
Maria Luiza Garcia Lira – 4º semestre de Relações Internacionais na UNAMA.
A primeira fase da globalização teve seu marco com o comércio marítimo, a colonização e as trocas culturais que ocorriam no mundo em meados do século XV (Oliveira, 2015). A segunda fase é marcada pela Revolução Industrial e o desenvolvimento tecnológico, especialmente dos meios de produção. Já no final do século XX, a globalização contemporânea marca um salto considerável na intensificação das relações e na Revolução Técnico-Científica, momento impulsionador desse processo e que auxiliou na criação de um sistema internacional caracterizado por interdependência e conectividade, ainda que não imune a tensões e disputas (Oliveira, 2015).
Ao longo dos séculos, essa crescente interdependência econômica e política passou a influenciar diretamente as estratégias de política externa dos Estados, tornando decisões comerciais capazes de gerar impactos geopolíticos significativos. Dessa forma, as ações do governo de Donald Trump indicam que apesar do sistema internacional caminhar sob uma ótica interdependente, o país seguiu para um viés isolacionista como resultado do tarifaço adotado pelo presidente estadunidense (The Guardian, 2025).
Sob essa ótica, para entender a postura da política externa brasileira na defesa da soberania em resposta às imposições tarifárias de Trump, faz-se necessário recorrer às ideias de Joseph Nye e Robert Keohane (1977), que desenvolveram o conceito acerca da Teoria da Interdependência Complexa, fundamental para a Teoria Neoliberal, para contrapor a perspectiva realista que analisava as Relações Internacionais sob a lógica da disputa de poder militar e segurança em um sistema anárquico.
Segundo essa teoria, as Relações Internacionais são caracterizadas por elementos essenciais em que a existência de múltiplos canais de interação entre países não se limitam à diplomacia oficial entre governos, mas englobam corporações, organizações internacionais, redes acadêmicas, fluxos culturais e contatos entre sociedades civis; além disso, a ausência de hierarquia fixa entre os temas da agenda internacional permite que as relações sejam estruturadas por interdependências que podem influenciar tanto na cooperação quanto no conflito.
Nesse cenário, o poder não desaparece, mas se transforma, ele é distribuído e exercido de forma relacional, de modo que diversos fatores – e até mesmo países- podem influenciar decisões e moldar opiniões.
Essa perspectiva é fundamental para analisar a imposição de tarifas do governo de Donald Trump ao Brasil. No primeiro semestre de 2025, o presidente estadunidense anunciou uma lista de países – incluindo o Brasil- que seriam impactados pelas chamadas “tarifas recíprocas” aos produtos importados pelos Estados Unidos alegando proteção à indústria doméstica e, embora diversos produtos exportados pelo Brasil tenham entrado em uma lista de exceções às tarifas, essa medida ainda impactou uma rede de produtores e consumidores que dependem desses fluxos comerciais (Portal G1, 2025).
A escalada continuou ao longo do ano, especialmente a partir de 9 de julho de 2025, quando Donald Trump publicou uma carta endereçada ao presidente Lula anunciando tarifas de 50% sob o pretexto de defender valores democráticos e combater supostas injustiças contra seu aliado político, o ex-presidente Jair Bolsonaro, que enfrenta processo judicial por tentativa de golpe. A carta ainda vinculou a tarifa ao pedido de encerramento da ação judicial, alegando um déficit comercial com o Brasil — apesar dos EUA terem um superávit de cerca de 7,4 bilhões de dólares com o Brasil em 2024 (Reuters, 2025).
A partir disso, ao analisar a reação do Brasil pela lógica da Interdependência Complexa, é possível destacar como a política externa brasileira não optou por uma postura de confronto ou retaliação, mas por uma atuação estratégica dentro das redes existentes. O Itamaraty intensificou a diplomacia bilateral, buscou diálogo direto com autoridades comerciais e políticas dos Estados Unidos, e acionou mecanismos multilaterais como a OMC para contestar a legalidade das medidas (Al Jazeera, 2025).
Além disso, houve a mobilização de atores não estatais para pressionar por ajustes nas tarifas, explorando os custos internos que as medidas geravam para setores da própria economia norte-americana. A ausência de hierarquia temática também ficou evidente, pois a pauta econômica e comercial eclipsou temporariamente outros elementos da agenda bilateral, como segurança, cooperação em defesa ou alinhamentos políticos regionais e inter-regionais, especialmente ao considerar a participação brasileira nos BRICS+, bloco percebido por Trump como uma ameaça à hegemonia política e econômica estadunidense.
Nesse cenário, a defesa da soberania brasileira não significou romper laços ou buscar isolamento, mas sim preservar autonomia decisória dentro de um sistema de interdependência que impõe restrições e oferece oportunidades. Como sustenta Nye, a soberania em um ambiente interdependente não é a capacidade de agir sem influências externas, mas a habilidade de navegar em redes complexas para proteger interesses nacionais, influenciar parceiros e mitigar vulnerabilidades. O episódio do tarifaço revela que, mesmo diante de um parceiro mais poderoso e assertivo, o Brasil pôde articular respostas que combinam ação diplomática, mobilização institucional e engajamento de múltiplos atores, confirmando que, no século XXI, a eficácia da política externa depende menos de recursos coercitivos e mais da habilidade de operar em um ambiente onde cooperação e competição coexistem de forma permanente.
REFERÊNCIAS
OLIVEIRA, Ariovaldo Umberlino. A mundialização do capital e a crise do neoliberalismo: o lugar mundial da agricultura brasileira. Geousp – Espaço e Tempo (Online), v. 19, n. 2, p. 229-245, ago. 2015. ISSN 2179-0892. Disponível em: http://dx.doi.org/10.11606/issn.2179-0892.geousp.2015.102776. Acesso em: 14 ago. 2025.
PHILLIPS, Tom. Bolsonaro supporters pray for Trump rescue as coup plot trial verdict nears. The Guardian, Londres, 9 ago. 2025. Disponível em: https://www.theguardian.com/world/2025/aug/09/bolsonaro-supporters-pray-for-trump-rescue-coup-plot-trial-brazil. Acesso em: 14 ago. 2025.
NYE, Joseph; KEOHANE, Robert. Poder e interdependência. Boston: Little, Brown and Company, 1977.
G1. Trump anuncia tarifas recíprocas setoriais para aço e alumínio. G1, Rio de Janeiro, 17 mar. 2025. Disponível em: https://g1.globo.com/economia/noticia/2025/03/17/trump-tarifas-reciprocas-setoriais-aco-e-aluminio.ghtml. Acesso em: 14 ago. 2025.
LAWDER, David; SHALAL, Andrea; PAYNE, Julia. Trump sets 50% US tariffs on copper, Brazilian imports starting in August. Reuters, Londres, 9 jul. 2025. Disponível em: https://www.reuters.com/world/asia-pacific/eu-seeks-trade-deal-with-trump-this-month-new-tariff-notices-due-2025-07-09/. Acesso em: 14 ago. 2025.
Brazil requests World Trade Organization consultation over Trump tariffs. Al Jazeera, Doha, 6 ago. 2025. Disponível em: https://www.aljazeera.com/economy/2025/8/6/brazil-requests-world-trade-organization-consultation-over-trump-tariffs. Acesso em: 14 ago. 2025.
