Maria Luiza Costa – 2° semestre de Relações Internacionais da UNAMA.

Uma guerra comercial é um conflito econômico entre Estados que usam medidas protecionistas, como tarifas (impostos sobre produtos importados) ou outras barreiras comerciais, umas contra as outras. Atualmente, essas ações retaliatórias estão frequentemente sendo utilizadas pelo presidente Donald Trump para proteger a hegemonia norte americana.

De acordo com Hobbes (1651), quando diferentes atores desejam as mesmas coisas e não podem usufruí-las igualmente, tendem a entrar em conflito, gerando um ambiente de insegurança e disputa. No sistema internacional, essa lógica se manifesta de forma semelhante. Os Estados agem de modo competitivo e unilateral para defender seus interesses. A guerra comercial entre Estados Unidos e China é um exemplo desse cenário, no qual ambos buscam maximizar ganhos e conter o avanço do outro, mesmo que isso resulte em instabilidade global.

Essa interpretação dialoga com a visão de Mearsheimer (2001), para quem as grandes potências, em uma lógica de neorealismo, procuram constantemente ampliar sua capacidade de poder e limitar o crescimento de rivais. Nesse contexto, tarifas, retaliações e políticas comerciais agressivas não são apenas medidas econômicas, mas instrumentos estratégicos de contenção e projeção de poder, a fim de manter uma hegemonia estadunidense.(MEARSHEIMER, 2001).

Iniciado em 2018, esse conflito comercial surgiu da tentativa dos Estados Unidos de corrigir o que consideravam práticas comerciais desleais e roubo de propriedade intelectual, impondo tarifas sobre bilhões de dólares em produtos chineses (YORK, DURANTE,2014). Em retaliação, a China respondeu com suas próprias tarifas sobre produtos americanos, afetando setores que iam da agricultura à tecnologia e repercutindo diretamente nas cadeias globais de suprimentos e nas relações econômicas internacionais (YORK, DURANTE, 2014).

No mesmo ano, outra frente de tensão abriu-se entre os EUA e a UE, após Washington impor tarifas sobre aço e alumínio sob a justificativa de preocupações com a segurança nacional (BBC NEWS, 2025; WHEATLEY MC, 2024).. A União Europeia chegou a adotar medidas retaliatórias e a contestar a posição norte-americana, mas, em comparação à China, sua resposta foi mais contida. Ao privilegiar a via diplomática para evitar uma escalada do conflito, o bloco europeu não apenas demonstrou um recuo diante da intensidade da disputa comercial, mas também evidenciou a persistência da forte influência dos Estados Unidos sobre a Europa, onde laços históricos, estratégicos e institucionais ainda limitam a autonomia europeia em questões comerciais e geopolíticas (BBC NEWS, 2025; WHEATLEY MC, 2024).

Todas essas medidas econômicas tiveram um efeito dominó sobre os preços de bens e serviços, não apenas nos países diretamente envolvidos, mas também em escala global, ao influenciar a estabilidade dos mercados, elevar os custos de manufatura e encarecer os bens de consumo, impactando a vida de civis e o próprio sistema internacional.

A guerra comercial evidencia que o S.I está se tornando cada vez mais multipolar e competitivo. Com a ascensão de países emergentes, como os membros do BRICS, e a crescente autonomia de aliados tradicionais, a influência dos Estados Unidos, antes incontestável, enfrenta ameaças. As ações de Trump mostram que a hegemonia americana não é absoluta. Medidas agressivas podem proteger interesses imediatos, mas também provocam realinhamentos diplomáticos e econômicos, com alguns países se aproximando dos EUA e outros adotando posturas mais independentes.

Além disso, a disputa deixa claro que o sistema internacional não é apenas militar ou político, mas também profundamente econômico e estrutural. O controle de cadeias de produção, tecnologia, comércio e finanças globais tornou-se um elemento central da competição entre grandes potências. Nesse contexto, instituições multilaterais, como a OMC, enfrentam grandes dificuldades para coordenar regras e resolver conflitos, evidenciando a fragilidade do sistema multilateral tradicional.

Diante desses fatores, os rumos do sistema internacional apontam para um mundo mais fragmentado e estratégico, em que alianças e parcerias são flexíveis, a competição econômica se mistura à geopolítica, e os Estados precisam equilibrar interesses nacionais, cooperação internacional e preservação de influência global. Embora Hobbes e Mearsheimer ofereçam importantes lentes para compreender a competição entre Estados, a realidade contemporânea vai além da lógica puramente realista. O fortalecimento de economias emergentes, como os membros do BRICS, a autonomia crescente de aliados tradicionais e a intensificação de crises econômicas, tecnológicas, ambientais e de saúde global mostram que o comportamento dos Estados hoje é moldado por múltiplos fatores interligados. Esses elementos tornam insuficiente uma análise baseada exclusivamente na busca por poder político e econômico, evidenciando que o sistema internacional contemporâneo vai além das lentes clássicas do realismo, exigindo uma compreensão mais ampla das dinâmicas globais.

REFERÊNCIAS

AP News. Trump’s tariffs have launched global trade wars. https://apnews.com/article/trump-tariff-england-trade-war-e8300b457256d4c23d64928c09ce2b63

BBC News. CLARKER. What tariffs has Trump announced and why? (2025) https://www.bbc.com/news/articles/cn93e12rypgo

Mearsheimer, John J. — The Tragedy of Great Power Politics (2001) https://samuelbhfaure.com/wp-content/uploads/2015/10/s2-mearsheimer-2001.pdf

SILVA, Marcos Valle. O Leviatã de Thomas Hobbes como base para o entendimento do paradigma realista das Relações Internacionais (2011). https://revistailuminart.ti.srt.ifsp.edu.br/iluminart/article/view/112

WHEATLEY, Mary Christine. Global trade wars: economic and social impacts. Premier Journal of Business and Management (2024)https://doi.org/10.70389/PJBM.100006

YORK, Erica; DURANTE, Alex. Trump Tariffs: Tracking the Economic Impact of the Trump Trade War.(2025) https://taxfoundation.org/research/all/federal/trump-tariffs-trade-war/