
Ana Victória Padilha e Gabriele Nascimento (acadêmicas do 4º semestre de RI da UNAMA)
Carla Lima (acadêmica do 5º semestre de RI da UNAMA)
A Pan-Amazônia, região que abrange partes do território de nove países sul-americanos — Brasil, Colômbia, Peru, Venezuela, Bolívia, Equador, Guiana, Guiana Francesa e Suriname — representa um dos espaços geopolíticos mais estratégicos e vulneráveis do planeta. Ambicionado por sua biodiversidade, recursos naturais e diversidade cultural, essa vasta área também se tornou um corredor privilegiado para o narcotráfico transnacional.
A complexidade do fenômeno do tráfico de drogas na região não pode ser compreendida apenas sob a ótica criminal; ela exige uma abordagem mais ampla, que considere os impactos sobre a soberania dos Estados, a segurança das populações locais, a integridade ambiental e a estabilidade política regional.
A situação do narcotráfico na região da Pan-Amazônia se entende como um problema de segura transnacional. A luz da teoria de securitização, ótica teórica fornecida pela então aclamada Escola de Copenhague, através dos autores Barry Buzan e Ole Wæver, que segundo Mikkel Flohr (2025), buscavam analisar e desafiar a dinâmica política que facilita e legitima o surgimento de medidas emergenciais em todo o mundo para um determinado fenômeno. A problemática do narcotráfico pode ser plenamente analisada.
Para Buzan e Wæver (1998), o “dilema da segurança” na política internacional, aparece quando um fenômeno específico é caracterizado por meio de um ator poderoso, geralmente o Estado ou governo, como uma ameaça existencial, legitimando o uso de medidas extraordinárias para combatê-lo num constante de um processo securativo.
Nessa perspectiva, a região Pan-Amazônica compreende os territórios que possuem parte da floresta amazônica em seu território. Trata-se de uma construção identitária e geopolítica baseada na percepção de que os povos amazônidas compartilham desafios semelhantes no interior da floresta tropical em que vivem.
Apesar de sua riqueza ambiental e cultural, a Pan-Amazônia enfrenta diversos desafios relacionados ao combate ao narcotráfico, o qual encontra na região um espaço propício para conexões com o crime organizado, facilitando a comercialização de substâncias ilícitas, apresentando-se, assim, como um problema transfronteiriço que impacta diretamente a floresta e seus povos.
Para as redes de narcotráfico, a Pan-Amazônia funciona como um corredor logístico fundamental, facilitando a produção, o transporte e a exportação de substâncias ilícitas, como a cocaína.
Segundo Couto (2017), a Amazônia brasileira é uma rota primária obrigatória dos fluxos de cocaína que seguem dos países andinos, sobretudo Colômbia, Peru e Bolívia, para a Europa e a África. bem como, uma rota que permite a saída da cocaína dos países andinos – principalmente Colômbia, Peru e Bolívia – para o mercado europeu e africano.
Portanto, sob essa perspectiva, a bacia amazônica, torna-se um grande corredor de tráfico internacional, alimentando inclusive o mercado interno brasileiro. Couto (2017) também observa que essas redes operam de forma semelhante a empresas multinacionais, com estruturas hierárquicas e divisão de tarefas bem definidas.
A geografia amazônica, marcada por fronteiras porosas e difícil vigilância, favorece o escoamento da droga em direção ao Brasil e à Guiana, de onde segue para a Europa e a África Ocidental. As redes ilícitas aproveitam a ausência estatal em vastas áreas da floresta (Batista, 2020), utilizando rios como o Solimões, o Japurá e o Putumayo como “corredores invisíveis” do narcotráfico.
Durante a década de 1980, a “guerra às drogas” liderada pelos Estados Unidos intensificou o enfrentamento militarizado ao narcotráfico, especialmente com o Plano Colômbia. Esse plano destinou mais de US$ 10 bilhões à cooperação entre Washington e Bogotá, priorizando operações antinarcóticos e contra insurgentes. O impacto foi o deslocamento das rotas e a dispersão das redes criminosas para outros países amazônicos, fenômeno conhecido como efeito balão, conforme Mejía & Restrepo (2016).
Nos anos 2000 e 2010, a integração sul-americana, impulsionada pela Iniciativa para a Integração da Infraestrutura Regional Sul-Americana (IIRSA), ampliou as conexões logísticas entre fronteiras. Paradoxalmente, essa integração também facilitou o trânsito ilícito de mercadorias e drogas, mostrando a interdependência entre desenvolvimento e segurança.
Essa complexidade revela o caráter transnacional do fenômeno, articulando-se com outras economias ilícitas, como o garimpo ilegal, a extração de madeira, o tráfico de pessoas e a lavagem de dinheiro.
