as formas de dominação.

O relacionamento entre as personagens em meio a um contexto de opressão patriarcal e colonial subverte as normas de gênero e sexualidade que eram, muitas das vezes, impostas às moças da época. Judith Butler (2003), importante autora dos estudos sobre gênero nas RI, afirma que gênero e sexualidade são construções sociais performativas. A autora rejeita a ideia de que atos que identificam uma pessoa como uma mulher remetem a uma essência feminina. Na verdade, as forças sociais nos pressionam a nos comportarmos como homens ou mulheres (DE JESUS, 2014). A performatividade de gênero é explorada tanto nas ações quanto nos corpos das protagonistas. Sook-hee, inicialmente inserida em um papel de criada e cúmplice de um golpe, acaba subvertendo a lógica de dominação masculina ao se aliar a Hideko e, juntas, escaparem daquele ambiente. 

Em síntese, a obra cinematográfica celebra o amor e a resistência feminina de forma dramática e deslumbrante, oferecendo uma experiência cinematográfica rica e multifacetada, capaz de envolver o espectador tanto emocionalmente quanto intelectualmente. Sua abordagem poética convida o público a repensar normas fixas de identidade e gênero, ainda muito presentes no sistema internacional.

REFERÊNCIAS:

G1. Drama sul-coreano “A Criada” sustenta tensão entre erotismo e violência.  2017. Disponível em: https://g1.globo.com/pop-arte/cinema/noticia/drama-sul-coreano-a-criada-sustenta-tensao-entre-erotismo-e-violencia.ghtml. Acesso em: 17 jun. 2025.

SANTOS VIEIRA DE JESUS, D. O mundo fora do armário: Teoria Queer e Relações Internacionais. Revista Ártemis, [S. l.], v. 17, n. 1, 2014. Disponível em: https://periodicos.ufpb.br/index.php/artemis/article/view/18751. Acesso em: 16 jun. 2025.

ZANATTA, C. A Criada: sobre amor, sensualidade e a libertação – cinecríticauff – Medium. 2018. Disponível em: https://medium.com/cinecr%C3%ADtica/a-criada-sobre-amor-sensualidade-e-a-liberta%C3%A7%C3%A3o-6188747f6b19.  Acesso em: 16 jun. 2025.