
Caio Farias
Lara Lima
Marcelo Alves
A consolidação dos BRICS+ como uma coalizão ampliada de países emergentes representa uma mudança significativa na geoeconomia atual, ao desafiar as estruturas de governança global dominadas por potências ocidentais. O grupo se afirma como um ator estratégico na construção de uma ordem internacional multipolar, fortalecendo a articulação política, econômica e diplomática do Sul Global (Relações Exteriores, 2024).
Neste contexto, a intensificação da cooperação entre seus membros em áreas estratégicas como energia, tecnologia, comércio e financiamento não apenas evidencia uma tentativa concreta de redistribuir os centros de poder global, como também busca reposicionar o Sul Global como protagonista nos processos decisórios que moldam as estruturas do sistema internacional contemporâneo.
O BRICS, formado por Brasil, Rússia, Índia e China, incorporou a África do Sul em 2011, consolidando cinco membros permanentes. Em 2024, o grupo lançou o formato BRICS+, incluindo seis países como membros associados: Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia e Irã. A expansão ampliou a cooperação sem modificar a composição original do bloco, que segue com os cinco fundadores como núcleo central.
Ainda em 2024, durante a XVI Cúpula de Kazan, na Rússia, e conforme o mandato da Declaração de Joanesburgo, foi instituída a categoria de países parceiros dos BRICS (BRICS, 2025). Integram essa categoria Belarus, Bolívia, Cazaquistão, Cuba, Malásia, Nigéria, Tailândia, Uganda, Uzbequistão e, mais recentemente, o Vietnã.
A força do grupo de países em desenvolvimento, tem residido na diversidade de seus membros e parceiros, que representam múltiplos continentes, culturas e sistemas econômicos distintos, e já possuí mais de 40% da população mundial, o que garante um peso demográfico expressivo nas dinâmicas internacionais, conforme Abdala (2025).
Essa grande população, aliada à diversidade econômica e regional, se torna uma força significativa no comércio e na produção global do bloco. Além disso, muitos países possuem um papel de grande estratégia na oferta de recursos essenciais, como energia, alimentos e minerais, colocando-os em uma posição vantajosa frente aos mercados globais.
Figura 01: Participação do BRICS no mundo em indicadores selecionados.

Fonte: Agência Brasil (2025).
De acordo com a Agência Brasil (2025), os países do BRICS+ respondem por 26% do comércio global e concentram grande parte dos recursos estratégicos: 44% das reservas de petróleo, 53% das de gás natural, 72% das terras raras e 70% da produção mundial de carvão mineral, produzindo 43% do petróleo e 35% do gás consumido no mundo.
Além disso, destacam-se por suas reservas hídricas, com Rússia e Brasil entre os principais detentores de água doce, e por sua contribuição para a segurança alimentar global, sendo responsáveis por 42% da produção mundial de alimentos (Mustafa, 2025). O bloco ainda inclui três potências nucleares, Rússia, China e Índia, reforçando sua importância geoeconômica e geopolítica.
Henry Kissinger, no memorando NSSM 200 (1974), destacou a importância estratégica dos recursos naturais, afirmando que o controle do petróleo permite dominar nações, enquanto o domínio dos alimentos garante influência sobre as populações. Essa perspectiva evidencia como energia e alimentos são usados como ferramentas de poder global. Nesse cenário, a mobilização dos países emergentes ganha relevância devido à sua grande riqueza em recursos naturais.
O especialista em Economia Política Internacional e Internacionalista, Rodrigo Cezar, ressalta que as diferenças internas entre os membros do BRICS+ representam tanto desafios quanto oportunidades (Souto, 2025). Por exemplo, países como Brasil e Índia, que estão mais afastados das principais áreas de instabilidade, têm se beneficiado do desvio de comércio global, impulsionando setores estratégicos como o agronegócio brasileiro, que registrou crescimento expressivo nas exportações de grãos nos últimos anos.
Por outro lado, Cezar, destaca que os países do grupo que estão diretamente envolvidos em tensões geopolíticas enfrentam a necessidade de políticas fiscais mais intensas para conter fontes internas de instabilidade. Esses Estados tendem a aumentar investimentos em infraestrutura e indústria, o que pode impulsionar o crescimento econômico mesmo diante de um cenário global marcado por conflitos, disputas comerciais e guerras tarifárias, conforme Souto (2025).
Essa dinâmica evidencia a complexidade do grupo, que precisa conciliar, ao mesmo tempo, desafios internos e pressões externas; o que, paradoxalmente, reforça sua relevância estratégica em um cenário internacional marcado por crescente volatilidade.
Figura 02: Crescimento do PIB (%) e participação no PIB global por PPC (%) – 2024 e 2025.

Fonte: FMI, conforme publicado em Agência Gov (2025).
As projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI), para o BRICS+, agora em 2025, indicam que as economias terão crescimentos expressivos. A Etiópia lidera com uma estimativa de 6,6%, seguida por Índia (6,2%), Indonésia (4,7%), Emirados Árabes Unidos (4%), e China (4%). Esses dados mostram que, mesmo em um cenário global desafiador, o bloco é impulsionado por países com elevado dinamismo econômico.
A participação individual dos países do BRICS+ no mercado internacional tem se destacado. A China representa 19,6% da economia global, seguida por Índia (8,5%), Rússia (3,5%), Indonésia (2,4%) e Brasil (2,4%), evidenciando o peso econômico de cada país e a força coletiva do grupo frente a blocos como o G7.
