
Marcelo Andrade de Freitas – 6º semestre de Relações Internacionais
Fundada em 1945, após a devastação de duas guerras mundiais, a Organização das Nações Unidas (ONU) personificava a esperança máxima no multilateralismo e nas instituições internacionais. Seu preâmbulo, que se inicia com as memoráveis palavras “Nós, os povos das Nações Unidas”, refletia a crença de que os desafios e temas globais só poderiam ser superados por meio da cooperação, do diálogo e do respeito ao direito internacional. Ao longo de oito décadas, a ONU mediou conflitos, estabeleceu normas e promoveu uma visão de desenvolvimento compartilhado, alcançando, no pós-Guerra Fria, sua era de ouro do multilateralismo, período que levou autores como o célebre filósofo e economista Fukuyama (2015) a descrevê-lo como o “fim da história”.
No entanto, no século XXI, as Nações Unidas encontram-se sob intensa tensão, situadas no epicentro de uma crise que abala a própria visibilidade e legitimidade das instituições multilaterais, em um mundo cada vez mais fragmentado, marcado pelo ressurgimento de movimentos nacionalistas e pela reconfiguração do poder geopolítico. Tal crise não é um fenômeno isolado, mas o resultado de uma convergência de tendências profundas.
Em primeiro lugar, observa-se o ressurgimento de políticas nacionalistas e unilaterais por parte de potências centrais, notadamente os Estados Unidos, sob a administração Trump, e a Rússia de Vladimir Putin, têm priorizado políticas agressivas, desprezando as instituições internacionais quando estas conflitam com seus interesses nacionais imediatos, como exemplifica a invasão russa à Ucrânia, em curso desde 2022, além das políticas comerciais altamente protecionistas dos Estados Unidos, expressas no estabelecimento de tarifas a diversas nações do globo (Bekkevold, 2025)
Em segundo lugar, a transição no equilíbrio de poder global, marcada pela ascensão da China e pela evolução dos desafios transnacionais, como as mudanças climáticas, a cibersegurança e os fluxos migratórios em massa, constitui uma dinâmica que não respeita e coloca à prova as concepções tradicionais de fronteiras nacionais (Bekkevold, 2025). Essa situação exige respostas coletivas complexas e rápidas, para as quais a estrutura burocrática e, muitas vezes, limitada da ONU mostra-se despreparada. A dificuldade em implementar acordos climáticos ambiciosos, como o Acordo de Paris, ou em coordenar uma resposta global equitativa às pandemias reforça a percepção de que o sistema multilateral é ineficaz.
Do ponto de vista teórico, a análise da atual encruzilhada pode ser iluminada pelo artigo Neorrealista do ex-diplomata e pesquisador de Relações Internacionais, Bekkevold (2025), que defende que a era do multilateralismo como a conhecemos está, de facto, findando. Bekkevold (2025) argumenta que o sistema multilateral pós-Segunda Guerra, centrado na ONU e construído sobre a hegemonia liberal ocidental, entrou em colapso irreversível. Este modelo, que funcionou em um mundo bipolar e depois unipolar, mostrou-se incapaz de se adaptar à nova realidade de competição estratégica entre grandes potências, notadamente entre os Estados Unidos e a China.
Em vez de um multilateralismo universalista, Bekkevold (2025) prevê o surgimento de uma “nova ordem de segmentos”, na qual a cooperação internacional não desaparece, mas se fragmenta em esferas de influência e em coalizões de países alinhados por interesses e valores específicos, muitas vezes em torno de uma potência hegemônica regional. Neste contexto, a ONU não se dissolve, mas vê sua autoridade e eficácia drasticamente reduzidas, tornando-se um palco entre outros para este jogo de poder fragmentado, onde as regras consensuais são substituídas por manobras geopolíticas de blocos rivais.
Tal tese encontra sólida fundamentação na visão estrutural do sistema internacional proposta por Waltz (2001). Para Waltz (2001), teórico Neorrealista icônico das relações internacionais, a política global é anárquica: sem uma autoridade central, os Estados agem prioritariamente para garantir sua própria sobrevivência e segurança. Nessa estrutura, a cooperação é limitada e precária, pois os Estados competem por poder e temem que a interdependência gerada por instituições multilaterais se traduza em vulnerabilidade.
Nesse sentido, a visão de Bekkevold (2025) sobre a fragmentação do sistema em uma “nova ordem de segmentos” representa uma manifestação concreta do princípio waltziano. Observa-se uma redistribuição de capacidades no sistema internacional, com a ascensão da China e o reposicionamento de outras potências, levando os Estados a formarem coalizões menores, baseadas em interesses específicos, em vez de confiar em um projeto cooperativo universal.
Em suma, a fragmentação do sistema internacional e a ascensão de novas potências evidenciam a intensificação da competição entre Estados e a necessidade de realinhamentos estratégicos. Nesse contexto, a ONU continua sendo um pilar essencial do multilateralismo e da cooperação internacional. Mesmo com suas limitações, sua manutenção é indispensável: sem ela, os conflitos se tornariam mais intensos e a coordenação entre Estados, ainda mais precária. Fortalecer e defender essa instituição é, portanto, crucial para garantir estabilidade, diálogo e soluções coletivas em um mundo cada vez mais complexo.
Referências:
FUKUYAMA, Francis. O fim da história e o último homem. 1. ed. Rio de Janeiro: Rocco, 2015. 488 p. ISBN 978-8532501295.
BEKKEVOLD, Jo Inge. The Golden Age of Multilateralism Is Over: And it cannot be revived by China, Europe, post-Trump America, or the global south. Foreign Policy Magazine, 12 set. 2025. Disponível em: https://www.foreignpolicy.com. Acesso em: 21 out. 2025. WALTZ, Kenneth N. Man, the State, and War: A Theoretical Analysis. 1. ed. Nova York: Columbia University Press, 2001. 263 p. ISBN 978-0-231-12537-6.
