Thais Vitória Borges – Internacionalista formada pela UNAMA

O terceiro debate das Relações Internacionais, também chamado de “inter-paradigmático” foi responsável por uma mudança da produção intelectual dentro deste campo de saber, se tratou de um momento de expansão de pontos de vistas e temáticas ainda pouco exploradas dentro da disciplina, acrescentaram-se aos debates já existentes nas RI indagações advindas do construtivismo, pós-modernismo e pós-colonialismo. 

Nesse sentido, cabendo o enfoque no pensamento pós-colonial, este pode ser compreendido como um conjunto de teorias das Ciências Humanas e Sociais que possuem como objeto de estudo as relações de poder entre o colonizador e o colonizado (De Oliveira, 2017, p. 164). Parte-se da prerrogativa que a desigualdade entre estes tem origem no colonialismo e imperialismo europeu, na dominação das metrópoles, na violência e na exploração de mão de obra escrava e colonizada; mas não apenas, como também na visão que foi cristalizada de perceber o Ocidente como sujeito único da história e da invenção do Oriente pelo Ocidente (Ibid. 2017, p. 164).

É importante ressaltar que o pós-colonialismo explora as consequências sociais, culturais, políticas e econômicas acarretadas pelas diversas colonizações, mas também se apresenta como uma via de resistência, transcendência e superação daqueles que estiveram em posição de subalternidade, em outras palavras, um caminho para a descolonização (Wilkens, 2017). Tendo isso em vista, dentro das RI, Aníbal Quijano se estabelece como uma das figuras centrais para os estudos pós-coloniais voltados para o contexto da América Latina.

Nascido em 1930 em Yungay no Peru, o cientista social foi membro-fundador do grupo “Modernidade/Colonialidade – M/C”, este que era formado em sua maioria por intelectuais latino-americanos, e se voltava para a defesa de uma construção alternativa à modernidade eurocêntrica (Barbosa, 2014, p. 03). Quijano tinha como um de seus objetos de estudo a busca pelo entendimento da formação da modernidade. Utilizando de uma investigação histórica de formação do capitalismo como base do colonialismo e sua propagação pelo mundo com a globalização no século XXI (Azevedo, 2018). 

Uma de suas principais contribuições para o pensamento social latino-americano é o conceito de “colonialidade do poder” que, é desenvolvido no artigo “Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina” (2005). Em resumo, este conceito se refere à persistência dos padrões coloniais de dominação na modernidade que, se expressam nas relações de poder, no saber e identidade. Colonialidade é um conceito desenvolvido pelo autor a partir de reflexões da teoria da dependência que possibilitou a observação de que as relações entre o centro e a periferia não se apresentavam apenas nos setores econômicos e políticos, mas se estendiam também na construção do conhecimento (Bragato, 2014, p. 212).

Quijano dialoga que um dos eixos principais desse padrão de poder é a classificação social da população mundial de acordo com a noção de raça que o cientista social interpreta como uma construção mental que permeia as esferas mais importantes do poder mundial, incluindo a racionalidade do eurocentrismo (Quijano, 2005, p. 117). O autor aponta que a ideia de raça não possui histórica conhecida antes da América, e foi utilizada para diferenciar aqueles que eram os conquistadores dos conquistados, não apenas, essa noção de raça partia da lógica de uma suposta distinção de estruturas biológicas que colocava uns em situação natural de inferioridade em relação a outros; e este pensamento se tornou o principal elemento constitutivo das relações de dominação da colonização (Ibid, 2005, p. 117). 

O cientista social discorre que foi o estabelecimento das relações sociais fundamentadas na raça que produziu na América uma série de identidades sociais até então novas (indígenas, negros, mestiços), redefiniu algumas, como o espanhol e português que mais tarde se tornaram também europeus, e apagaram outras (como os astecas, maias, iorubas e zulus, que passaram a ser conhecidos como indígenas ou negros), adquirindo, portanto, uma nova conotação social (Ibid, 2005, p. 117). 

Vale destacar também que à medida que estas relações baseadas na raça iam se configurando – em um contexto de dominação e colonização –, as identidades sociais foram associadas a hierarquias, lugares e representações sociais, como consequência deste movimento se impunha também um padrão de dominação. 

Nesse sentido, Quijano afirmou que a raça e a identidade racial foram determinadas como mecanismos de classificação social básica da população, e na realidade da América, foi uma maneira de conferir legitimidade às relações de dominação que foram ditadas pela conquista. Mais tarde, esses mecanismos foram inseridos na estrutura global de controle do trabalho em uma vinculação de reforço mútuo, como resultado, se estabeleceu uma sistemática divisão racial do trabalho, na qual cada forma de controle do trabalho foi articulada com uma raça particular (Ibid, 2005, p. 118). 

No que tange ao caso da América do Sul, o autor discorre que nesta ocorreu uma relação de dependência histórico estrutural que resultou em uma subordinação econômica destes (Barbosa, 2014, p. 13). Também, Quijano aponta que o processo de independência dos Estados da América Latina sem a descolonização não foi um processo que rumou ao desenvolvimento de Estados-nação modernos, mas sim que se tratou de uma rearticulação da colonialidade do poder sobre novas bases institucionais, afirmando que há quase 200 anos os Estados Americanos permanecem da busca por alcançar uma nacionalização plena de suas sociedades, denunciando portanto que a colonialidade do poder ainda exerce seu domínio na América Latina contra a democracia, cidadania e Estado-nação moderno (Quijano, 2005, p. 135-136).

A expansão que se deu na área das RI a partir do debate “inter-paradigmático” abriu o campo para saberes e para a produção científica que estavam de fora dos conhecimentos e teorias hegemônicas. Nesse panorama, os estudos Pós-Coloniais nascem não apenas das indagações resultantes dos mais variados contextos de colonização e dominação que ocorreram ao redor do globo, mas também como uma perspectiva que objetiva também a superação destas consequências. Nesse viés, Aníbal Quijano representa essa produção científica própria do continente Americano e para ele, em sua busca por investigar como também por transgredir e se auto-determinar. 

REFERÊNCIAS

AZEVEDO, Wagner Fernandes de. O legado de Aníbal Quijano para o pensamento latino-americano descolonizado. Instituto Humanitas Unisinos – IHU, 07 jun. 2018. Disponível em: https://www.ihu.unisinos.br/categorias/188-noticias-2018/579677-o-legado-de-anibal-quijano-para-o-pensamento-latino-americano-descolonizado. Acesso em: 25 jul. 2025.

BARBOSA, Regiane R.; MASO, Techela F. Possíveis contribuições de Aníbal Quijano para as relações internacionais. ENEPEX–encontro de ensino, pesquisa e extensão, 8 O ENEPE, 2014.

BRAGATO, Fernanda Frizzo. Para além do discurso eurocêntrico dos direitos humanos: contribuições da descolonialidade. Revista novos estudos jurídicos, v. 19, n. 1, p. 201-230, 2014.

QUIJANO, Aníbal. Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina1. A Colonialidade do Saber: etnocentrismo e ciências sociais–Perspectivas Latinoamericanas. Buenos Aires: Clacso, p. 107-126, 2005.

WILKENS, Jan. Postcolonialism in international relations. In: Oxford Research Encyclopedia of International Studies. 2017.