
Caio Farias – 6° Semestre
Lara Lima – Internacionalista
Marcelo Alves – 6° Semestre
A intensificação das mudanças climáticas e o esgotamento dos recursos naturais destacam a necessidade de transformar os atuais modelos de desenvolvimento. Com isso, a substituição de fontes fósseis de energia, como petróleo, carvão e gás, por fontes renováveis e de baixo carbono tornou-se um pilar central nas discussões internacionais, propondo um novo modelo de desenvolvimento que promova o crescimento econômico aliado à conservação dos recursos ambientais e à inclusão social (Távora, 2012).
Entretanto, a implementação dessas transformações enfrenta desafios complexos, pois envolve uma reestruturação profunda dos sistemas produtivos com barreiras tecnológicas, econômicas e políticas, relacionando questões como desigualdade no acesso a tecnologias que promovam essa transição, altos custos de investimento e a resistência de setores dependentes de combustíveis fósseis.
A transição energética, entendida como o processo de substituição gradual das fontes fósseis por fontes renováveis e sustentáveis, é fundamental para o enfrentamento da crise climática global. No entanto, esse processo é particularmente desafiador quando observamos as desigualdades entre países centrais e periféricos.
As nações em desenvolvimento, muitas vezes ainda dependentes de um modelo econômico baseado no extrativismo, enfrentam limitações significativas, como menor capacidade de investimento em inovação tecnológica e infraestrutura. Esses obstáculos estruturais dificultam a implementação de políticas de transição energética alinhadas às metas climáticas internacionais, agravando as desigualdades na ação climática global (Távora, 2012).
Um dos desafios centrais para a transição sustentável está relacionado ao acesso desigual a tecnologias limpas e à insuficiência de financiamento climático. Embora tanto a Agenda 2030 quanto o Acordo de Paris incentivem mecanismos de cooperação internacional voltados à mitigação e à adaptação, o volume de recursos efetivamente direcionados ao Sul Global permanece muito aquém do necessário, considerando a magnitude e a complexidade dos desafios enfrentados por essas nações (Montalvão, 2025).
Além disso, os elevados custos de implantação de infraestrutura e de adaptação das matrizes energéticas representam barreiras significativas para a consolidação de uma economia verde nesses contextos. Tal cenário contribui para a manutenção de um ciclo de dependência dos combustíveis fósseis, que não apenas limita o avanço rumo a uma economia de baixo carbono, mas também perpetua a desigualdade ambiental e reforça as assimetrias estruturais na ordem global.
Nesse contexto, a economia verde surge como um caminho promissor para repensar o modelo de desenvolvimento global. O termo ganhou destaque internacional durante a Conferência Rio+20 e refere-se a estratégias capazes de promover o bem-estar das populações e a justiça social, reduzindo, de forma significativa, os impactos ambientais e a pressão sobre os recursos naturais (United Nations, 2011). Ao integrar objetivos econômicos, sociais e ambientais, esse modelo busca conciliar crescimento e sustentabilidade, criando condições para um futuro mais equilibrado.
Sob essa ótica, a economia verde luta por um crescimento econômico com a preservação ambiental, incentivando áreas como a geração de energia renovável, a agricultura sustentável, a mobilidade de baixa emissão e a eficiência no uso dos recursos. Para que esse modelo produza resultados concretos, é essencial impedir que iniciativas ambientais se limitem ao chamado greenwashing, quando ações são apresentadas como sustentáveis sem mudanças estruturais efetivas, e assegurar que as políticas públicas promovam inclusão social e territorial, garantindo que a transição beneficie toda a sociedade.
Outro entrave significativo é a resistência de setores econômicos tradicionais, especialmente aqueles altamente poluentes, como as indústrias de petróleo, mineração e transporte. Essas empresas costumam exercer forte influência política, dificultando a implementação de medidas regulatórias e favorecendo a manutenção do status quo, ou seja, a preservação do cenário atual. Essa resistência se manifesta, por exemplo, na morosidade para eliminar subsídios aos combustíveis fósseis e na ausência de incentivos consistentes à inovação verde.
Além disso, a transição energética também impõe desafios sociais. A substituição de fontes fósseis por alternativas mais sustentáveis pode acarretar a redução de posto de trabalho em determinados setores, exigindo a adoção de políticas públicas eficazes de requalificação profissional e inclusão produtiva (Dias, 2025). Essas medidas são essenciais para garantir que a transformação do modelo energético ocorra de forma justa e equilibrada, minimizando impactos negativos sobre os trabalhadores e comunidades afetadas.
