Caira Queiroz – acadêmica do 5° semestre de Relações Internacionais da UNAMA.

O avanço das tecnologias baseadas em Inteligência Artificial (IA) tem transformado profundamente as práticas educacionais e os ambientes corporativos. Ferramentas como assistentes virtuais, plataformas de ensino adaptativo, mecanismos automatizados de correção e sistemas inteligentes de RH tornam-se cada vez mais comuns em escolas, universidades e empresas, alterando a forma como se ensina, se aprende e se trabalha (DI LORENZO; CAPOZZI, 2025).

Neste cenário, levanta-se o questionamento: a IA deve fazer parte do currículo escolar e dos ambientes corporativos? Surge, assim, a necessidade de analisar não apenas os impactos práticos dessas tecnologias, mas também os significados que estão sendo (re)construídos nas relações sociais, especialmente no que diz respeito às noções de ensinar, aprender e produzir conhecimento.

Embora a IA possa agilizar os fluxos de trabalho e aumentar a produtividade, o conhecimento passa a ser coproduzido com a máquina, e não apenas transmitido ou armazenado, o que pode criar uma lacuna cognitiva. Nesse contexto, os usuários tendem a perder a capacidade de verificar ou contestar os resultados gerados por essas ferramentas (FORBES, 2025). Isso exige uma nova postura crítica diante da tecnologia e redefine os conceitos de competência profissional e acadêmica.

Esse impacto silencioso, e potencialmente corrosivo, é descrito por alguns pesquisadores como IA degenerativa, termo que se refere à dependência excessiva de sistemas inteligentes, tornando os usuários passivos mentalmente e afetando sua capacidade de pensar, lembrar e raciocinar.

Segundo estudos de Harvard, “85% dos estudantes do ensino fundamental já não conseguem resolver divisões simples sem o auxílio da calculadora”. O levantamento alerta que esse risco se intensifica com o uso de sistemas mais sofisticados, como o ChatGPT, pois a eficiência promovida por essas ferramentas convive com desafios como a despersonalização dos processos de aprendizagem e o risco de dependência tecnológica (PARASKE, 2025).

Paralelamente, em artigo publicado no portal The Conversation, os especialistas Marcus Oliveira (UFRJ) e Renato Cordeiro (Fiocruz) destacam a urgência de o Brasil acompanhar os avanços e desafios do século XXI. Defendem que a universalização do ensino sobre IA é essencial, pois, sem isso, o domínio dessa tecnologia se restringirá a uma minoria, ampliando o abismo de oportunidades e aprofundando desigualdades sociais e educacionais (OLIVEIRA; CORDEIRO, 2025).

Em outro artigo, publicado pela USP, os autores destacam que o Brasil ainda se apresenta como um país atrasado em comparação com nações que já regulamentaram currículos voltados à inteligência artificial. O texto argumenta que, apesar das recomendações da Unesco, a desigualdade socioeconômica e a falta de acesso à tecnologia, como evidenciado durante a pandemia, continuam a impedir avanços significativos na educação digital (ALMEIDA et al., 2025).

No campo corporativo, estudos como o Guia Salarial 2025 da Robert Half apontam que 87% das empresas brasileiras incentivam o uso da IA generativa para tarefas rotineiras, com o objetivo de aumentar a produtividade. Em entrevista à Exame, o CEO do DOT Digital Group, Luiz Ferla, destaca que os colaboradores também precisam ser capacitados para utilizar essa tecnologia de forma eficaz, especialmente no uso adequado dos prompts, que são instruções dadas à IA. Para ele, priorizar investimentos em inovação é essencial para preparar os profissionais para os desafios do mercado, independentemente da área de atuação (EXAME, 2025).

Nesse sentido, a partir da lente construtivista das Relações Internacionais, Alexander Wendt (1999), argumenta que “a estrutura do sistema internacional é construída socialmente”. Em sua obra Social Theory of International Politics, Wendt defende que as identidades e interesses dos atores internacionais não são fixos, mas formados por meio de interações sociais.

