
Maria Eduarda, Acadêmica do 2° semestre de Relações Internacionais.
Thaís Carvalho, Acadêmica do 8° semestre de Relações Internacionais.
Ficha Técnica:
Ano: 2006
Gênero: Drama
Diretor: Karim Aïnouz
Distribuição: Netflix/GloboPlay
País de Origem: Brasil
“O Céu de Suely” (2006), dirigido por Karim Aïnouz, apresenta por meio de uma narrativa intimista um retrato sensível da realidade de muitos brasileiros esquecidos às margens do país. Ambientado na pequena cidade de Iguatu, no sertão nordestino, o filme acompanha a trajetória de Hermila, uma jovem mãe que é obrigada a retornar a sua cidade natal em busca de recomeços. Entretanto, a protagonista se vê confrontada com as limitações sociais, econômicas e morais que restringem seus sonhos, criando um contraste entre o desejo de partir e a realidade da obrigação de ficar (Sazá, 2022).
Insatisfeita com a vida limitada a uma existência apenas de sobrevivência, Hermila decide tomar uma atitude radical para tentar mudar sua realidade: rifar o próprio corpo, oferecendo “uma noite no paraíso” como premiação. Neste momento, Hermila se reinventa ao criar uma nova identidade com o pseudônimo de “Suely”, transformando sua frustração em uma resistência silenciosa diante da tentativa de retomar o controle de sua própria vida. Sua escolha é transgressora mas evidência a falta de opções para mulheres em espaços de vulnerabilidade, demonstrando como a criação de Suely é um símbolo de autonomia mas ao mesmo tempo uma atitude desesperada que nasce através do desamparado social.
A decisão peculiar da protagonista causa incômodo na cidade, refletindo a hipocrisia de uma sociedade que recorre a desmoralização da mulher por decidir o que fazer com seu próprio corpo mas que, simultaneamente, deseja e objetifica aquilo que desafia seus valores morais. Ao provocar essa ordem estabelecida, Hermila reafirma sua liberdade como mulher, mas se torna alvo de comentários maliciosos, julgamentos e olhares invasivos, expondo de forma sensível mas impactante a naturalização do machismo em ambientes marcados pela desigualdade e pelo conservadorismo.
Dessa forma, o longa-metragem pode ser analisado a partir das lentes da teoria feminista das Relações Internacionais (RI), vertente que busca ampliar a compreensão das dinâmicas das relações de gênero na economia, na política e na familía, demonstrando como são moldados e modificados por processos externos à sociedade (Halliday, 2007; apud Castro, 2012, p. 405). Assim, a perspectiva feminista propõe uma crítica à estrutura tradicional das RI, revelando uma reorientação da área, ao observar não só o comportamento entre os Estados, mas também a relação entre Estado e sociedade.
Nesse sentido, a teórica feminista das relações internacionais, Cynthia Enloe, em sua obra “Bananas, Beaches and Bases: Making Feminist Sense of International Politics” (2014), traz uma análise de como o corpo feminino é instrumentalizado dentro dos processos políticos e econômicos globais. Desse modo, a autora aborda como empregadas domésticas, esposas de diplomatas ou prostitutas em bases militares, desempenham papéis essenciais nas dinâmicas existentes nas RI, embora sejam frequentemente invisibilizadas pelos estudos tradicionais. Dessa forma, tal instrumentalização do corpo feminino apenas evidencia a persistência de lógicas patriarcais e coloniais que dominam a área de estudo.
Assim, percebe-se a proximidade das ideias de marginalização da figura feminina em uma sociedade patriarcal e colonial, abordadas por Enloe (2014), com a decisão de Suely em rifar seu corpo, demonstrando assim que tal ação não se caracteriza apenas como um gesto pessoal, mas mostra como muitas mulheres em situação de vulnerabilidade social são forçadas a negociar em meio a estruturas sociais opressoras para sobreviver.
Por fim, “O Céu de Suely” carrega uma sensibilidade e poder para às relações internacionais ao abordar de forma crítica e sensível a figura feminina diante de temáticas como controle social, desigualdade de gênero e marginalização da mulher, tópicos estes que perpassam os estudos sobre o âmbito doméstico e alcançam debates no cenário internacional.
REFERÊNCIAS:
CASTRO, Thales. Teoria das relações internacionais. Brasília: FUNAG, 2012.
ENLOE, Cynthia. Bananas, Beaches and Bases: Making Feminist Sense of International Politics. 2. ed. 2014. Berkeley: University of California Press.
SAZÁ, Heto. “O Céu de Suely: o sensível também é possível”. Letras In.Verso e Re.Verso. 2022. Disponível em: https://www.blogletras.com/2022/07/o-ceu-de-suely-o-sensivel-tambem-e.html Acesso em: 30 Jun 2025.
