Lucas Cardoso – Acadêmico do 6° semestre de Relações Internacionais da UNAMA

A Guerra da Cisplatina (1825–1828) foi o primeiro grande desafio diplomático e militar do Império do Brasil, em disputa com as Províncias Unidas do Rio da Prata pela posse da região que hoje corresponde ao Uruguai. Mais do que um conflito territorial, a guerra refletiu as dinâmicas das relações internacionais do século XIX, envolvendo o equilíbrio de poder no Cone Sul e a mediação da Inglaterra. O resultado foi a criação do Estado Oriental como um Estado-tampão, que redefiniu a geopolítica regional.

A região do Rio da Prata foi, desde o período colonial, uma das áreas mais disputadas entre as coroas ibéricas. Sua localização estratégica, conectando o interior do continente ao Atlântico, fez dela um ponto-chave para o comércio e a defesa militar. Diversos tratados, como o de Madri (1750) e o de Santo Ildefonso (1777), tentaram estabelecer fronteiras entre Portugal e Espanha, mas os constantes confrontos luso-espanhóis revelaram a dificuldade de controlar efetivamente a Banda Oriental. Além disso, a presença de povos indígenas, missões jesuíticas e comunidades locais tornava a região ainda mais complexa, sendo alvo tanto de interesses econômicos quanto de disputas imperiais (Bandeira,1998).

Com a independência das colônias hispânicas no início do século XIX, a Banda Oriental tornou-se foco das rivalidades entre o Império do Brasil e as Províncias Unidas do Rio da Prata. Em 1821, após conflitos internos e a atuação de forças luso-brasileiras, o território foi anexado ao Brasil sob o nome de Província Cisplatina. Contudo, parte da população local resistia à dominação brasileira e buscava maior proximidade com as Províncias Unidas. Ao mesmo tempo, potências europeias, em especial a Inglaterra, acompanhavam de perto a situação interessadas em garantir estabilidade política e liberdade de comércio na região do Prata. Este conjunto de tensões foi o estopim para a eclosão da Guerra da Cisplatina em 1825 (Bethell, 2001).

Esse estopim da Guerra da Cisplatina ocorreu quando um grupo de revolucionários conhecidos como Trinta e Três Orientais, liderados por Juan Antonio Lavalleja, desembarcou na Banda Oriental para lutar contra a dominação brasileira. Eles declararam a independência da região e sua união às Províncias Unidas do Rio da Prata, o que levou o Império do Brasil a reagir militarmente para manter o território como Província Cisplatina. Em agosto de 1825, o Congresso das Províncias Unidas reconheceu a incorporação da Banda Oriental, aprofundando a crise diplomática e transformando-a em guerra aberta entre Brasil e Argentina (Costa, 1996).

O conflito se estendeu por terra e mar, com batalhas decisivas que revelaram dificuldades para ambos os lados. As forças brasileiras, superiores em recursos navais, bloquearam o estuário do Prata, enquanto os exércitos argentinos e orientais, mais numerosos em terra, conseguiram impor resistência significativa. Entre os confrontos, destacam-se a Batalha de Sarandí (1825), em que os orientais derrotaram os brasileiros, e a Batalha de Ituzaingó (1827), considerada a maior da guerra, na qual as forças platinas conseguiram impor uma vitória tática contra o exército imperial. Apesar disto, nenhum dos lados obteve condições de alcançar uma vitória definitiva, resultando em um impasse militar (García, 1994).

A Inglaterra desempenhou um papel central nos antecedentes da Guerra da Cisplatina, não como participante direto do conflito, mas como potência interessada em manter o equilíbrio de poder no Cone Sul e assegurar a liberdade de comércio na região do Prata. Desde o início do século XIX, os britânicos buscavam consolidar seu predomínio econômico sobre os novos Estados independentes da América Latina, evitando que Brasil ou Províncias Unidas alcançassem hegemonia sobre o território estratégico da Banda Oriental. 

Por isso, Londres atuou nos bastidores como mediadora diplomática, pressionando para que o conflito não se prolongasse e desestabilizasse o comércio atlântico. Esta intervenção foi decisiva para o desfecho da guerra e para a criação do Uruguai como Estado independente, funcionando como uma solução de compromisso que atendia tanto aos interesses regionais quanto aos britânicos (García, 1994).

Diante do prolongamento da guerra e dos altos custos para Brasil e Províncias Unidas, a Inglaterra intensificou sua mediação diplomática. O Tratado do Rio de Janeiro, assinado em 1828, pôs fim ao conflito com a criação de um Estado independente: o Uruguai, chamado na época de Estado Oriental do Uruguai. Essa solução funcionou como um compromisso que evitava a hegemonia de qualquer dos dois vizinhos e garantia os interesses britânicos na região. Para o Brasil, significou a perda da Cisplatina, mas também a preservação de sua integridade territorial sem maior desgaste; para as Províncias Unidas, representou a frustração de não anexar a Banda Oriental; já para os orientais, foi o início da construção de uma identidade nacional autônoma (Pimenta, 2002).

Sob a perspectiva neorrealista de Kenneth Waltz (1959), a Guerra da Cisplatina pode ser interpretada como produto da anarquia do sistema internacional, em que os Estados atuam para garantir sua segurança e impedir a hegemonia do adversário. Tanto o Império do Brasil quanto as Províncias Unidas disputaram a Banda Oriental não apenas pelo controle territorial, mas para assegurar influência sobre a estratégica região do Prata. 

O impasse no campo de batalha e a posterior mediação britânica, que levou à criação do Uruguai como Estado-tampão, ilustram o mecanismo de balance of power destacado por Waltz (1959): diante da impossibilidade de vitória absoluta, o sistema tendeu ao equilíbrio, impedindo que qualquer ator regional consolidasse supremacia.

Referências:

BETHELL, Leslie. História da América Latina: Da Independência até 1870. São Paulo: Edusp, 2001.

BANDEIRA, Luiz Alberto Moniz. O Expansionismo Brasileiro e a Formação dos Estados na Bacia do Prata: da colonização à Guerra da Tríplice Aliança. Rio de Janeiro: Revan, 1998.

COSTA, Wilma Peres. A Espada de Dâmocles: O Exército, a Guerra da Cisplatina e a Crise do Império. Campinas: Editora da Unicamp, 1996.

GARCÍA, Gustavo. La Guerra del Brasil: orígenes y desarrollo de la Guerra de 1825-1828. Montevideo: Ediciones de la Banda Oriental, 1994.

WALTZ, Kenneth N. Man, the State and War: A Theoretical Analysis. New York: Columbia University Press, 1959.

PIMENTA, João Paulo Garrido. Estado e Nação no Fim dos Impérios Ibéricos no Prata (1808–1828). São Paulo: Hucitec, 2002.