Marcelo Andrade de Freitas – 6º semestre de Relações Internacionais

Historicamente, no viés hegemônico das Relações Internacionais, a América Latina sempre foi tratada como uma área de influência natural dos Estados Unidos da América, ficando, portanto, sujeita a intervenções e interesses políticos do governo de Washington. Tal cenário se refletiu na política externa estadunidense por meio de instrumentos como a Doutrina Monroe (1823) e a Doutrina do Big Stick (1904), ambas fortemente influenciadas por concepções de caráter colonial, como o “Destino Manifesto” e a ideia do “Fardo do Homem Branco” (CHOMSKY, 2004).
Esses conceitos sustentavam, respectivamente, que os Estados Unidos estariam destinados a ocupar, inclusive de forma violenta, todos os territórios da América do Norte e da América Central, bem como a “civilizar” outros povos, como os nativos americanos, latino-americanos, populações negras e demais grupos considerados inferiores dentro da lógica imperialista da época.
Dessa forma, tais ideais e políticas continuam a produzir reverberações na contemporaneidade, expressas em diferentes formas de intervenção e pressão política (CHOMSKY, 2004). Um exemplo recente é a mobilização de militares no Caribe venezuelano frente ao governo de Nicolás Maduro, sob a justificativa de combate ao tráfico de drogas. Além disso, persistem diversas ameaças à soberania do Brasil, acompanhadas de pressões econômicas que reforçam a condição histórica de vulnerabilidade do continente latino-americano diante da política externa dos Estados Unidos.
Em contrapartida, a influência da política chinesa, bem como os investimentos econômicos de empresas chinesas nos países latino-americanos, tem crescido de forma exponencial nos últimos anos, desafiando a hegemonia historicamente mantida pelos Estados Unidos. Esse movimento se manifesta tanto na ampliação das relações comerciais e de infraestrutura, impulsionadas pela Iniciativa da “Nova Rota da Seda” (Belt and Road Initiative), quanto na presença estratégica da China em setores como energia, tecnologia e mineração.
Essa ênfase na segurança tem sido central para a política externa estadunidense, conforme apontam Buzan e Waever (2003), que destacam como o conceito de segurança é socialmente construído e instrumentalizado para justificar intervenções. No caso da América Latina, a narrativa do combate a ameaças como o tráfico de drogas, o terrorismo ou a instabilidade política, tem servido para legitimar a presença militar e o envolvimento direto dos Estados Unidos na região, muitas vezes excedendo os limites do controle estatal local.
Assim, políticas securitárias são mobilizadas não apenas para enfrentar riscos concretos, mas também para consolidar a hegemonia regional, moldando percepções de vulnerabilidade e necessidade de proteção sob a liderança estadunidense. Essa lógica evidencia que o exercício da influência estadunidense combina coerção material e construção ideológica, criando consensos que naturalizam sua posição de liderança
Desse modo, Robert Cox (1981), importante expoente da teoria crítica das Relações Internacionais, propõe uma análise que compreende a hegemonia como resultado da articulação entre forças materiais, ideias e instituições. Sob essa lógica, para o autor, a hegemonia não se sustenta apenas pelo poder coercitivo de um Estado, mas também pela capacidade de construir consensos e moldar estruturas sociais que legitimem sua posição de liderança no sistema internacional.
Nesse sentido, a política externa das grandes potências, como os Estados Unidos, deve ser entendida não apenas em termos de supremacia militar ou econômica, mas também pela criação de mecanismos institucionais e de discursos ideológicos que naturalizam sua influência sobre outras regiões. Essa perspectiva é essencial para compreender a América Latina, historicamente considerada uma área de influência dos Estados Unidos, mas que, nas últimas décadas, tem se tornado palco de disputas hegemônicas envolvendo novos atores, como a China.
Nesse viés, à luz de Cox (1981), as ações militares e a política externa norte-americana na região funcionam como mecanismos de coerção direta e indireta, muitas vezes apresentadas na narrativa oficial como medidas de combate ao tráfico de drogas, quando, na realidade, refletem a busca por hegemonia regional.
Simultaneamente, a crescente influência econômica chinesa na América Latina, por meio de investimentos estratégicos e acordos comerciais, representa um desafio à essa ordem hegemônica estadunidense. Essa dinâmica evidencia a competição entre diferentes atores na configuração global contemporânea, ressaltando a importância de fatores materiais, institucionais e ideológicos na manutenção e contestação da hegemonia internacional.
Referências:
COX, Robert W. Social forces, states and world orders: beyond international relations theory. Millennium: Journal of International Studies, v. 10, n. 2, p. 126–155, (1981).
CHOMSKY, Noam. O império americano: hegemonia ou sobrevivência. São Paulo: Campus, 2004. ISBN 9788535214048.
BUZAN, Barry; WAEVER, Ole. Regions and Powers: The Structure of International Security. Cambridge: Cambridge University Press, 2003.
