Lara Lima – internacionalista formada em Relações Internacionais pela Unama

A ordem mundial contemporânea atravessa um período de intensas transformações, marcado pela reconfiguração das forças econômicas, políticas e estratégicas globais. Nesse contexto, o BRICS, inicialmente formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, emerge como um dos principais vetores dessas mudanças.

Nos últimos anos, o grupo passou por um processo de ampliação, incorporando novos membros como Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia e Irã, e passou a se chamar BRICS+. Além disso, estabeleceu a categoria de países parceiros, que inclui Belarus, Bolívia, Cazaquistão, Cuba, Malásia, Nigéria, Tailândia, Uganda, Uzbequistão e Vietnã. Essa expansão consolidou o bloco como um dos principais fóruns de articulação político-diplomática do Sul Global, voltado à promoção da cooperação em áreas estratégicas, como economia, energia, infraestrutura e segurança.

O BRICS+, em sua configuração ampliada, tem buscado se afirmar como ator central na reconfiguração das relações globais, oferecendo alternativas à ordem internacional dominada pela hegemonia ocidental estadunidense. Entre suas iniciativas mais relevantes está a tentativa de transformar a hierarquia monetária mundial, por meio da criação de mecanismos financeiros próprios, como o Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), e da ampliação do uso de moedas nacionais nas transações comerciais, ao mesmo tempo, em que estudam uma moeda para circular no comércio entre os países.

Na última cúpula do grupo, realizada em julho de 2025, em Brasília, representantes do Congresso Nacional enfatizaram, na abertura do 11º Fórum Parlamentar do BRICS, a necessidade de intensificar a cooperação entre os países do Sul Global e de promover reformas em instituições como o Fundo Monetário Internacional (FMI), a Organização Mundial do Comércio (OMC) e a Organização das Nações Unidas (ONU). Também defenderam o fortalecimento de moedas alternativas ao dólar e a ampliação da soberania das nações emergentes diante dos atuais desafios geopolíticos (gov, 2025). O encontro contou com a presença de parlamentares de 16 países, incluindo os membros permanentes do bloco e nações como Indonésia, Irã, Emirados Árabes Unidos, Nigéria, Etiópia, Cuba, Bolívia e Egito.

Para Donald Trump, o BRICS+ representa um grupo com inclinação antiestadunidense e uma ameaça direta à supremacia do dólar. Segundo Júlia Braun (2025), o presidente declarou: “o BRICS é um ataque ao dólar, e não permitiremos que ninguém ataque a nossa moeda”. Assim, Trump sinalizou a possibilidade de impor sanções ao bloco, reafirmando sua postura de enfrentamento diante de iniciativas que desafiem a hegemonia dos Estados Unidos no sistema internacional.

Após a última cúpula do grupo no Rio de Janeiro, Trump anunciou uma tarifa de 50% sobre as importações brasileiras a partir de 6 de agosto, com exceção de cerca de 700 produtos, entre eles suco de laranja, aeronaves e petróleo. A medida foi justificada com base no processo em que o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) é réu no STF por suposta tentativa de golpe de Estado, sob a alegação de que seu aliado estaria sofrendo um “tratamento injusto” (Braun, 2025). Embora não tenha citado diretamente o BRICS+ ao se referir ao Brasil, Trump já havia declarado, em julho, que qualquer país que aderisse às “políticas antiamericanas” do bloco estaria sujeito a tarifas adicionais de 10%, enfatizando que “não haverá exceções a essa política”.

A hostilidade de Trump pode ser explicada pela percepção de que o BRICS+ oferece uma alternativa real aos países em desenvolvimento, rompendo a lógica de dependência das negociações mediadas pelo Ocidente. Para o republicano, a consolidação desse bloco amplia a capacidade de atores externos à esfera de influência norte-americana de atuar de forma mais autônoma, construir mecanismos próprios de cooperação e desafiar diretamente o papel central dos EUA no sistema internacional.

O BRICS+ tem buscado aprimorar o funcionamento do sistema financeiro internacional, promovendo maior inclusão e participação dos países em desenvolvimento nas decisões globais. Esse esforço se manifesta tanto por meio do Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), quanto das propostas de revisão da distribuição de poder nas instituições criadas na Conferência de Bretton Woods em 1944, como o FMI e o Banco Mundial, tornando o sistema mais representativo e reduzindo a concentração de poder de veto dos Estados Unidos (Umberto, 2024).

