Rebecca Brito – Internacionalista formada pela UNAMA

O surgimento das Relações Internacionais como campo de estudo foi um processo que teve início com as migrações e atividades das primeiras civilizações. Ao longo do tempo, as transformações do espaço pela ação humana exigiam cada vez mais novas análises de um mundo mais complexo, assim, a necessidade de entender as causas e consequências das dinâmicas mundiais de forma sistematizada impulsionou a criação de uma área científica que contemplasse os questionamentos dos fenômenos materiais e imateriais que moldam o globo.  

As Relações Internacionais nasceram, então, com o principal intuito de evitar a guerra e garantir a paz,  fundamentando-se em um paradigma estatocêntrico, em que Estado e Poder são as duas referências centrais. Além disso, trata-se de um campo que possui forte influência norte-americana e eurocêntrica, dado seu surgimento nesse contexto regional. Comparado a outros cursos, Relações Internacionais ainda é muito jovem, nascida como cátedra na Universidade de Aberystwyth, no Reino Unido, em 1919.

Essa trajetória ajuda a entender como as RI carregam marcas de sua origem, refletindo heranças fundadoras que se reproduziram em outros centros de formação pelo mundo. No Brasil, o curso superior tem origem em 1974, na Universidade de Brasília (UNB); no norte do país, o curso surge em 2006 na Universidade Federal de Roraima (UFRR), no âmbito público e, no setor privado, na Universidade da Amazônia (UNAMA). Além dessas instituições pioneiras no norte,  na região a graduação também é oferecida na Universidade Estadual do Pará (UEPA), Universidade Federal do Amapá (UNIFAP), Universidade Federal do Tocantins (UFT) , entre outras, ampliando o acesso dos estudantes locais à formação superior e fortalecendo a produção acadêmica da região.

Ainda sim, embora haja essa presença, em todo o Brasil existem 112 instituições que oferecem graduação em Relações Internacionais (Folha de São Paulo, 2024) e, quando olhamos para a Amazônia, nota-se que os centros de formação que oferecem esse curso ainda são escassos se comparado a outras regiões, o que torna ainda mais relevante refletir sobre o papel do internacionalista (designação do profissional bacharel em Relações Internacionais) na e da região. 

Diante desse contexto, abre-se espaço para um debate necessário: o que significa formar internacionalistas na Amazônia? Ao invés de se limitar às teorias tradicionais, formar internacionalistas na Amazônia exige estimular o pensamento crítico de forma redobrada. Isso porque a região concentra desafios complexos e uma identidade  que não pode ser explicada pelas lentes anglo-saxãs. 

Além disso, os interesses geopolíticos sobre a Amazônia tornam indispensável a construção de olhares próprios, capazes de traduzir tanto as demandas locais quanto as pressões externas. Nesse sentido, o internacionalista formado na região adquire um olhar mais aprofundado, por estar imerso no contexto amazônico e acompanhar de perto suas complexidades, ao mesmo tempo em que é capacitado teoricamente para situá-los no contexto global. Logo, formar internacionalistas na Amazônia significa preparar profissionais capazes de lidar com questões globais que encontram aqui sua expressão mais urgente. 

É um olhar do Sul global que, mesmo proveniente de uma região historicamente marginalizada, articula saberes locais e conhecimentos multidisciplinares do campo das Relações Internacionais, valorizando a autodeterminação dos povos e oferecendo alternativas críticas à lógica histórica de exploração e exclusão. Essa lógica, vale ressaltar, no que se refere ao meio ambiente, ainda tende a enxergar a natureza como mercadoria e recurso a ser apropriado, distanciando-a da humanidade, quando na realidade somos parte integrante dela.

Sendo assim, o internacionalista da e na Amazônia busca dar a voz que nos foi silenciada por muitos anos nos grandes debates, busca por os amazônidas como protagonistas da sua própria realidade e, ao mesmo tempo, busca o reconhecimento da natureza como parte intrínseca da vida humana, que integra  modos de vida, produção e reprodução social, rejeitando a visão reducionista advinda da mentalidade de colonialidade e da perspectiva capitalista que a trata como objeto. 

Formar internacionalistas na Amazônia significa, portanto, preparar profissionais capazes de intervir criticamente em debates globais, valorizando perspectivas locais e defendendo uma relação mais justa e sustentável entre sociedade e meio ambiente.

Referências:

Ranking de cursos de graduação- Relações Internacionais. Folha de São Paulo. UOL, 2024. Disponível em: https://ruf.folha.uol.com.br/2024/ranking-de-cursos/relacoes-internacionais/. Acesso em: 25 de setembro de 2025.