Nesse cenário, a cocaína tem ganhado destaque no mercado de drogas ilícitas, como o que mais cresce no mundo. Conforme dados do Relatório Mundial sobre Drogas da ONU de 2025 (UNODC, 2025), a produção ilegal disparou para 3.708 toneladas, quase 34% a mais do que em 2022. As apreensões globais de cocaína atingiram um recorde de 2.275 toneladas – um aumento de 68% em relação ao período de 2019-2023.
Esses números demonstram que o narcotráfico permanece em expansão e continua desafiando as capacidades estatais e a cooperação internacional.
Por representar um problema transfronteiriço e que se articula dentro dos Estados, o narcotráfico representa ameaça a soberania, visto que mantém conexões com o crime organizado e se envolver, para além do tráfico de drogas, em diversos crimes na região amazônica, como: como tráfico de pessoas, garimpo ilegal, lavagem de dinheiro, extração de madeira e tráfico de animais selvagem.
À luz da teoria de Buzan e Wæver (1998), a segurança pode ser analisada a partir de cinco setores: militar, político, econômico, social e ambiental. No contexto amazônico, o narcotráfico manifesta-se simultaneamente em todos esses domínios. No setor militar, destaca-se o aumento da violência armada e das disputas territoriais entre facções criminosas, como o Comando Vermelho (CV), o Primeiro Comando da Capital (PCC) e a Família do Norte (FDN).
Segundo o relatório “Cartografias da Violência na Amazônia” (REPAM, 2024), facções criminosas estão presentes em 178 dos 772 municípios da Amazônia Legal, o que corresponde a 23% do total e abrange 57,9% da população regional. Em 80 desses municípios há disputas diretas entre grupos rivais pelo controle das rotas do tráfico, especialmente ao longo do rio Solimões.
No setor político, o narcotráfico desafia a soberania dos Estados ao enfraquecer instituições e corromper agentes públicos. No setor econômico, movimenta bilhões em fluxos ilícitos, comprometendo o desenvolvimento formal, além de provocar degradação ambiental, relacionado também ao setor ambiental. Por fim, no setor social, fragmenta o tecido comunitário e aumenta a vulnerabilidade das populações indígenas e ribeirinhas.
A securitização do narcotráfico na Pan-Amazônia se reflete nas políticas de defesa e controle implementadas por países da região. No Brasil, operações como Ágata, Hórus e Verde Brasil, coordenadas pelo Ministério da Defesa desde 2011, exemplificam a militarização das fronteiras com foco na repressão a atividades ilícitas. Entre 2011 e 2021, essas operações resultaram na apreensão de mais de 350 toneladas de drogas, conforme o Ministério da Defesa (2022).
Entretanto, a resposta militar isolada mostra-se insuficiente. O Tratado de Cooperação Amazônica (TCA), institucionalizado como OTCA em 1998, busca promover a cooperação entre os Estados amazônicos, embora ainda enfrente desafios de coordenação e recursos limitados. Como destaca Tanno (2003), a Pan-Amazônia pode ser compreendida como um complexo regional de segurança, no qual as ameaças e vulnerabilidades de um país afetam diretamente os demais.
Dessa forma, o narcotráfico se configura como um fenômeno que reúne todos os critérios de securitização internacional, pois desperta respostas emergenciais e políticas de defesa que ultrapassam fronteiras nacionais. Ao mesmo tempo, a Pan-Amazônia pode ser compreendida como um complexo regional de segurança, conforme Barry Buzan apud Grace Tanno (2003), em que as ameaças e vulnerabilidades de um país afetam diretamente os demais, exigindo cooperação e ação conjunta:
“Um complexo de segurança é definido como um conjunto de unidades cujos principais processos de securitização e desecuritização, ou ambos, são tão interligados que seus problemas de segurança não podem ser razoavelmente analisados ou resolvidos de maneira separada” (WÆVER, 1998, p. 201 apud TANNO, 2003, p. 70).
Portanto, a partir da teoria da securitização, compreende-se que o narcotráfico foi elevado à condição de ameaça existencial, justificando a adoção de medidas excepcionais por parte dos governos. No entanto, tais medidas, quando isoladas e militarizadas, tendem a produzir efeitos colaterais indesejados, como o aumento da violência e a criminalização de populações vulneráveis, conforme Tanno (2003).
Dessa forma, é fundamental que a resposta ao narcotráfico no território seja construída de forma cooperativa, envolvendo os países da região em um esforço conjunto de segurança, desenvolvimento sustentável e fortalecimento institucional.