Segundo o relatório Perspectivas Econômicas Mundiais do FMI (abril de 2025), o BRICS+ deve crescer, em média, 3,4% em 2025, superando a média global projetada de 2,8%, o que demonstra o dinamismo econômico do bloco, com desempenho acima da tendência mundial.
Em 2024, os países emergentes do BRICS+ já haviam registrado crescimento médio de 4%, acima da média global de 3,3%. De acordo com o FMI, representaram 40% da economia mundial com base na Paridade do Poder de Compra (PPC), e a previsão para 2025 é de 41%, confirmando o fortalecimento dessas economias.
O BRICS+ tem apresentado desempenho econômico superior ao dos países desenvolvidos. Em 2024, registrou um crescimento médio do PIB de 4%, com previsão de 3,4% para 2025, enquanto o G7 obteve 1,7% e estima apenas 1,2%. O bloco também já supera o G7 em participação na economia global, concentrando cerca de 40% do PIB mundial, contra 28% do grupo desenvolvido, reforçando seu papel como potência econômica em ascensão.
Nesse contexto, o Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), atualmente presidido pela brasileira Dilma Rousseff, emerge como um dos pilares mais concretos da nova geoeconomia promovida pelo grupo (BRICS, 2025). Ao financiar projetos de infraestrutura e desenvolvimento sustentável nos países membros e parceiros, o banco fortalece a cooperação Sul-Sul.
Apesar de seu peso geoeconômico e simbólico, o BRICS+ enfrenta críticas quanto à sua coesão e efetividade. Segundo Pedro Dallari, diretor do Instituto de Relações Internacionais da USP, o grupo funciona mais como um espaço de concertação política voltado ao fortalecimento do multilateralismo do que como um bloco com ações econômicas concretas (Agência Brasil, 2025). Ele destaca que há pouca convergência entre os membros em temas centrais da agenda global, como mudanças climáticas, pandemias e conflitos internacionais.
Para Marta Fernández, diretora do BRICS Policy Center, o agrupamento tem se afirmado como uma das principais vozes do Sul Global, especialmente após a criação do Novo Banco de Desenvolvimento, que representa um passo relevante na construção de modelos alternativos de financiamento e governança internacional (Agência Brasil, 2025).
No entanto, o êxito do BRICS+ dependerá de sua capacidade de superar as divergências internas e construir uma governança multilateral ancorada em princípios de equidade, respeito à soberania e cooperação horizontal.
Em suma, a ascensão do BRICS+ como um agente transformador no sistema internacional, atende a diferentes âmbitos, assim como econômicos, energéticos, político e entres outros. Ademais, presenciando a entrada de diferentes membros, agrega para si uma representatividade do hemisfério Sul em contraste ao Norte-Global. Destarte, sendo a principal organização multipolar, representando importância da cooperação Sul-sul, obtém consigo uma força relevante para garantir a reconfiguração da ordem global.
REFERÊNCIAS:
ABDALA, Vitor. BRICS tem mais de 40% da população e 37% do PIB mundiais. Agência Brasil, 12 dez. 2024. Disponível em: <https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2024-12/brics-tem-mais-de-40-da-populacao-e-37-do-pib-mundiais-0>. Acesso em: 26 jun. 2025.
AGÊNCIA BRASIL. Brics: grupo concentra 37% do PIB mundial. Publicado em: 02 jan. 2025. Disponível em: < https://anba.com.br/brics-grupo-concentra-37-do-pib-mundial/>. Acesso em: 25 jun. 2025.
AGÊNCIA GOV. PIB do BRICS segue superior à média mundial e representa 40% da economia. Publicado em: 27 maio 2025. Disponível em: < https://agenciagov.ebc.com.br/noticias/202505/pib-do-brics-segue-superior-a-media-mundial-e-representa-40-da-economia>. Acesso em: 26 jun. 2025.
BRICS BRASIL. Sobre o BRICS. BRICS.br. Publicado em: 13 jun. 2025. Disponível em: <brics.br/pt-br/noticias/vietna-torna-se-pais-parceiro-do-brics>. Acesso em: 27 jun. 2025.
BRASIL. BRICS Brasil. Banco do BRICS: saiba como funciona o braço financeiro que impulsiona economias em desenvolvimento. Publicado em 7 mar. 2025. Disponível em: <https://share.google/KVxH2IU5OgFAZ6FtQ>. Acesso em: 28 jun. 2025.
CARLOS, Luiz. Memorando 200: o relatório Kissinger para a redução da população mundial, ou: os neomalthusianos mostram as garras – Memorando de Estudo de Segurança Nacional NSSM 200: implicações do crescimento populacional mundial para a segurança dos EUA e interesses estrangeiros – O relatório Kissinger. Academia.edu. Publicado em 2024. Disponível em: <https://www.academia.edu/104464926/>. Acesso em: 28 jun. 2025.
MUSTAFA, Inez Helena Soares. BRICS compartilha soluções para promover a segurança alimentar global. BRICS Brasil. Publicado em: 10 abr. 2025. Disponível em: <https://brics.br/pt-br/noticias/brics-compartilha-solucoes-para-promover-a-seguranca-alimentar-global>. Acesso em: 28 jun. 2025.
RELAÇÕES EXTERIORES. Os BRICS Estão Desafiando a Ordem Internacional Liderada pelos EUA?. Publicado em: 20 nov. 2024. Disponível em: <https://relacoesexteriores.com.br/os-brics-estao-desafiando-a-ordem-internacional-liderada-pelos-eua/>. Acesso em: 25 jun. 2025.
