Maria Eduarda, Acadêmica do 2° Semestre de Relações Internacionais.

Thaís Carvalho, Acadêmica do 8° Semestre de Relações Internacionais.

Ficha Técnica:

Ano: 2021

Gênero: Fantasia/Suspense

Diretor: Luis Carone

Distribuição: Netflix

País de Origem: Brasil

A série Cidade Invisível (2021) produção brasileira da Netflix criada por Carlos Saldanha, mistura elementos do folclore nacional com temáticas ambientais, desenvolvendo seu enredo a partir da presença de figuras folclóricas que carregam em si a fúria, dor e resistência de um Brasil que, desde a grande invasão em 1500, se tornou palco da ganância por poder refletidos na exploração ambiental, degradação de ecossistemas e violência contra povos originários (Mattos, 2023).

Com a primeira temporada ambientada no Rio de Janeiro, a narrativa da série se constrói a partir da jornada de Eric Alves, um policial ambiental que após perder a esposa em um incêndio criminoso na floresta do Cedro e encontrar um boto cor-de-rosa morto em uma praia na zona urbana, desconfia que as duas mortes possam estar conectadas e notando indícios de crime ambiental, ele decide abrir uma investigação. À medida que a busca por respostas das mortes avança, Eric se depara com um mundo oculto, onde figuras folclóricas coexistem discretamente entre os humanos, lutando para preservar o equilíbrio e a relação ancestral entre o meio ambiente e aqueles que tentam destruí-lo: a humanidade.

Ao destacar essas figuras como foco principal da narrativa, a série não apenas denúncia crimes como o garimpo ilegal e a apropriação indevida de conhecimento de comunidades tradicionais, mas também enfatiza a luta por preservação dos territórios através da representatividade incorporada nas figuras folclóricas, que ocupam de forma simbólica o lugar daqueles que são esquecidos as margens da sociedade – como as populações indígenas, periféricas e ribeirinhas -, e que enfrentam de forma mais intensa os impactos das mudanças ambientais advindos do ecocídio provocado pela intervenção humana (Sacchi, 2023).

Isto posto, pode-se analisar a série brasileira sob a perspectiva da Teoria Pós-Colonial das Relações Internacionais, vertente esta que tem como objetivo central compreender as relações internacionais a partir da análise das estruturas de poder assimétricas que interligam o Norte e o Sul Global, ressaltando que tais desigualdades não se restringem ao passado colonial, mas permanecem no presente pós-colonial (Jatobá; Lessa; Oliveira, 2013, p. 185).

Nesse sentido, o pós-colonialismo traz, ao longo de seus estudos, análises das consequências políticas, culturais, sociais e econômicas influenciadas pelos processos colonizatórios, e também surge como uma via de resistência e superação para povos que estiveram constantemente silenciados e subalternizados, a citar povos tradicionais, ribeirinhos e periféricos (Wilkens, 2017).

Neste contexto, o teórico pós-colonial Walter Mignolo (2000) desenvolve o conceito de “pensamento de fronteira”, ideia esta que afirma que a produção de conhecimento que emerge a partir das margens do sistema-mundo moderno/colonial, onde diferentes universos culturais se encontram, conversam entre si e, muitas vezes, entram em tensão. Assim, o conceito se desenvolve uma estratégia epistemológica e política que permite a resistência contra a colonialidade do poder e do conhecimento, articulando uma visão plural e crítica do mundo a partir dos contextos locais e das experiências vividas.

Desse modo, Cidade Invisível materializa essa ideia na coexistência entre o mundo “visível” urbano e o mundo “invisível” das entidades folclóricas, herdeiras de tradições indígenas, afrodescendentes e ribeirinhas. As figuras míticas, representada por personagens conhecidos como a Cuca, o boto-cor-de-rosa e o saci, vivem nessa fronteira preservando práticas, valores e cosmologias que desafiam a racionalidade instrumental e o extrativismo ambiental característicos do modelo colonial. É nesse cenário que a série representa simbolicamente como o pensamento de fronteira não é apenas sobrevivência cultural, mas também uma estratégia ativa de resistência frente à colonialidade do poder e do saber.

Por fim, Cidade Invisível traz ao longo de suas duas temporadas debates relevantes para as Relações Internacionais, como questões ambientais, culturais e históricas do país, trazendo a resistência dos povos tradicionais e a valorização de saberes ancestrais através de personagens do folclore extremamente conhecidos pelos brasileiros.

REFERÊNCIAS:

JATOBÁ, Daniel; LESSA, Antonio Carlos; OLIVEIRA, Henrique Altemani de. Teoria das relações internacionais. São Paulo: Saraiva, 2013.

MIGNOLO, Walter. Local Histories/Global Designs: Coloniality, Subaltern Knowledges, and Border Thinking. Princeton: Princeton University Press, 2000.

SACCHI, H.L. “A Ciência e os Conhecimentos da Cidade Invisível”. Scielo: Scientific Electronic Library. 2023. Disponível em: https://doi.org/10.1590/2175-6236124635vs01 Acesso em: 06 ago. 2025.

WILKENS, Jan. Postcolonialism in international relations. In: Oxford Research Encyclopedia of International Studies. 2017.

MATTOS, L.J. “Cidade Invisível e a representatividade no audiovisual”. Em Pauta. 2023. Disponível em https://wp.ufpel.edu.br/empauta/cidade-invisivel-e-a-representatividade-no-audiovisual/ Acesso em: 11 ago. 2025.