A Pan-Amazônia deve ser compreendida como um complexo regional de segurança, em que as ameaças enfrentadas por um país reverberam nos demais, exigindo soluções estruturadas, que sejam condizentes com a governança necessária. A superação do narcotráfico como ameaça securitizada guia-se pela articulação entre políticas de segurança, justiça social e proteção ambiental, reconhecendo a centralidade da Amazônia no equilíbrio geopolítico e ecológico do planeta e do sistema internacional.
Diante das análises levantadas, recomenda-se o documentário “Snow of the Andes – Peru’s Cocaine” (2015). Produzido pelo Al Jazeera, mostra o combate ao narcotráfico no país considerado o maior produtor de cocaína do mundo, e como as atividades dos cartéis aumentaram os níveis de violência e corrupção no Peru.
< https://www.aljazeera.com/video/featured-documentaries/2015/11/27/snow-of-the-andes-perus-cocaine >
Recomenda-se também o documentário “Amazônia Proibida: Na Fronteira do Tráfico” (2016). Neste documentário, o jornalista David Beriain viaja pela Pan-Amazônia investigando atividades ilegais e organizações criminosas que dominam as regiões. O conteúdo mostra de perto as atividades do crime organizado e a realidade dos civis afetados pelos conflitos.
< https://youtube.com/playlist?list=PLQtKWvsWFC-AIKO3tNku6HWa9uTA4PtSr&si=x0U9Imuz0x1EwkXz >
Por fim, recomenda-se a leitura do artigo “Do poder das redes as redes do poder: necropolítica e configurações territoriais sobrepostas do narcotráfico na Metrópole de Belém-PA” (2017). A tese de Aiala Colares discorre acerca da necropolítica e sobre como os territórios da região metropolitana de Belém são configurados a partir das ações do narcotráfico.
< https://repositorio.ufpa.br/items/3caace4b-3f1e-4c5f-99c0-88c590dae858 >
REFERÊNCIAS
BATISTA, Ricardo. Geopolítica da Amazônia e o Narcotráfico Transnacional. Revista Brasileira de Estudos de Defesa, v. 7, n. 2, 2020.
BUZAN, Barry; WÆVER, Ole; DE WILDE, Jaap. Security: A New Framework for Analysis. Boulder: Lynne Rienner Publishers, 1998.
COUTO, Aiala Colares. Ameaça e caráter transnacional do narcotráfico na Amazônia Brasileira. Publicado em 2017 pelo CONFINS JOURNAL. Acesso em: 11 de Out. de 2025. Disponível em: < https://journals.openedition.org/confins/25852#:~:text=64%20A%20Amaz%C3%B4nia%20brasileira%20cumpre,sendo%20utilizada%20como%20corredor%20de > .
REPAM. Degradação ambiental, crimes e narcotráfico na Amazônia. Publicado em 15 de Maio de 2024 pelo REPAM. Acesso em: 11 de Out. de 2025. Disponível em: < https://repam.org.br/degradacao-ambiental-Crimes-e-narcotrafico-na-amazonia/ >.
FLOHR, Mikkel. Key Concept: Securitization (Copenhagen School). CRITICAL LEGAL THINKING. Publicado em: 31 de março de 2025. Acesso em: 12 de Out. de 2025. Disponível em: < https://criticallegalthinking.com/2025/03/31/key-concept-securitization-copenhagen-school/ >
MEJÍA, Daniel; RESTREPO, Pascual. The War on Illegal Drugs in Colombia: A Historical, Political and Economic Perspective. Journal of Economic Perspectives, v. 30, n. 3, 2016.
MINISTÉRIO DA DEFESA (Brasil). Operações Ágata e Hórus: balanço de resultados 2011–2021. Brasília: MD, 2022.
NAÇÕES UNIDAS. Relatório Mundial sobre Drogas 2025 do UNODC: Instabilidade global agrava custos sociais, econômicos e de segurança do problema mundial das drogas. UNODC. Publicado em: 26 de jun. de 2025. Acesso em: 11 de Out. de 2025. Disponível em: < https://www.unodc.org/cofrb/pt/noticias/2025/6/relatorio-mundial-sobre-drogas-2025-do-unodc_-instabilidade-global-agrava-custos-sociais–economicos-e-de-seguranca-do-problema-mundial-das-drogas.html >.
TANNO, Grace. A contribuição da Escola de Copenhague aos Estudos de Segurança Internacional no Contexto Internacional. Publicado entre: janeiro e julho de 2003. Disponível em: < https://www.scielo.br/j/cint/a/cmMZVcmhLFZdMgVzB9k6dNw/?lang=pt&format=pdf >
