
Caira Queiroz – acadêmica do 5° semestre de Relações Internacionais (UNAMA)
Estudar por sites de pesquisa, compartilhar a vida por fotos ou vídeos e conversar por trocas de mensagem em aplicativos ou bate-papos em jogos eletrônicos mostram como a internet e as redes sociais transformaram radicalmente a maneira de compartilhar experiências e de interagir no meio social. Entre os fenômenos mais sensíveis nesse contexto, destaca-se a exposição de crianças na internet, que tornou-se um debate sensível quanto aos canais de entretenimento, influenciadores digitais e o cotidiano de famílias.
A exposição excessiva de menores não considera a própria vontade da criança por estar num período de desenvolvimento emocional e psicológico, além dos riscos reais, como o uso indevido de imagens, cyberbullying e dificuldades na formação da identidade. Para tanto, há medidas de proteção como o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que garante à criança o direito à privacidade da sua imagem (Oliveira, 2025).
No caso de influenciadores como MC Melody, que aos 8 anos já era exibida de forma sensualizada (Temer, 2019), até casos recentes como o do influencer Boca de 09 (QB News, 2025), revelam como determinados conteúdos, protagonizados por ou com menores de idade de forma sexualizada, são usados para atrair público e monetização. Depois de muitas denúncias silenciadas, tais casos acabaram sendo normalizados.
Mas essa realidade levanta dilemas éticos, jurídicos e sociais: até que ponto a infância, período marcado por vulnerabilidade e desenvolvimento, pode ser transformada em conteúdo público? O debate veio à tona novamente após o youtuber Felca publicar o vídeo “Adultização”, expondo a gravidade dessa questão ao denunciar a exploração de menores nas redes, focando especialmente no caso de Hytalo Santos, que foi preso e cujo perfil foi desativado após repercussão negativa (Estadão, 2025).
A denúncia tornou-se viral, devido a influência do youtuber, ultrapassando dezenas de milhões de visualizações, ao alertar a sociedade da realidade desta exposição se converter em estratégia de marketing, monetização, construção de status social e até a sexualização destas por pedófilos, já que perfis infantis acumulam milhões de seguidores, transformando brincadeiras, rotinas e até emoções em material de consumo. Nesse contexto, Felca também denuncia o “Algoritmo P”, um mecanismo que amplia e reforça conteúdos que sexualizam crianças e adolescentes, reafirmando a falta de filtro das plataformas (Souza, 2025).
O caso impactou significativamente no espaço público e político, pois o vídeo motivou a apresentação de 32 projetos de lei na Câmara dos Deputados para prevenir a “adultização” infantil nas redes sociais (Câmara Legislativa, 2025). O Senado também reagiu à denúncia de Felca solicitando a criação de uma CPI para investigar a participação de influenciadores e plataformas nesse tipo de conteúdo (Nascimento, 2025). Ou seja, a denúncia, portanto, não foi apenas um alerta sobre riscos individuais, mas uma crítica a um sistema cultural que naturaliza a mercantilização da infância.
Diante a análise desta realidade, torna-se pertinente retomar os conceitos da Teoria Crítica da Escola de Frankfurt, especialmente à crítica de Theodor Adorno e Max Horkheimer à indústria cultural, em Dialética do Esclarecimento (1947). Para eles, a cultura industrializada perde seu caráter e passa a seguir a lógica do mercado, tornando experiências humanas, inclusive o privado, em mercadoria. A infância, nesse contexto, torna-se objeto de consumo (Siqueira, 2024).
No caso de Felca, isso ocorre quando crianças que antes viviam longe das câmeras, agora estão expostas como produtos digitais, cujas emoções e rotina valem cliques e curtidas. A lógica da “padronização” em que cada menor de idade é único, segue fórmulas narrativas e visuais moldadas pelos algoritmos como “produtos” emocionalmente atraentes, mas que são industriais.
Portanto, o dilema da exposição de crianças na internet vai além da simples discussão sobre privacidade; ele reflete estruturas sociais que redefinem o significado da infância. O caso Felca demonstra a urgência de repensar normas e limites no ambiente digital, especialmente para os pequenos. A mobilização popular, o debate legislativo e a repercussão política mostram que esse não pode mais ser um tema invisível. A defesa da infância exige políticas públicas eficazes, regulação responsável das plataformas e a rejeição à cultura da mercantilização da vida infantil.
REFERÊNCIAS
ADORNO, T.; HORKHEIMER, M. Dialética do esclarecimento. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.
AGÊNCIA CÂMARA DE NOTÍCIAS. Denúncia sobre uso indevido de imagens de crianças motiva 32 projetos na Câmara dos Deputados. Agência Câmara de Notícias, 2025. Disponivel em: https://www.camara.leg.br/noticias/1187375-denuncia-sobre-uso-indevido-de-imagens-de-criancas-motiva-32-projetos-na-camara-dos-deputados.
ESTADÃO. Crimes denunciados por Felca: veja o que se sabe sobre exposição infantil na internet. Estadão, 2025. Disponível em: https://www.estadao.com.br/brasil/crimes-denunciados-por-felca-veja-o-que-se-sabe-sobre-debates-envolvendo-pedofilia-na-internet-nprm/.
NASCIMENTO, Henrique. Após vídeo de Felca, senadores formalizam CPI contra exploração infantil nas redes. Rádio Senado, 2025. Disponível em: https://www12.senado.leg.br/radio/1/noticia/2025/08/12/apos-video-de-felca-senadores-propoem-cpi-contra-exploracao-infantil-nas-redes.
OLIVEIRA, Camila. A superexposição de crianças na internet: direitos, limites e as consequências invisíveis. Jusbrasil, 2025. Disponivel em: https://www.jusbrasil.com.br/artigos/a-superexposicao-de-criancas-na-internet-direitos-limites-e-as-consequencias-invisiveis/3084563107.
QB News. Após críticas, Boca de 09 diz que MC Pipokinha enviou mensagens explícitas quando ele tinha 13 anos. QB News, 2025. Disponível em: https://qbnews.com.br/2025/08/14/apos-criticas-boca-de-09-diz-que-mc-pipokinha-enviou-mensagens-explicitas-quando-ele-tinha-13-anos/.
SIQUEIRA, Vinicius. A Dialética do Esclarecimento – Adorno e Horkheimer: uma resenha. Colunas Tortas, 2024. Disponível em: https://colunastortas.com.br/a-dialetica-do-esclarecimento-adorno-e-horkheimer-uma-resenha/.
SOUSA, Beto. O que é ‘algoritmo P’, acusado por youtuber de sexualização de crianças. CNN, 2025. Disponivel em: https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/brasil/o-que-e-algoritmo-p-acusado-por-youtuber-de-sexualizacao-de-criancas.
TEMER, Luciana. Caso Melody: “Quantas meninas de 11 anos são expostas sexualmente a abusos de toda ordem?” Marie Claire, 2019. Disponível em: https://revistamarieclaire.globo.com/Mulheres-do-Mundo/noticia/2019/01/quantas-meninas-de-11-anos-sao-expostas-sexualmente-abusos-e-exploracao-de-toda-ordem.html.