O relatório “Fostering Effective Energy Transition 2025”, elaborado pela Accenture para o Fórum Econômico Mundial, avaliou o desempenho energético de 118 países com base em três pilares: segurança, sustentabilidade e equidade. A análise também considerou cinco fatores-chave: compromisso político, financiamento e investimento, inovação, infraestrutura e capital humano.
Em 2025, 65% dos países melhoraram suas pontuações no Índice de Transição Energética, e 28% avançaram simultaneamente nas três dimensões (Fórum Econômico Mundial, 2025). No topo do ranking estão Suécia, Finlândia e Dinamarca, impulsionadas por políticas consistentes, infraestrutura robusta e sistemas diversificados de baixo carbono. Noruega e Suíça completam os cinco primeiros, seguidas por Áustria, Letônia, Holanda, Alemanha e Portugal, que apresentaram avanços expressivos em energia limpa e renováveis.
Figura 01: Índice de Transição Energética 2025: Os 20 primeiros países.

Fonte: Fórum Econômico Mundial (2025).
Entre os 20 primeiros, a China (12ª) destacou-se pela escala e inovação em energia limpa. O Brasil liderou na América Latina (15º), beneficiado por matriz diversificada e preços competitivos. Reino Unido (16º) e Estados Unidos (17º) se destacaram pela segurança energética e inovação. Índia e Emirados Árabes Unidos também avançaram, sendo estes últimos o país com maior progresso anual da última década.
O relatório identifica três prioridades para acelerar a transição energética. A primeira é ampliar o conceito de segurança energética, incorporando a resiliência das redes e a infraestrutura digital. Também é necessário corrigir os desequilíbrios de capital que favorecem economias avançadas, enquanto países emergentes, responsáveis por mais de 80% do crescimento da demanda desde 2021, recebem menos de 10% dos investimentos em energia limpa (Fórum Econômico Mundial, 2025).
Outra prioridade é superar os gargalos de infraestrutura, como a demora na concessão de licenças, a escassez de mão de obra qualificada e as limitações das redes, por meio de políticas flexíveis, incentivos de longo prazo e foco em treinamento e inovação. O documento conclui que, para uma transição global bem-sucedida, é essencial direcionar mais financiamento e investimentos verdes para as regiões de maior demanda, garantindo um avanço equilibrado e inclusivo.
Desta forma, a transição energética, apesar dos avanços registrados em 2025 com 65% dos países melhorando suas pontuações, revela profundas assimetrias globais. Enquanto países nórdicos e europeus lideram o ranking através de políticas consistentes e infraestrutura robusta, persiste uma contradição crítica: países emergentes respondem por mais de 80% do crescimento da demanda energética, mas recebem menos de 10% dos investimentos em energia limpa.
Para consolidar a economia verde globalmente, é essencial corrigir os desequilíbrios de financiamento, ampliar o conceito de segurança energética e superar gargalos de infraestrutura. Somente com equidade no acesso às tecnologias limpas e direcionamento estratégico de recursos para regiões de maior demanda será possível construir uma transição justa e efetiva no enfrentamento da crise climática.
REFERÊNCIAS:
DIAS, Reinaldo. A transição que exclui: conflitos sociais e o desafio de uma mudança energética justa. EcoDebate. Públicado em: 23 jul. 2025. Disponível em: https://www.ecodebate.com.br/2025/07/23/a-transicao-que-exclui-conflitos-sociais-e-o-desafio-de-uma-mudanca-energetica-justa/. Acesso em: 05 de ago. 2025.
FÓRUM ECONÔMICO MUNDIAL. A transição energética global ganha terreno, mas desafios de segurança e capital persistem. News Release, Genebra, 18 jun. 2025. Disponível em: https://public.affairs@weforum.org (ou o link direto do relatório, se disponível). Acesso em: 8 ago. 2025.
MONTALVÃO, Iago. O financiamento climático para países do Sul Global: uma análise de sua composição, limites e desafios. Nota de Economia nº 16, Projeto Transforma, 2025. Disponível em: https://transformaeconomia.org/financiamento-climatico-caminhos-e-limites-para-o-sul-global/?utm_source=chatgpt.com. Acesso em: 06 de ago. 2025.
TÁVORA, Fernando. Aspectos econômicos da transição para uma Economia Verde. Senado Federal. Consultoria Legislativa. Núcleo de Estudos e Pesquisa. Brasília. 2012. Disponível em: https://www12.senado.leg.br/publicacoes/estudos-legislativos/tipos-de-estudos/outras-publicacoes/temas-e-agendas-para-o-desenvolvimento-sustentavel/aspectos-economicos-da-transicao-para-uma-economia-verde Acesso em: 5 de ago. 2025.
UNITED NATIONS ENVIRONMENT PROGRAMME. Towards a green economy: pathways to sustainable development and poverty eradication. S. l.: Unep, 2011.