As medidas adotadas pelos Estados Unidos têm incentivado países a buscar maior autonomia no sistema financeiro internacional e aproximar-se do BRICS+, visto por Trump como ameaça à hegemonia americana; contudo, as tarifas impostas por Washington podem, paradoxalmente, fortalecer o bloco ao estimular a diversificação de parceiros, acelerar sua coesão e atrair novos membros, revelando a perda relativa de influência dos EUA diante da ascensão da China como defensora do livre comércio.

Nesse cenário, Almeida (2024) afirma que o conceito de Sul Global assume centralidade ao se configurar não apenas como uma categoria geográfica, mas como uma construção política que expressa as demandas históricas de países marginalizados nos processos decisórios internacionais. Representado em grande medida pelo BRICS+, o Sul Global reivindica maior representatividade e atua como movimento de contestação à ordem liberal internacional, buscando afirmar novas formas de inserção global.

Contudo, essa transição enfrenta desafios significativos, uma vez que o BRICS+ reúne países com interesses distintos, divergências internas e diferentes níveis de desenvolvimento. Tensões entre Índia e China, instabilidades políticas em alguns membros e pressões externas do Ocidente podem limitar sua coesão e eficácia. Além disso, a consolidação de uma nova ordem mundial exige mais do que iniciativas econômicas e financeiras; requer também a construção de narrativas, consensos e legitimidades amplamente reconhecidas no sistema internacional.

O construtivismo, introduzido nas Relações Internacionais em 1959 com a obra World of Our Making — Rules and Rule in Social Theory and International Relations, de Nicholas Onuf (Nogueira, 2005, p. 162), oferece um referencial útil para compreender esse processo. Ele se fundamenta em três premissas: primeiro, o mundo é socialmente construído e está em constante transformação, sendo produto das escolhas dos indivíduos e não algo pré-determinado; segundo, agentes e estruturas são co-constitutivos, sem que um possua precedência ontológica sobre o outro; e, terceiro, ideias e valores orientam a relação dos agentes com o mundo material, atribuindo significados à realidade.

Sob essa perspectiva, a consolidação do BRICS+ demonstra que a ordem mundial não depende apenas de poder militar ou econômico, mas também de ideias, identidades e normas compartilhadas. Como expressão do Sul Global, o bloco contribui para moldar um novo imaginário coletivo, redefinindo papéis, percepções e expectativas no sistema internacional. O construtivismo ressalta que instituições e práticas internacionais são socialmente construídas; assim, discursos de multipolaridade, autonomia e cooperação Sul-Sul transformam tanto as relações de poder quanto os significados que as sustentam, projetando o Sul Global como ator legítimo e relevante na governança internacional, capaz de desafiar a centralidade do Ocidente e de contribuir para a formação de uma nova ordem mundial mais inclusiva e representativa do Sul Global.

REFERÊNCIA:

AGÊNCIA Gov. Fórum Parlamentar do Brics defende nova ordem mundial e maior protagonismo do Sul Global. Brasília. Publicado em: 5 jun. 2025. Disponível em: https://agenciagov.ebc.com.br/noticias/202506/forum-parlamentar-do-brics-defende-nova-ordem-mundial-com-maior-protagonismo-do-sul-global. Acesso em: 19 ago. 2025.

ALMEIDA, Maria Luísa. Sul global: a ascensão de uma nova perspectiva de poder? LAIBL, 29 out. 2024. Disponível em: https://laibl.com.br/sul-global-a-ascensao-de-uma-nova-perspectiva-de-poder/. Acesso em: (//2025). 

BRAUN, Julia. Trump x BRICS: por que o bloco incomoda tanto o presidente dos EUA? BBC Brasil, Londres. 2025. Disponível em: https://www.msn.com/pt-br/noticias/brasil/trump-x-brics-por-que-o-bloco-incomoda-tanto-o-presidente-dos-eua/ar-AA1JZYYv. Acesso em: 17 ago. 2025.

MARTINS, Umberto. Brics pavimenta o caminho para uma nova ordem mundial. CTB. Publicado em: 24 out. 2024. Disponível em: https://www.ctb.org.br/2024/10/24/brics-pavimenta-o-caminho-para-uma-nova-ordem-mundial/. Acesso em: 17 ago. 2025.

NOGUEIRA, João Pontes; MESSARI, Nizar. Teoria das relações internacionais. Elsevier, 2005.