Maria Eduarda Perdigão, acadêmica do 2° semestre de Relações Internacionais da UNAMA.

Ficha Técnica:

Ano: 1984

Gênero: Fantasia/Ficção Científica

Diretor: Hayao Miyazaki

Distribuição: Empresa Toei

País de Origem: Japão

A animação “Nausicaä do Vale do Vento” (1984), baseada no mangá publicado em 1982 por Hayao Miyazaki, é uma das obras fundadoras do Studio Ghibli e um grande marco da animação japonesa. A trama da animação se passa em um futuro pós-apocalíptico, onde a humanidade vive cercada por uma floresta tóxica chamada de Mar Podre em consequência dos anos de exploração à natureza, tornando até o simples ato de respirar livremente uma sentença de morte para os que ainda vivem (Fernandes, 2020).

A protagonista do filme é a princesa do vilarejo do Vale do Vento Nausicaä, cuja responsabilidade de liderar recaí em seus ombros após seu pai ser impossibilitado, graças a uma doença provocada pelos gases poluentes da floresta. Diferentemente de outras nações sobreviventes, Nausicaä é uma das únicas que acredita na salvação do planeta, sua liderança é construída através da empatia e curiosidade em conhecer a realidade do mundo em que vive, demonstrando uma profunda ligação com a natureza ao não temer aos gases tóxicos da floresta e nem aos Ohmu – criaturas gigantes e violentas que habitam o lugar – procurando compreender qual papel elas desenvolvem no equilíbrio do planeta e tentando criar uma relativa harmonia entre os humanos e os insetos da floresta.

Ao decorrer de sua trajetória, Nausicaä não passa por diferentes arcos de narrativa, ela é mulher decidida e com fortes convicções de que a guerra de nações contra o Mar Podre e os Ohmu não é o caminho para a salvação do mundo de volta a forma que conhecemos, encarando diversos conflitos por meio de sua empatia que toma diferentes formas conforme suas vivências. A personagem entende que ao invés de buscar pela destruição de um “inimigo”, é necessário combater as causas e condições que justifiquem suas atitudes sem agir através do medo e da ignorância, demonstrando que a compaixão pode assumir inúmeras formas e pode ser intercessora de grandes transformações (Luri, 2020).

Dessa forma, a animação pode ser analisada através das lentes da Teoria do Construtivismo das Relações Internacionais (RI), vertente que busca compreender como a relação entre os Estados e seus interesses é moldada por valores, normas e identidades e não apenas por fatores econômicos e de poder, essa perspectiva relaciona processos históricos e culturais dos Estados com suas formas de perceber e interagir com outros no Sistema Internacional (Theys, 2018).

Um dos principais teóricos da Teoria do Construtivismo, Alexander Wendt, aborda em suas obras “Social Theory of International Politics” (1999) e “Anarchy is What States Make of It” (1992) que os interesses e identidades dos Estados não são fixos, mas socialmente construídos e constantemente reconstruídos por meio de interações. Assim, a anarquia é o resultado de práticas sociais e da interpretação dos atores no Sistema Internacional.

No filme, esse raciocínio pode ser ilustrado em como o Mar Podre e os Ohmu são atribuídos a diferentes significados pelos personagens, que contrastam a realidade da floresta, enquanto a maioria dos sobreviventes enxerga as criaturas como inimigos que precisam ser extinguidos, Nausicaä os interpreta como parceiros e organismos vivos da floresta, sendo parte essencial para o equilíbrio ambiental. As diferenças de percepção demonstram que a realidade não é dada, mas sim construída socialmente por interpretações compartilhadas que orientam as ações, evidenciando o argumento de Wendt de que a anarquia internacional “é o que os Estados fazem dela”.

Por fim, a trajetória de Nausicaä é mais do que apenas uma aventura em um futuro distópico, é uma fábula ecológica que até os dias atuais convida o telespectador a repensar valores e refletir sobre a relação da humanidade com o planeta, tendo fortes conexões com os debates contemporâneos sobre ética ambiental e impactos das dinâmicas sociais e políticas no cenário internacional.

REFERÊNCIAS:

FERNANDES, Eduardo. CRÍTICA | Nausicaä do Vale do Vento. Cinéfilo em Série. 2020. Disponível em: https://www.cinefiloemserie.com.br/2020/04/critica-nausicaa-do-vale-do-vento.html?m=1 Acesso em: 10 set. 2025.

LURI. Nausicaä do Vale do Vento: a compaixão irada como resistência. Medium. 2020. Disponível em: https://medium.com/pesadelos-criativos/nausica%C3%A4-do-vale-do-vento-a-compaix%C3%A3o-irada-como-resist%C3%AAncia-89707ae67a2a Acesso em: 11 set. 2025.

THEYS, Sarina. Introducing Constructivism in International Relations Theory. E-International Relations. 2018. Disponível em: https://www.e-ir.info/2018/02/23/introducing-constructivism-in-international-relations-theory/#google_vignette Acesso em: 12 set. 2025.

WENDT, Alexander. Anarchy is What States Make of It: The Social Construction of Power Politics. International Organization. Vol. 46, No. 2. 1992.

WENDT, Alexander. Social Theory of International Politics. Cambridge University Press. 1999.