Caira Queiroz – Acadêmica do 6° semestre de Relações Internacionais da UNAMA.

Mulher, negra, semianalfabeta e catadora de papelão, Carolina Maria de Jesus foi mais que um dos nomes mais emblemáticos da literatura brasileira: encarnou uma disputa simbólica e material contra a fome, o racismo estrutural e a marginalização social (G1, 2022).

Sua escrita rompeu barreiras sociais e raciais, revelando ao Brasil, e ao mundo, as dores, esperanças e contradições da vida na favela, ressignificando seus moradores como sujeitos de direito e agentes de narrativa e questionando as relações de poder impostas pela estrutura econômica e cultural dominante  (IMS, s.d).

Nascida em 1914, Carolina aprendeu a ler e escrever ainda criança, com apenas dois anos de escolaridade formal, em Sacramento (MG). Após mudar-se para São Paulo, sustentava os filhos como catadora de papel, e foi justamente nesse ofício que encontrou os cadernos nos quais registrava o cotidiano da favela do Canindé (Frazão, 2023).

Sua descoberta como escritora ocorreu quando o jornalista Audálio Dantas teve acesso a seus manuscritos, em 1958. Dois anos depois, a publicação de Quarto de Despejo transformou Carolina em fenômeno editorial e social (Nolla, 2025).

A obra, que é um diário da autora escrito no período de 1955 a 1960, foi reconhecida no best-seller internacional e colocou a favela no centro da literatura. Nesta obra, e nas demais, Carolina registrou a fome, a violência, o racismo e a marginalização urbana sem filtros, com autenticidade. 

Esse sucesso repentino trouxe reconhecimento, mas também contradições. Apesar dos reconhecimentos internacionais, Carolina não se beneficiou com o sucesso e não demorou muito para voltar à condição de catadora de papel (Frazão, 2023).

Embora tenha vendido milhares de exemplares, Carolina nunca conseguiu escapar totalmente da condição de precariedade material e do preconceito racial e de classe. Produziu outras obras, como Casa de Alvenaria (1961), em que narrava as mudanças em sua vida após a fama, além de romances inéditos e poemas que só vieram a público postumamente (Warley, s.d.). Sua trajetória mostra a dificuldade de permanência no espaço literário para autores fora das elites culturais, revelando o caráter estrutural da exclusão social no Brasil.

Somente anos após sua morte, passou a ser reconhecida e homenageada como precursora da literatura marginal/periférica, inspirando gerações de escritores e ativistas em vários eventos, documentários, monumentos, obras, etc (Nolla, 2025). A multiartista, já que ela também era cantora, escritora de contos, crônicas, letras de música, peças de teatro e artista têxtil, hoje tem sua herança sendo disputada na Justiça pelas netas e pela filha da autora (G1, 2022).

Nesse sentido, a trajetória de Carolina Maria de Jesus pode ser lida à luz do Pós-Colonialismo, sobretudo das reflexões de Frantz Fanon. Em obras, Fanon analisou como o colonialismo não se limita à exploração econômica, mas se reproduz nas dimensões culturais, psicológicas e sociais, produzindo sujeitos subalternizados e a desumanização dos colonizados (Borges; Castanheira, 2024).  Carolina, com sua voz favelada, rompeu a narrativa dominante da literatura, tradicionalmente produzida por elites brancas, expondo uma visão subalterna da sociedade brasileira. 

Assim como o Pós-Colonialismo denuncia as hierarquias entre centro e periferia no sistema internacional (Bueno, 2025), Carolina expôs, em escala nacional, a hierarquia entre ricos e pobres, brancos e negros, elites e marginalizados. Suas obras são, portanto, um ato de resistência, um questionamento às estruturas de dominação que definem quem pode ser sujeito de conhecimento e quem permanece invisível.

Portanto, Carolina Maria de Jesus representa o direito à voz para aqueles que desejam escrever e não possuem a aceitação de pertencerem à elite que pode falar, demarcando a liberdade e ruptura no mundo das letras. Ou seja, ela é fundamental para olhar além acerca das várias camadas desta conjuntura e dos desafios enfrentados enquanto sociedade.

REFERÊNCIAS

BORGES, Jederson; CASTANHEIRA; Nuno. IDENTIDADE E NEGRITUDE: O LEGADO DE FANON PARA O PENSAMENTO PÓS-COLONIAL.  XXVI ENPÓS – Encontro de Pós Graduação. Pág 2, 2024. Disponível em: https://cti.ufpel.edu.br/siepe/arquivos/2024/CH_06697.pdf

BUENO, Guilherme. Pós-colonialismo e Pós-positivismo nas Relações Internacionais. ESRI, 2025. Disponível em: https://esri.net.br/pos-positivismo-e-pos-colonialismo-guia-completo/

FRAZÃO, Dilva. Carolina Maria de Jesus. Ebiografia, 2023. Disponível em: https://www.ebiografia.com/carolina_maria_de_jesus/

IMS. Maria Carolina de Jesus. Disponível em: https://carolinamariadejesus.ims.com.br/biografia/

G1. Quem foi Carolina Maria de Jesus, uma das mais importantes escritoras do Brasil. G1, 2022. Disponível em: https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2022/08/18/quem-foi-carolina-maria-de-jesus-uma-das-mais-importantes-escritoras-do-brasil.ghtml. Acesso em 29 de setembro de 2025.

NOLLA, Lívia. História de Carolina Maria de Jesus, autora de “O Quarto de Despejo”. Nova Brasil FM, 2025. Disponível em: https://novabrasilfm.com.br/arte-e-cultura/literatura/a-historia-de-carolina-maria-de-jesus-autora-de-o-quarto-de-despejo


SOUZA, Warley. “Carolina Maria de Jesus”; Brasil Escola. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/literatura/carolina-maria-jesus.htm. Acesso em 30 de setembro de 2025.