
Keity Silva de Oliveira (Internacionalista formada pela UNAMA)
Ficha Técnica:
Ano: 2021
Direção: Mike White
Gênero: Comédia dramática, Tragicomédia e Sátira
Distribuição: HBO Max
País de Origem: Estados Unidos
Nos últimos anos, a televisão tem voltado seus holofotes de forma cada vez mais intensa para o universo dos super-ricos, seja por meio de reality shows que acompanham o cotidiano extravagante de celebridades, como Keeping Up With The Kardashians, ou por meio de produções de ficção aclamadas, como Succession, que mergulham nas disputas e contradições da elite econômica.
Neste cenário, The White Lotus se destaca como uma antologia que combina crítica social e entretenimento sofisticado, ambientando suas tramas em resorts de luxo espalhados por destinos paradisíacos, como Havaí, nos Estados Unidos ou a Sicília, na Itália (Hessel, 2021). Diante disso, o criador, roteirista e showrunner Mike White apresenta hóspedes ricos e funcionários que irão conviver ao longo de uma semana em eventos que provocam reflexões ácidas sobre poder, desigualdade e comportamento humano.
A produção, original da HBO Max, estreou em 11 de julho de 2021 e acompanha os personagens durante uma semana passada em uma rede fictícia de hotéis resort de luxo global chamada “The White Lotus”. Cada temporada apresenta um elenco e uma ambientação diferente com a primeira temporada filmada e ambientada no Havaí, a segunda na Sicília e a terceira na Tailândia.
Na primeira temporada, o enredo gira em torno de diferentes núcleos: a família Mossbacher, liderada pela bem-sucedida executiva Nicole; o jovem casal Rachel e Shane em lua de mel; e Tanya, uma mulher emocionalmente instável em busca de um novo propósito após a morte da mãe. Todos são servidos por funcionários liderados pelo gerente Armond, que vive um arco dramático e cômico ao mesmo tempo, o que culmina em momentos imprevisíveis e chocantes ao longo dos seis episódios.
A força da série está em sua habilidade de fazer comédia e crítica ao mesmo tempo, equilibrando diálogos ácidos, atuações marcantes e uma trilha sonora inquietante. Os personagens não são exatamente “gostáveis”, mas fascinantes em sua complexidade e contradições, o que torna a experiência tão envolvente. O contraste entre o luxo aparente e as tensões subterrâneas cria um retrato perturbador e ao mesmo tempo sedutor sobre a elite econômica para os telespectadores, conforme explica Rodrigo (2023).
Nessa perspectiva, o Construtivismo é uma das abordagens teóricas no campo das Relações Internacionais, a qual, diz que o mundo material é formado pela ação e pela interação humana, ou seja, depende de interações normativas e epistêmicas. Dessa maneira, a teoria construtivista se interessa em entender de que forma os mundos material, subjetivo e intersubjetivo interagem na construção social da realidade, formando assim, a sua premissa básica de que a vida é socialmente construída e, portanto, é produto de ideias, concepções, relações, escolhas e ações, conforme afirmam Nogueira e Messari (2005).
Diante disso, o autor construtivista Alexander Wendt, na obra “Social Theory of International Politics” (1999), discorre sobre as concepções construtivistas acerca dos conceitos de identidades e interesses, bem como sua relação e a maneira como vão impactar o caráter do sistema. Conforme o autor, as identidades podem ser definidas como “uma propriedade de atores internacionais que gera disposições motivacionais e comportamentais” (Wendt, 1999, p. 224, tradução nossa), ou, de outro modo, a concepção que os atores possuem de si e que irá influenciar na maneira como irão agir.
