Julia Castro, acadêmica do 8º semestre de Relações Internacionais da Unama

Ficha Técnica:

Ano: 2005

Direção: Sydney Pollack

Distribuição: Universal Pictures

Gênero: Suspense

Países de Origem: Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha

O thriller político “A Intérprete” gira em torno de Silvia Broome, intérprete da ONU que inesperadamente escuta uma ameaça direcionada a um chefe de Estado africano. A partir desse instante, a história se desenrola em um ambiente de tensão diplomática e investigação, onde se cruzam interesses internacionais, segredos pessoais e questões de segurança global (AdoroCinema, 2025). Ambientado no próprio prédio da ONU, o cenário amplia a sensação de veracidade e aprofunda a reflexão sobre as complexas relações entre Estados.

O enredo acompanha Silvia Broome, uma intérprete que trabalha na Organização das Nações Unidas (ONU) em Nova York. Silvia nasceu e foi criada no país fictício da República do Matobo, na África, e tem dupla nacionalidade. A ONU está considerando a acusação de crimes contra o presidente do Matobo, Edmond Zuwanie, que começou como libertador, mas se tornou um líder tirano e corrupto, responsável por massacres étnicos.

Durante um expediente, Silvia ouve acidentalmente uma conversa em um dialeto raro sobre um plano de assassinato contra Zuwanie. Ela informa a segurança da ONU, deflagrando uma investigação que envolve o agente do Serviço Secreto dos EUA, Tobin Keller. Ao comunicar o ocorrido, a ONU inicia uma investigação e passa a protegê-la. Paralelamente, um agente especial é designado para investigar a autenticidade da ameaça e o passado de Silvia, já que surgem dúvidas sobre seu possível envolvimento em uma conspiração internacional.

A narrativa demonstra de que forma a ONU, enquanto entidade supranacional, constitui um espaço significativo para a atuação e interação de vários atores internacionais. Assim, o filme se alinha de maneira eficaz à teoria neoliberal das Relações Internacionais, que destaca a relevância das organizações internacionais, a interconexão entre os países e a colaboração baseada em regras para a resolução de conflitos e preservação da ordem global. Tal teoria admite que, embora os Estados tenham interesses próprios, é essencial estabelecer instituições como a ONU para fomentar o diálogo e a colaboração mútua (Sarfati, 2005).

O enredo retrata elementos fundamentais, como o conceito de interdependência complexa, que enfatiza que diversos atores, sejam eles estatais ou não, afetam a política internacional por meio de canais interligados, com base nas pesquisas de Robert Keohane e Joseph Nye (1977). Ao contrário da perspectiva realista que valoriza a força militar (hard power), Keohane e Nye destacam o papel das instituições multilaterais e do poder fundamentado na cooperação e nas normas (soft power). Segundo os autores, a interdependência é formada por efeitos mútuos entre países ou agentes. As relações de interdependência não precisam, necessariamente, trazer benefícios para ambas as partes, pois podem envolver altos custos (Sarfati, 2005).

A trama destaca a complexidade das relações de poder, a interdependência entre os Estados e a relevância das normas institucionais para evitar ações unilaterais e violentas, como ameaças e possíveis assassinatos políticos. As Nações Unidas simbolizam esse espaço institucional em que interesses distintos são discutidos para reduzir conflitos, espelhando a lógica neoliberal de que a colaboração institucional é viável, mesmo em um sistema anárquico. A intérprete, responsável por traduzir discursos e atos, representa essa mediação institucional que o neoliberalismo valoriza para gerenciar as relações internacionais visando à cooperação e à resolução pacífica de conflitos.

Em suma, a obra cinematográfica apresenta uma narrativa que reforça a relevância do pensamento neoliberal nas relações internacionais, mostrando que a estabilidade e a cooperação global dependem da atuação de instituições internacionais robustas e da mediação entre atores diversos. O longa-metragem reflete os preceitos da teoria neoliberal ao mostrar a ONU como espaço imprescindível para a mediação de conflitos, em contraponto às ações unilaterais de força. 

REFERÊNCIAS:

ADOROCINEMA. A Intérprete. 2025. Disponível em: https://www.adorocinema.com/filmes/filme-52502/

KEOHANE, Robert O.; NYE, Joseph S. Power and Interdependence: World Politics in Transition. Boston: Little, Brown, 1977.


SARFATI, Gilberto. Teorias de Relações Internacionais. São Paulo: Saraiva, 2005.