Keity Silva de Oliveira (Internacionalista formada pela UNAMA)

As transformações tecnológicas das últimas décadas redefiniram não apenas a economia e a comunicação global, mas também o campo da segurança internacional. No século XXI, o ciberespaço consolidou-se como um novo domínio de disputa geopolítica, ao lado da terra, do mar, do ar e do espaço. Os ciberconflitos, confrontos realizados por meio de redes digitais, representam uma das expressões mais sofisticadas das rivalidades interestatais contemporâneas, conforme Rid (2013).

Esses conflitos não se limitam à espionagem ou sabotagem digital: eles atingem infraestruturas críticas, manipulam informações e desafiam as fronteiras tradicionais do uso da força (Rid, 2013). Como destacado pelo autor Joseph Nye (2010), o poder no mundo digital depende tanto da capacidade de “coagir” quanto de “atrair”, e o controle de informação tornou-se um instrumento estratégico de alcance global.

O início dos ciberconflitos remonta à popularização da internet e à digitalização dos sistemas de defesa e comunicação nos anos 1990. No entanto, foi o episódio conhecido como “Guerra da Estônia” (2007) que marcou o primeiro grande ataque cibernético de caráter político. Após a retirada de um monumento soviético em Tallinn, a Estônia, país altamente digitalizado, foi alvo de intensos ataques distribuídos de negação de serviço (DDoS) que paralisaram bancos, meios de comunicação e serviços públicos. O episódio expôs a vulnerabilidade de sociedades conectadas e inaugurou a era da guerra híbrida, em que operações cibernéticas complementam ações convencionais ou informacionais (Rid, 2013).

Poucos anos depois, o vírus Stuxnet (2010), atribuído aos Estados Unidos e a Israel, sabotou centrifugadores nucleares iranianas, retardando o programa nuclear do Irã. O Stuxnet foi o primeiro malware conhecido capaz de causar danos físicos a uma infraestrutura industrial, demonstrando que o ciberespaço pode produzir efeitos concretos comparáveis aos de armas convencionais (Zetter, 2014). Desde então, diversos Estados têm desenvolvido capacidades ofensivas e defensivas nesse campo, transformando o ciberespaço em um campo de dissuasão e competição.

O conceito de ciberpoder, derivado da teoria do poder de Joseph Nye (2011), refere-se à habilidade de um Estado em usar o ciberespaço para alcançar objetivos nacionais, tanto de forma coercitiva quanto persuasiva. Neste sentido, o ciberespaço é um ambiente de guerra assimétrica, onde atores menores ou não estatais podem desafiar potências tradicionais. Grupos como Anonymous, LulzSec e coletivos ligados a causas políticas têm demonstrado como o hacktivismo pode influenciar debates internacionais e desestabilizar governos (Rid, 2013).

Atualmente, as principais potências digitais, Estados Unidos, China e Rússia, lideram a corrida por supremacia cibernética. Segundo o International Institute for Strategic Studies (IISS, 2021, n.p.), apenas oito países possuem “capacidades cibernéticas ofensivas maduras”, entre eles Reino Unido, França e Israel. A China, por exemplo, tem sido acusada de conduzir extensas operações de espionagem digital, como o ataque à Office of Personnel Management dos EUA (2015), enquanto a Rússia foi responsabilizada por interferências eleitorais em 2016 e por campanhas de desinformação que visam desestabilizar democracias ocidentais (Rid, 2020).

Os ciberconflitos contemporâneos transcendem os limites do campo militar e se estendem à esfera informacional. A disseminação de desinformação, deepfakes e manipulação de narrativas nas redes sociais tornou-se uma estratégia recorrente em campanhas políticas e operações psicológicas. A interferência russa nas eleições norte-americanas de 2016 e nas campanhas europeias subsequentes exemplifica como o ciberespaço pode ser usado para corroer instituições democráticas sem o uso direto da força (Helmus et al., 2018).

Esse fenômeno é parte do que especialistas denominam de “guerra híbrida”, uma forma de conflito que combina instrumentos militares, cibernéticos, econômicos e midiáticos para alcançar objetivos estratégicos. A invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022 reforçou essa tendência: ataques cibernéticos precederam as ofensivas terrestres, mirando sistemas de energia, bancos e comunicações. A OTAN classificou o episódio como um marco no uso coordenado de ataques digitais e operações convencionais (NATO, 2022).

A crescente militarização do ciberespaço tem impulsionado esforços internacionais para estabelecer normas e regras de conduta. No âmbito da ONU, o Group of Governmental Experts on Developments in the Field of Information and Telecommunications in the Context of International Security (GGE), criado em 2004, busca definir princípios de comportamento responsável dos Estados. Contudo, a ausência de consenso sobre soberania digital e atribuição de ataques dificulta a criação de um regime internacional efetivo (UNODA, 2021).

Outrossim, a privatização da infraestrutura digital, dominada por corporações como Google, Amazon e Microsoft, introduz novos dilemas éticos e jurídicos. A fronteira entre defesa nacional e segurança corporativa torna-se difusa, e o papel de atores privados no enfrentamento de ameaças cibernéticas ganha centralidade. Em 2023, por exemplo, a Microsoft e a Mandiant identificaram e neutralizaram ataques ligados ao grupo chinês Volt Typhoon, voltados contra infraestruturas críticas nos EUA (Microsoft Security Report, 2023).

Em síntese, os ciberconflitos configuram a nova fronteia das guerras do século XXI, redefinindo os conceitos clássicos de soberania, segurança e poder. O ciberespaço, antes visto como um domínio civil e colaborativo, tornou-se um campo de batalha invisível, no qual as fronteiras são difusas e as consequências, potencialmente globais. A ausência de um marco regulatório internacional eficaz amplia os riscos de escalada e torna urgente o debate sobre ciberdiplomacia, segurança digital e cooperação multilateral.

Portanto, como afirma Nye (2021, a questão central não é apenas “quem controla a tecnologia”, mas “quem define as regras de seu uso”. O futuro das relações internacionais dependerá, em grande medida, da capacidade dos Estados e organizações internacionais de transformar o ciberespaço de um terreno de confronto em um espaço de governança compartilhada e segurança coletiva.

REFERÊNCIAS

HELMUS, Todd et al. Russian Social Media Influence: Understanding Russian Propaganda in Eastern Europe. RAND Corporation, 2018.

INTERNATIONAL INSTITUTE FOR STRATEGIC STUDIES (IISS). Cyber Capabilities and National Power: A Net Assessment. London: IISS, 2021.

MICROSOFT. Digital Defense Report. Redmond: Microsoft Security, 2023.

NATO. Cyber Defence Pledge and Hybrid Warfare Review. Brussels: NATO, 2022.

NYE, Joseph S. Cyber Power. Harvard Kennedy School, 2010.

NYE, Joseph S. The Future of Power. New York: PublicAffairs, 2011.

NYE, Joseph S. Do Morals Matter? Presidents and Foreign Policy from FDR to Trump. Oxford: Oxford University Press, 2021.

RID, Thomas. Cyber War Will Not Take Place. London: Oxford University Press, 2013.

RID, Thomas. Active Measures: The Secret History of Disinformation and Political Warfare. New York: Farrar, Straus and Giroux, 2020.

UNITED NATIONS OFFICE FOR DISARMAMENT AFFAIRS (UNODA). Developments in the Field of Information and Telecommunications in the Context of International Security. UN Report, 2021.

ZETTER, Kim. Countdown to Zero Day: Stuxnet and the Launch of the World’s First Digital Weapon. New York: Crown, 2014.