Além disso, conforme explica Wendt (1999), a anarquia é o que os Estados fazem dela, ou seja, não é a estrutura em si que determina o comportamento dos atores, mas sim suas interações e significados compartilhados. Em The White Lotus, o resort representa muito mais do um espaço físico de lazer: ele é um símbolo das hierarquias sociais. Os hóspedes – brancos, ricos, em sua maioria ocidentais – ocupam posições de privilégio construídas historicamente por sistemas de dominação colonial, econômica e cultural. Já os funcionários, especialmente os havaianos, ocupam papéis de subordinação que refletem um tipo de “ordem internacional” implícita entre o centro e a periferia.
Os diferentes núcleos de personagens estão constantemente performando papéis que acreditam ser esperados deles. Rachel, por exemplo, tenta se encaixar no papel da esposa perfeita, mas começa a questionar o que isso significa. Armond, o gerente do hotel, interpreta a figura do servo cordial, até que o peso de manter essa identidade imposta o leva à destruição. A série demonstra como as identidades são performadas dentro de nomas sociais que parecem “naturais”, mas são, na realidade, construções sociais – um ponto central do construtivismo.
Como outro exemplo, na abertura da série, os hóspedes chegam ao resort e são recepcionados com colares de flores e sorrisos forçados pelos funcionários. Essa cena representa a encenação de papéis sociais profundamente enraizados: o turista local, ocidental e branco como o “dono do espaço”, enquanto o funcionário, nativo, subalterno, é o “serviçal”. Por ser uma estrutura social já posta e reproduzida por normas internalizadas, ninguém questiona essa dinâmica porque ela foi naturalizada, como se “fosse sempre assim”.
A relação entre hóspedes e funcionários também espelha a lógica de exclusão e diferenciação que também estrutura as relações internacionais. O “outro”, nesse caso, os nativos havaianos e os empregados do resort, é tratado como pano de fundo para a experiência de conforto do “eu”, representado pelos hóspedes. Como exemplo, têm-se a personagem Tanya que promete financiar um negócio para Belinda, uma massagista local. Ao longo dos episódios, Tanya se aproveita da atenção e cuidado de Belinda, no entanto, quando a realidade se impõe, ela descarta a promessa com indiferença. A relação, embora pareça íntima, é assimétrica e moldada pela estrutura social que exemplifica a lógica.
Para Wendt, a estrutura internacional (ou social) pode mudar se os atores mudarem suas práticas e interpretações. Na série, porém, observa-se como essa mudança é difícil, ainda que exista momentos de ruptura e conflito que a tornam possível, especialmente através de personagens como Armond, tido como “funcionário ideal”, identidade que é socialmente construída, mas insustentável diante da pressão constante.
Portanto, The White Lotus pode ser interpretada como uma representação simbólica das dinâmicas globais de poder, identidade e normatividade. A série mostra que os papéis sociais – quem serve e quem é servido, quem pertence e quem é excluído – são construídos por normas históricas e culturais que moldam não apenas a convivência num resort de luxo, mas também as estruturas de uma sociedade profundamente desigual. Ao expor essas tensões com ironia e crítica, a obra convida seus telespectadores a refletirem sobre como essas estruturas se reproduzem em escalas muito maiores do que aparentam.
REFERÊNCIAS
HESSEL, Marcelo. Sátira de The White Lotus pinta o privilégio branco como um ciclo sem fim. Omelete. Publicado em: 16 de agosto de 2021. Disponível em: < https://www.omelete.com.br/series-tv/criticas/white-lotus-serie-hbo-critica > Acesso em: 28 de julho de 2025.
NOGUEIRA, João Pontes & MESSARI, Nizar. Teoria das Relações Internacionais: correntes e debates. RJ: Elsevier, 2005.
RODRIGO, Matheus. Por que você deve assistir The White Lotus, sensação da HBO Max. Jovem Nerd. Publicado em: 14 de janeiro de 2023. Disponível em: < https://jovemnerd.com.br/noticias/series-e-tv/the-white-lotus-por-que-assistir > Acesso em: 28 de julho de 2025.
WENDT, Alexander. Social Theory of International Politics. Cambridge: Cambridge University Press, 1999.
