Railson Silva (acadêmico do 8º semestre de RI da UNAMA)

O vasto campo das Relações Internacionais (RI), desde sua consolidação como disciplina acadêmica autônoma, tem sido palco de intensos debates paradigmáticos.  E dentre as correntes teóricas mais influentes, o realismo ocupa uma posição central, sofrendo significativas reformulações ao longo do século XX. Kenneth Waltz trouxe para teoria uma roupagem mais sistemática e “científica”, dando origem ao que se convencionou chamar de Neorrealismo ou Realismo Estrutural. Contudo, enquanto Waltz (1979) privilegiou uma visão sistêmica e estática, focada na distribuição de capacidades em um sistema anárquico, Robert Gilpin emergiu como um pensador crucial que reintroduziu a dinâmica histórica, a mudança sistêmica e a economia política no cerne da análise realista.

O neorrealismo estrutural, formulado por Kenneth Waltz em Theory of International Politics (1979), concebe o sistema internacional como um ambiente anárquico, no qual os Estados buscam segurança e sobrevivência. De acordo com Waltz (1979), as diferenças entre os Estados não são funcionais, mas de capacidade, o que significa que a estrutura do sistema é definida pela distribuição de poder entre eles.

Gilpin dialoga diretamente com essa tradição, porém ele dá mais ênfase na dimensão econômica do poder. Para o autor, a economia internacional é sempre politicamente estruturada, e o mercado global reflete as relações de poder entre Estados (Gilpin, 2001). E embora reconheça a crescente importância dos atores não estatais, como corporações transnacionais e organizações internacionais, ele afirma que o Estado permanece o ator político fundamental do sistema internacional (Gilpin, 1987).

Para o teórico, o sistema econômico internacional não é autônomo, mas um reflexo da distribuição de poder político. Ele argumenta que a economia internacional é moldada e limitada pelas forças políticas. Nesse sentido, a economia global está subordinada às estratégias dos Estados e às suas posições no sistema de poder.

Ele também desenvolve a teoria da estabilidade hegemônica, segundo a qual a estabilidade econômica e política internacional depende da existência de uma potência hegemônica capaz de prover os bens públicos, como segurança, moeda de reserva e acesso a mercados. Essa ideia  assume que a liderança hegemônica é condição necessária para a manutenção de uma economia internacional liberal (Gilpin, 2004).

Logo, a ascensão e o declínio das hegemonias seguem um ciclo histórico: uma potência dominante organiza o sistema internacional segundo seus interesses, mas, com o tempo, seu poder relativo declina devido à difusão de capacidades e ao crescimento de rivais. Esse processo conduz à instabilidade e, frequentemente, à transição de poder, um tema que ele considera recorrente na história das relações internacionais.

Ademais, em Global Political Economy: Understanding the International Economic Order, Gilpin (2001) aprofunda a relação entre poder e economia, argumentando que a interação entre forças políticas e econômicas é uma constante da história. A busca por riqueza e segurança está intimamente interligada, e os Estados utilizam seus recursos econômicos para sustentar posições políticas e militares.

Sob essa perspectiva, o autor afirma que a hegemonia internacional é sustentada tanto por superioridade militar quanto pela capacidade de moldar as regras econômicas globais (Gilpin, 2001). A hegemonia, portanto, não se baseia apenas em poder coercitivo, mas também na criação de uma ordem internacional favorável aos interesses do Estado dominante.

Assim, o declínio hegemônico, segundo Gilpin, é inevitável. Com o tempo, a difusão tecnológica e o crescimento de outras economias corroem a superioridade relativa do hegemon, gerando tensões e competição (Gilpin, 1987). Esse processo, quando mal administrado, pode resultar em conflitos interestatais ou crises econômicas sistêmicas.

Em suma, ao destacar a interdependência entre poder e riqueza, Gilpin (2001) fornece uma estrutura analítica robusta para compreender fenômenos contemporâneos, como a ascensão da China, a crise do sistema financeiro internacional e as disputas tecnológicas entre grandes potências. Sua visão reafirma que, mesmo diante da globalização, o Estado continua sendo o principal ator das Relações Internacionais. Suas obras permanecem essenciais para interpretar as dinâmicas de hegemonia e mudança no sistema internacional contemporâneo.

Referências:

GILPIN, Robert. War and Change in World Politics. Cambridge: Cambridge University Press, 1981.

GILPIN, Robert. The Political Economy of International Relations. Princeton: Princeton University Press, 1987.

GILPIN, Robert. Global Political Economy: Understanding the International Economic Order. Princeton: Princeton University Press, 2001.

WALTZ, Kenneth. Theory of International Politics. Reading: Addison-Wesley, 1979.