Esse princípio pode ser transposto para o contexto da IA nos meios educacionais e corporativos: as tecnologias não impõem, por si, uma mudança objetiva, mas passam a produzir novos significados por meio da maneira como são usadas e percebidas pelas relações sociais.

Isso significa que os conceitos de “ensinar”, “aprender” ou “produzir” passam a depender da maneira como a IA é incorporada às rotinas institucionais (WENDT, 1999). Docentes, por exemplo, deixam de ser apenas transmissores de conteúdo e passam a atuar como mediadores de processos mediados por tecnologia. Da mesma forma, no ambiente corporativo, competências humanas como criatividade ganham novos contornos (uso dos prompets) diante da presença de algoritmos e automações.

Ou seja, a IA deve ser tratada como uma ferramenta para aprimorar capacidades humanas, e não como uma substituta direta dos sujeitos. Nesse sentido, a IA atua como um novo ator social, participando da construção dos significados do saber e sendo, também, influenciada pelas normas culturais, educacionais e institucionais nas quais está inserida.

Portanto, conclui-se que a incorporação crescente da IA nos contextos educacionais e corporativos não representa apenas uma revolução tecnológica. É, sobretudo, uma transformação cultural e simbólica que impacta profundamente a forma como ensinamos, aprendemos e trabalhamos. Os sentidos dessas práticas estão sendo socialmente reconstruídos pelas interações entre humanos e inteligências artificiais.

Mais do que adaptar-se tecnicamente às novas ferramentas, cabe às instituições refletirem criticamente sobre como desejam moldar essa realidade. Afinal, se as estruturas sociais são frutos de nossas interações e crenças compartilhadas, também somos responsáveis por definir que tipo de relação queremos estabelecer com as tecnologias que criamos. Diante do risco de dependência degenerativa, por um lado, e da exclusão social, por outro, o desafio está em encontrar um equilíbrio entre inovação tecnológica e valorização da especialização humana.

REFERÊNCIAS

ALMEIDA, Ana Paula; LOPES, Andreza G.; MARTINS, Maria Clara; LINS; Maria Regina. Competências para educar na era da IA e os desafios do contexto brasileiro. USP, 2025. Disponível em https://jornal.usp.br/artigos/competencias-para-educar-na-era-da-ia-e-os-desafios-do-contexto-brasileiro/. Acesso em 18 de junho de 2025.

DI LORENZO, Alessandro; CAPOZZI, Bruno. IA deve ser ensinada nas escolas brasileiras? Olhar Digital, 2025. Disponível em: https://olhardigital.com.br/2025/05/23/pro/ia-deve-ser-ensinada-nas-escolas-brasileiras/?utm_source=chatgpt.com. Acesso em 18 de junho de 2025.

EXAME. Como a IA pode ser utilizada na educação corporativa? Exame, 2025. Disponível em: https://exame.com/bussola/como-a-ia-pode-ser-utilizada-na-educacao-corporativa/. Acesso em 23 de junho de 2025.

FORBES TECH. Estudo Aponta Que a IA Está Reduzindo a Capacidade Cognitiva das Pessoas. Forbes, 2025. Disponível em https://forbes.com.br/forbes-tech/2025/01/estudo-aponta-que-a-ia-esta-reduzindo-a-capacidade-cognitiva-das-pessoas/. Acesso em 22 de junho de 2025.

PARASKE, Edu. IA degenerativa: o que não te contaram sobre inteligência artificial. CNN Brasil, 2024. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/tecnologia/ia-degenerativa-o-que-nao-te-contaram-sobre-inteligencia-artificial/. Acesso em 22 de junho de 2025.

OLIVEIRA, Marcus; CORDEIRO, Renato. A importância da Inteligência Artificial no ensino fundamental e médio. The Conversation, 2025. Disponível em: https://theconversation.com/a-importancia-da-inteligencia-artificial-no-ensino-fundamental-e-medio-255348. Acesso em 24 de junho de 2025.

Wendt, A. (1999). Social Theory of International Politics. Cambridge University Press.